Madagáscar, um país que é mais do que nome de filme

O leão Alex, a girafa Melman, a zebra Marty e o hipopótamo Gloria seduziram crianças e adultos com uma aventura que os levou do seu zoo em Nova Iorque até Madagáscar, a remota ilha africana que dá nome ao filme. Mas se os antepassados das quatro personagens são de África, curiosamente nenhuma delas encontrou em Madagáscar outros animais da sua espécie. Esta é uma das muitas especificidades daquele país situado ao largo de Moçambique: o isolamento do resto do continente africano deu-lhe uma fauna e uma flora verdadeiramente únicas no mundo. <br />
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À DERIVA há 160 milhões de anos, Madagáscar tem oitenta por cento de espécies endémicas (ou seja, que tiveram origem e se desenvolveram na ilha), das quais o lémure é talvez o exemplo mais conhecido. Apelidada por alguns ecologistas de oitavo continente, a quinta maior ilha do mundo tem várias das suas espécies em perigo de extinção, sobretudo devido ao desenvolvimento industrial incontrolado dos últimos anos. Mas não é só o ecossistema que distingue Madagáscar do resto do continente africano. Também os seus habitantes humanos são diferentes e, tal como as personagens do filme da DreamWorks, chegaram por mar.

Desabitada até cerca do século III, os arqueólogos estimam que a grande ilha tenha sido pela primeira vez pisada por marinheiros originários do Sudeste Asiático. A estes imigrantes do Bornéu e das Celebes, que percorreram milhares de quilómetros levados pelos ventos e pelas correntes sem hipótese de regresso, ter-se-ão seguido colonos bantos, que atravessaram o canal de Moçambique, que separa África de Madagáscar. Hoje ainda, a constituição étnica dos habitantes da ilha é uma mistura de austronésios com africanos. As proporções exactas são impossíveis de saber, uma vez que a etnia deixou de ser uma informação obrigatória nos censos daquela ilha.

Foi com a chegada dos árabes a Madagáscar, no século VII, que começou a história escrita da ilha. Estes deixaram relatos a contar como começaram uma relação comercial com os habitantes, que assim desenvolveram a capacidade para começarem a negociar com os seus vizinhos do Índico. Depois, à medida que a economia ganhava importância, surgiram os primeiros territórios dominados por chefes tribais.

O primeiro contacto com os europeus só chegaria em 1500, quando o português Diogo Dias avistou a ilha após se ter afastado involuntariamente da esquadra que seguia para a Índia. O irmão de Bartolomeu Dias, que estava com ele quando, 12 anos antes, este dobrou o cabo que transformou das Tormentas em Boa Esperança, deu à ilha o nome de São Lourenço, o santo padroeiro do dia em que ali chegou.

Local de predilecção para os piratas que atacavam os navios que por ali passavam, Madagáscar só foi unificada já em finais do século XVIII, com a dinastia Merina. Estes reis conseguiram impor o seu domínio sobre os chefes tribais de toda a ilha e foram eles os responsáveis pela assinatura de um tratado que punha fim ao tráfico de escravos, então uma das grandes fontes de rendimento dos malgaxes (naturais de Madagáscar). Uma decisão que poderia ter sido muito impopular, mas em troca da qual obtiveram apoio financeiro e militar por parte dos britânicos, cuja influência seria notória até à invasão francesa, em 1883, fazendo-se notar, entre outras coisas, na conversão ao cristianismo de parte da população. Hoje, apesar de metade dos 18 milhões de habitantes de Madagáscar seguir as religiões tradicionais, os cristãos constituem cerca de quarenta por cento da população, divididos em partes quase iguais entre católicos e protestantes. Os muçulmanos, por seu lado, são sete por cento.

Este número elevado de católicos é uma das heranças da colonização francesa. Com a família real forçada ao exílio na Argélia, também ela então uma colónia francesa, seguiram-se dez anos de rebelião, que não conseguiram, no entanto, afastar os invasores europeus. E ainda hoje, além de o francês continuar a ser uma das línguas oficiais, a par do malgaxe e do inglês (este último muito por razões comerciais e turísticas), a marca cultural da antiga potência colonial está presente do dia-a-dia dos habitantes de Madagáscar, do sistema de ensino ao modo de organização política.

