A sala do Senado da Universidade da Madeira transformou-se ontem em scriptorum ao receber os voluntários copistas madeirenses do século XXI, que aderiram ao projecto da Sociedade Bíblica Portuguesa. A editora, fundada há dois séculos (1804) em Inglaterra, convidou a sociedade civil, independentemente da crença, a partilhar uma Bíblia manuscrita em português que será, posteriormente, acervo da Biblioteca Nacional. .A iniciativa, distribuída por 22 cidades do País, iniciou-se dia 6 deste mês. Era suposto que o trabalho em todos estes locais começasse ao mesmo tempo. No entanto, o Funchal fez parte dos grupos tardiamente contactados, o que agora exige esforço complementar. Durante dois fins de semana, mãos ágeis copiarão o Livro do Levítico (leis rituais), um dos cinco livros sagrados que compõem o bloco do Pentateuco (Torah para os judeus, a lei, o livro de Moisés) e que foi atribuído à Madeira. .Levítico, assim se chama, porque se refere à tribo de Levi, a tribo sacerdotal, «a quem competem as orientações do sagrado para o povo de Israel», explicou ao DN Maria Carlos, organizadora do evento, licenciada em Teologia e uma apaixonada pelos estudos bíblicos. .«Sabemos que no Levítico existe material de um período quase nómada, antes de existir o povo de Israel. Possuíam rituais, como por exemplo a imolação do cordeiro», esclareceu. Esta milenar tradição nómada que «alguém deve ter posto por escrito» era partilhada não só pelas tribos de Israel como por outras do Médio Oriente. Certo é que ganha «um novo significado», ou seja, «marca a saída» do povo de Israel do Egipto, sendo transmitido «como referência» sobre o exílio com destino à Babilónia das elites intelectuais, sociais e políticas..Sem templo nem rei, estes povos «agarram-se à palavra, ao texto, sentindo a necessidade de compilar toda a tradição dispersa. O Levítico repete-se imenso, facto que, explica esta estudiosa, demonstra que foram várias pessoas a escrevê-lo». Por outro lado, o Levítico não é um mero repositório de rituais, mas «a síntese do culto e da cultura israelita». .Depois de todos estes séculos, o texto vive e ganha nova vida nesta iniciativa que, adianta a organizadora, pretende abranger o máximo número possível de pessoas, razão pela qual «iremos levar o scriptorum à Casa de Saúde de São João de Deus, ao Centro Psicopedagógico da Sagrada Família e ao Estabelecimento Prisional». Tudo na Madeira, no espaço de dois fins-de-semana.