"Mãe/pai, e se a nossa casa arde?"

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Muitas crianças experienciam emoções diversas associadas aos incêndios que têm deflagrado em Portugal e não só. Falamos de uma situação que é potencialmente traumática, por constituir uma ameaça para a vida e segurança das pessoas, de natureza excecionalmente temível ou catastrófica.

A forma como as crianças reagem a esta situação varia em função de diversos fatores, sejam individuais (como a idade, maturidade, resiliência, significado que atribuem à situação, experiência prévia de situações adversas), familiares (p. ex., reação dos pais/cuidadores, suporte parental) ou sociais (relacionados com o contexto onde vivem e o suporte social que recebem).

Assim, podemos afirmar que não existe uma reação padronizada (igual) em todas as crianças, embora seja comum sentirem medo, tristeza, raiva, ansiedade ou preocupação. A nível comportamental, podem revelar maior dependência das figuras cuidadoras, birras, agitação psicomotora, agressividade ou, ainda, alterações do sono ou da alimentação. Outras crianças apresentam regressões comportamentais e podem voltar a fazer chichi na cama ou a usar chucha, por exemplo. As reações somáticas, como dores difusas ou localizadas, náuseas ou mesmo estados febris, são também frequentes.

Neste contexto, o que podem os pais/cuidadores fazer para ajudar as crianças e prevenir a evolução de uma reação mais aguda de stress para outro tipo de perturbação, de maior gravidade?

Deixamos aqui algumas sugestões concretas:

1. Transmita a ideia de que não existem assuntos tabu e que expressar as preocupações e emoções nos ajuda a lidar com elas.

2. Incentive a criança a falar sobre o que está a pensar e a sentir, ou a expressar-se de forma simbólica (atividades lúdicas, desenho, modelagem, pinturas, etc.).

3. Escute ativamente e esteja atento ao que ela lhe diz ou não diz (lembre-se de que, muitas vezes, as crianças comunicam através do silêncio, das brincadeiras ou dos desenhos).

4. Valide e aceite as suas emoções ("é natural que te sintas assim...", "percebo que possas sentir...").

5. Dê-lhe alguma informação sobre os incêndios (nomeadamente, como podem ser prevenidos), utilizando uma linguagem simples e que ela compreenda.

6. Corrija eventuais distorções na forma de pensar (p. ex., se a criança expressar culpa ou a ideia de que esta situação nunca irá passar).

7. Transmita segurança e otimismo ("pode demorar algum tempo, mas a situação vai melhorar e as nossas vidas vão voltar ao habitual").

8. Limite o acesso aos meios de comunicação social, de modo a prevenir a exposição a imagens ou notícias mais catastróficas.

9. Encoraje a realização de atividades que gerem prazer, para ajudar a distrair e a experienciar emoções mais agradáveis.

10. Mantenha as rotinas e atividades habituais, de modo a potenciar a sensação de previsibilidade e de controlo.

11. Envolva a criança em atividades de ajuda aos outros e à comunidade, para que se sinta útil e parte do processo de recuperação da situação.

12. Caso as alterações emocionais ou de comportamento da criança persistam durante algumas semanas, peça ajuda especializada a um psicólogo.

13. Não devemos esquecer-nos de nós próprios, adultos. Se não estivermos bem, como poderemos ajudar as nossas crianças? Esteja atento a si mesmo e adote estas sugestões como válidas também para si.

Olhamos para trás, e rapidamente identificamos a pandemia, depois a guerra e, agora, os incêndios. Temos vivido e continuamos a viver situações adversas muito desafiantes e podemos sentir, por vezes, que não dispomos de recursos suficientes para lidar com as mesmas. O stress tem um efeito cumulativo, que é como quem diz, o copo vai enchendo... assim, é fundamental estarmos atentos aos sinais de alerta para prevenir um processo de escalada e saber pedir ajuda, sempre que necessário.

Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal

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