A PRESENÇA dos franceses não era bem vista por todos. E, depois de ter sido ela própria ocupada pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, a França enfrentou em 1947 a sua primeira grande revolta em Madagáscar. A ilha que chegara a ser pensada pelo alemão Adolf Hitler como possível local para onde enviar os judeus da Europa, decidiu aproveitar a debilidade da metrópole no final da guerra para tentar a independência. Mas, após meses de confrontos violentos, os franceses acabaram por vencer uma luta que fez mais de noventa mil mortos.

A independência, porém, era mesmo inevitável e, em 1960, acabou por acontecer, dando início a um período de transição, antes da chegada ao poder dos militares, na década seguinte. Com eles teria início a era Didier Ratsiraka. O tenente liderou o golpe de 1975 e instalou-se no poder até 2001, apenas com um breve intervalo em meados dos anos 1990.

Empenhado em fazer de Madagáscar um «paraíso do socialismo», Ratsiraka começou por apostar numa política de não-alinhamento, procurando não se envolver demasiado na guerra-fria entre americanos e soviéticos. E depois de umas tímidas tentativas de abertura ainda na década de 1980, com a chegada da globalização e o afastamento temporário do poder, os últimos anos do século XX vêem Ratsiraka aderir à economia de mercado. Mas nem o militar nem o seu sucessor, Marc Ravalomanana, conseguiram tirar o país de uma pobreza que se traduz no facto de, ainda actualmente, setenta por cento da população viver com menos de um dólar por dia.

Antigo presidente da Câmara da capital, Antananarivo, Ravalomanana declarou-se vencedor à primeira volta das presidenciais de 2001. Um resultado fortemente contestado por Ratsiraka e pelos seus apoiantes, que mergulharam o país numa greve generalizada que se prolongou durante meses. Só em Abril de 2002 o Supremo Tribunal põs fim à disputa e declarou Ravalomanana vencedor das presidenciais. Ratsiraka optou, então, pelo exílio em França.

Não se pense, no entanto, que a luta política em Madagáscar se ficou por aqui. Ravalomanana introduziu algumas mudanças democráticas, tentando abrir Madagáscar ao mundo e, sobretudo, ao investimento estrangeiro. A petrolífera Exxon Mobil e a multinacional Rio Tinto chegaram à ilha e injectaram milhões na economia malgaxe. Os negócios de Ravalomanana, ele próprio empresário, também beneficiaram deste dinamismo. Mas o aumento dos preços dos alimentos e dos combustíveis em 2008 veio dificultar a vida aos habitantes de Madagáscar.

A gota de água foi, no entanto, o momento em que Ravalomanana autorizou a expropriação de mais de 400 mil hectares de terra no Sul do país, que passaria a ser explorada pela empresa coreana Daewoo. Os habitantes ficaram indignados com uma decisão que os obrigaria a deixar os terrenos dos seus antepassados, aos quais os malgaxes dão uma importância extrema. De facto, a grande maioria dos habitantes de Madagáscar acredita que os mortos se preocupam com o destino dos vivos. Por isso praticam a famadihana, um ritual durante o qual exumam os mortos para celebrar esta comunhão espiritual. Durante esta cerimónia, os restos mortais dos familiares são desenterrados e voltados a colocar em tecidos de seda antes de serem sepultados de novo. Mas não sem antes terem dados algumas voltas à sepultura enquanto os familiares cantam e dançam. O peso da famadihana é tal que mesmo os cristãos não hesitam em praticá-la, muitas vezes na presença de um representante da sua religião.

Talvez por este rito ser tão forte, a decisão de Ravalomanana de expropriar os habitantes do Sul ditou o fim da sua presidência. A oposição, liderada pelo jovem empresário e antigo  DJ Andry Rajoelina, acusou o presidente de ser um tirano que gastou os fundos públicos para seu benefício. Este respondeu afastando Rajoelina da presidência da Câmara de Antananarivo. Mas os apoiantes do homem que ficou conhecido por TGV, devido à velocidade com que ascendeu na política (mais uma vez a França como referência, desta feita pelo seu comboio de alta velocidade), não aceitaram esta decisão e os protestos das semanas seguintes terminaram num banho de sangue, em Fevereiro, quando as forças de segurança abriram fogo sobre os manifestantes, matando uma centena de pessoas.

O PONTO DE VIRAGEM aconteceu no mês seguinte quando o exército se juntou a Rajoelina e ocupou o palácio presidencial em Antananarivo. Ravalomanana viu-se forçado a demitir-se e o até então líder da oposição autodesignou-se presidente da República. Aos 34 anos, terá agora de alterar a Constituição se quer ser eleito de forma democrática, uma vez que esta fixa os 40 anos como idade mínima para ser presidente.

