Os acontecimentos que começaram em Paris trouxeram energia e esperança aos opositores do regime espanhol que estavam "agachados" para não ser reprimidos, mas que procuravam desesperadamente alcançar a liberdade e o estado de bem-estar que disfrutavam os seus vizinhos europeus.."Houve um fenómeno inicial de imitação que teve a forma de pequenas greves e, sobretudo, de manifestações universitárias, imediatamente sufocadas com brutalidade pelos célebres 'cinzentos'" (a polícia franquista), explicou à agência Lusa o jornalista, escritor e ex-diretor de informação do El País, Joaquín Estefanía..Os jovens universitários espanhóis lideraram a contestação através da realização de 'saltos' (cortes de estradas para chamar a atenção por pessoas que rapidamente fugiam) e de concentrações de alunos convocados com pouca antecedência e que terminavam assim que a polícia chegava..Professores, estudantes e intelectuais também discutiam a falta de liberdade e os novos ventos que chegavam do estrangeiro em reuniões que apresentavam como sendo para tratar de temas culturais e realizadas, na maior parte dos casos, em igrejas e conventos..Enquanto em Paris operários e estudantes estavam juntos nas barricadas, o cantor Raimon (Ramón Pelegero Sanchis) deu um recital "mítico", em catalão, na Faculdadede Ciências Políticas e Económicas de Madrid, considerado por Joaquín Estevanía como "um canto contra a asfixia política"..Raimon cantou nessa ocasião, pela primeira vez, a "extraordinária" canção '18 de maio na vila' que resume o espírito de maio de 1968 na capital espanhola, e nesse mesmo ano um outro cantor catalão, Joan Manuel Serrat, recusou-se a ir ao festival da Eurovisão por ter sido impedido de cantar na sua língua..Na mesma altura, o jornal Madrid, um dos mais críticos do sistema franquista, publicou um editorial com o título "Retirar-se a tempo. Não ao General De Gaulle", que fazia uma analogia entre o presidente francês e o ditador espanhol.."Ele foi encontrado velho e querendo manter-se no governo, com uma crise que pode acabar com ele, que não resolveu a tempo, nem a organização do partido, que podia continuar a sua obra, nem a preparação adequada do seu possível sucessor (...). O problema da sucessão de De Gaulle e do regime da V República, também com estas características é colocado em Espanha", escrevia o diretor da publicação, Rafael Calvo Serer, conhecido pelas suas ligações à Opus Dei..O Madrid foi censurado pela polícia política de Franco e a sua publicação suspendida durante dois meses..Em agosto de 1968 Espanha também assistiu aos primeiros atentados à bomba da ETA, um movimento de extrema-esquerda que lutava pela autodeterminação do País Basco, que seguia a ideologia anti-imperialista e de guerrilha que inspirava, na época, os grupos marxistas em todo o mundo.."A Espanha estava, na altura, no seu estado prévio ao espírito de 68. Estava à procura das liberdades e da proteção social que já tinham conseguido outros países europeus. Tinha pelo menos duas décadas de atraso", concluiu Joaquín Estefanía, que acaba de publicar o livro "Revoluções, Cinquenta anos de rebeldia 1968-2018"..O aparecimento de todos esses direito sociais e políticos tiveram de esperar mais dez anos, pela morte do ditador Francisco Franco em 1975 e posterior transição democrática que levou à atual Constituição, aprovada em referendo em 1978.