Mais 'Europa' na Bélgica

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Muitos apontam Bruxelas como "capital da Europa", mas a realidade mostra-nos que o caminho seguido pela política belga é precisamente o inverso do rumo traçado por essa mesma "Europa". Enquanto que na Bélgica as regiões reclamam mais poderes à custa do poder central, os Estados membros abdicaram de grandes fatias da soberania em favor de um centro político. À medida que crescem as reivindicações flamengas no controlo total do seu financiamento, fiscalidade, justiça ou emprego, são cada vez mais as áreas estaduais transferidas para a gestão das instituições europeias. Deste ponto de vista, a Bélgica, como albergue do institucionalismo europeu, acaba por se espelhar como um péssimo exemplo do modelo seguido na integração europeia. Mas este não é o único paradoxo.

A Bélgica começou e terminou a presidência rotativa da União Europeia sem um governo formado. Os independentistas flamengos - multiplicaram por dez a votação em três anos - são hoje o maior partido, com apelos à "evaporação progressiva" do país, ao fim do sustento económico ao sul francófono e ao radicalismo xenófobo que, infelizmente, também faz escola noutras paragens. Já se bateram todos os recordes europeus em impasse governativo, intransigência negocial, radicalismo de posições. Ao invés, no reino da União Europeia, impera a bonomia do discurso, o cinzentismo das lideranças e a preservação de governos maioritários como mecanismo de confiança nos mercados. Melhor dizendo: busca de compromissos, soluções pactadas e acordos de governação forçados pela realidade financeira. Se a Bélgica conseguir adoptar as particularidades desta "Europa", pode ser que a moderação regresse e partidos sistémicos assumam o protagonismo necessário. Já bastaram dois ou três tresloucados para pôr um continente de pernas para o ar.

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