Estes acontecimentos, largamente noticiados pela imprensa, deram a Madagáscar um raro destaque a nível mundial. Embora seja a quinta maior ilha do mundo – seis vezes maior do que Portugal –, pouco se sabe sobre ela. A excepção são talvez as espécies animais que só existem ali. É o caso dos lémures, os pequenos trepadores de árvores de longas caudas que inspiraram aos criadores do filme Madagáscar a personagem do rei Julião. Parecidos com os esquilos, os lémures são no entanto primatas. Em Madagáscar vivem trinta espécies destes animais.
Outro habitante da Grande Ilha é o camaleão. Ou melhor, seis dezenas de espécies de camaleões – metade das que existem em todo o mundo. A sua capacidade de mudar de cor para se adaptar ao ambiente é fundamental numa ilha onde existem quatro zonas climáticas – das montanhas da zona central até às regiões costeiras húmidas. A lémures e camaleões junta-se ainda a fossa. Com corpo de gato e focinho de cão, este animal é o grande vilão do filme da DreamWorks. Estes animais vivem num habitat ele próprio único, com as orquídeas e os embondeiros a serem talvez as espécies mais emblemáticas da ilha de Madagáscar.

Com uma economia baseada essencialmente na agricultura – é o maior produtor e exportador de baunilha –, Madagáscar tem tentado, nos últimos anos, aproveitar o seu ecossistema único para atrair turistas e ganhar uma nova fonte de rendimento.

Com Rajoelina à frente, a ilha revelou mais uma vez que gosta de ser especial. Aos 34 anos, o novo presidente é o mais jovem chefe de Estado do mundo (cabeças coroadas à parte). Resta saber se do alto dos seus 34 anos – idade que em Portugal ou nos Estados Unidos o manteria constitucionalmente afastado da presidência – terá sabedoria suficiente para manter a estabilidade no seu país e desenvolver uma economia de forma a resgatar os 12 milhões de malgaxes que ainda vivem na pobreza.

AS CINCO ILHAS GIGANTES

Tirando a Gronelândia, descoberta pelos vikings por volta do ano 1000, as outras quatro grandes ilhas do mundo tiveram os navegadores portugueses como os primeiros visitantes europeus. A maior de todas, a Austrália, com os seus 7,7 milhões de quilómetros quadrados, terá recebido a visita de portugueses na segunda metade do século XVI, dado quase certo tendo em conta a proximidade da costa norte da ilha com Timor, onde a presença nacional está certificada há quase quinhentos anos. Porém, só no século XVIII se inicia a colonização europeia por obra dos britânicos.

A segunda maior ilha é a Gronelândia, com 2,2 milhões de quilómetros quadrados, que foi povoada por vikings há um milhar de anos e ainda hoje é um território administrado pela Dinamarca, apesar de a maioria da população ser esquimó.

A terceira ilha a nível mundial é a Nova Guiné, com 785 mil quilómetros quadrados, avistada pela primeira vez por um europeu, o português Jorge de Menezes, em 1526. Passado um século já eram os holandeses que lá dominavam oficialmente, apesar de todo o interior da ilha ser controlado por tribos canibais. Na metade oriental vieram depois os alemães e por fim os australianos, responsáveis pela criação de um país chamado Papua-Nova Guiné. A metade ocidental, denominada Irian Jaya, é hoje uma província da Indonésia, país que nasceu das Índias Orientais Holandesas.

A quarta maior ilha é o Bornéu, com 752 mil quilómetros quadrados, visitada por um português no século XVI e depois sede de uma feitoria lusitana durante quase cem anos. Hoje, está dividida entre a Indonésia e a Malásia, contendo ainda o pequeno reino do Brunei. Finalmente, a quinta grande ilha é Madagáscar, com 587 mil quilómetros quadrados, que o português Diogo Dias avistou em 1500, mas foi mais tarde colónia francesa.

Situadas na América do Norte, em África, na Ásia e na Oceânia (duas), estas cinco ilhas gigantes têm em comum ainda a fraca densidade populacional: a imensa Austrália fica-se pelos 21 milhões de habitantes, a Nova Guiné e o Bornéu têm sete milhões cada um, Madagáscar 18 milhões e a Gronelândia apenas 60 mil. Ou seja, apesar de juntas darem para formar o segundo maior país do mundo (ou 131 vezes a área de Portugal), a sua população somada não vai além dos 53 milhões de pessoas – apenas cinco vezes os habitantes de Portugal.

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