"Mãe de todas as sovas." Israel promete continuar guerra, apesar dos esforços diplomáticos

Desacordo na negociação entre Israel e Hamas levou ao fim da pausa de sete dias, bem como à entrada de assistência no enclave.
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O exército de Israel retomou a guerra depois de ter culpado o Hamas de não cumprir o acordo de trégua quando ainda há 137 reféns em cativeiro. Pressionado pelos EUA para não repetir a devastação que arrasou com o norte da Faixa de Gaza e matou milhares de mulheres e crianças, Telavive publicou um mapa do território para ajudar a ordenar a população palestiniana a retirar-se. O exército também espalhou folhetos a avisar para a saída de uma área a leste de Khan Yunis, que é agora uma "perigosa zona de batalha". Já o governo israelita não se mostra comedido nas palavras, ao prometer "a mãe de todas as sovas" ao Hamas. Os mediadores dizem estar a redobrar esforços para retomar a trégua.

"O Hamas violou a pausa operacional e disparou contra o território israelita", afirmou o exército israelita num comunicado pouco depois de ter intercetado um foguete lançado a partir de Gaza, o primeiro desde 24 de novembro, quando começou a trégua. Seguiram-se largas dezenas de foguetes ao longo do dia, no que foram secundados pelo Hezbollah, a partir do sul do Líbano, tendo saturado as defesas aéreas israelitas. Em sentido contrário, artilharia e ataques aéreos atingiram 200 alvos a meio do dia, segundo Telavive. Do lado do Hamas lamenta-se a morte de pelo menos 178 pessoas. Em paralelo, Israel voltou a impedir a entrada de camiões com ajuda humanitária.

Telavive e o Hamas começaram por denunciar o incumprimento da trégua pelo ataque cometido pela outra parte nas primeiras horas de sexta-feira, e anunciaram o consequente regresso à via armada. Mas horas depois, os argumentos foram outros. A trégua não prosseguiu porque nem os esforços dos mediadores conseguiram levar à renovação do acordo devido a divergências quanto à troca de reféns e de prisioneiros. Israel disse na sexta-feira que 137 reféns permanecem em cativeiro, incluindo 115 homens, 20 mulheres e duas crianças. Deste grupo, 126 são israelitas e 11 são estrangeiros. Dez dos restantes reféns têm 75 anos ou mais. Do lado palestiniano foram libertados 240 prisioneiros, todos mulheres ou menores.

"Infelizmente, o Hamas decidiu pôr fim à trégua ao não libertar todas as mulheres raptadas", afirmou o porta-voz do governo israelita, Eylon Levy. "Tendo optado por manter o sequestro das nossas mulheres, o Hamas vai agora levar com a mãe de todas as sovas", declarou. O movimento islamista, por sua vez, declarou em nota ter "proposto uma troca de prisioneiros e de idosos" e a entrega de corpos de reféns, "que perderam a vida nos bombardeamentos" israelitas em Gaza. Em declarações à Associated Press, um dirigente do Hamas, Osama Hamdan, explicou que a pretensão de Israel de que dez mulheres militares fossem libertadas foi rejeitada.

Segundo fontes ouvidas pelo The New York Times, Telavive quer que todas as mulheres e crianças sejam libertadas antes de se passar à próxima ronda negocial. E o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, esperava que houvesse pelo menos mais uma ronda de trocas. É nesse sentido que o Qatar e os EUA dizem continuar a trabalhar, ou seja, para o retomar de uma trégua.

Os líderes do Hamas, Mohammed Deif e Yahya Sinwar, sabiam que estavam a ser vigiados por Israel e por isso optaram por comunicar sobre os preparativos para o ataque de 7 de outubro através de métodos alternativos, noticiou o Jerusalem Post. Segundo o diário israelita, equipas militares israelitas tinham deixado dispositivos de escuta em redutos do Hamas em 2018, mas o grupo islamista encontrou-os. O artigo conclui que o facto de o Hamas saber da vigilância significa que Israel não estava preparado para o ataque.

No mesmo dia, porém, o The New York Times aponta no sentido contrário. As autoridades israelitas estavam há mais de um ano na posse de um plano de batalha de 40 páginas, com o nome de código "Muro de Jericó", que descrevia em pormenor um hipotético ataque do Hamas aos kibutzim do sul de Israel. O plano previa que o Hamas bombardearia Israel com foguetes, utilizaria drones para desativar as capacidades de vigilância de Israel no muro fronteiriço e tomaria o controlo das comunidades do sul e das bases militares.

O documento terá sido visto por militares e funcionários dos serviços secretos israelitas, embora não seja claro se Netanyahu ou se outros ministros o viram. Além do Egito ter dito que avisou Israel dias antes do ataque terrorista, duas soldadas que vigiavam a fronteira avisaram as hierarquias de que tinham avistado preparativos do Hamas para um ataque, mas foram ignoradas, foi noticiado em Israel. "Questões deste tipo serão analisadas numa fase posterior", respondeu o exército à notícia do NYT.

O julgamento que envolve o primeiro-ministro israelita - interrompido como todos os processos considerados não urgentes com o 7 de outubro - vai ser retomado na segunda-feira, noticiou o The Times of Israel. Netanyahu é acusado de fraude, abuso de confiança e corrupção em três escândalos distintos, mas que foram reunidos no mesmo julgamento, iniciado em maio de 2020. Desde então forçou uma controversa reforma judicial que é desenhada à sua medida, mas não entrou em vigor devido à oposição da sociedade. A sua popularidade, já baixa, despenhou-se com o ataque terrorista do Hamas. As sondagens apontam que pelo menos sete em cada dez eleitores quer Netanyahu fora do governo assim que a guerra acabe.

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