Macau: Um lar do outro lado do mundo

Faz este mês dez anos que Macau passou para a soberania chinesa, mas a herança portuguesa é forte e muito visível nos nomes das ruas, na justiça, nas estátuas de Camões, na gastronomia, na tradição do Natal. É como estar em casa.
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DEZ ANOS é a idade de uma criança quando termina a escola primária e são todos os anos que já tem a criação e consolidação da Região Administrativa Especial de Macau após a transição, em 1999, para a República Popular da China. Mas quando se sente o cheiro dos pastéis de nata na rua, quando se visita a campa de Camilo Pessanha no Cemitério de São Miguel Arcanjo ou se caminha pela Avenida Sân Má Lô, no centro da cidade, sabendo que também se chama Almeida Ribeiro, a derradeira sensação é de reconhecimento: a presença portuguesa ainda é forte, mistura-se harmoniosamente com a cultura chinesa. Macau só podia ser aquela terra tolerante que se prepara agora para instalar as iluminações de Natal e os presépios nas ruas quando a maioria da população nem sequer é cristã.


«Macau é hoje uma sociedade cada vez mais aberta e tolerante, com um sentido de pertença nacional sedimentado na cultura da nossa população e dotada de uma visão internacional», afirmou o (ainda) líder do governo do território desde há uma década, Edmund Ho, num dos últimos discursos de balanço na Assembleia Legislativa antes de abandonar o cargo de chefe do executivo – que Fernando Chui Sai On assume, a partir de 20 de Dezembro, para os próximos cinco anos.


O acordo pós-transição visando o lançamento do concurso para as licenças de jogo chamou multidões ao território, fomentou a abertura ao exterior e modernizou hotéis, casinos e infra-estruturas. E é verdade que mal se ouve falar português nas ruas, fora da administração a língua é pouco utilizada e são poucas as pessoas que nas lojas, nos mercados e nos transportes a entendem. Ainda assim, sublinha Amélia António, responsável pela Casa de Portugal em Macau, «nunca se aprendeu tanto português no território como actualmente».

QUANDO OS PORTUGUESES chegaram a Macau, entre 1554 e 1557, capitaneados por Jorge Álvares (a estátua do explorador luso ergue-se hoje, bem firme, no centro da cidade), não podiam imaginar que teriam o apoio dos mandarins locais para se estabelecerem e transformarem a península num efervescente entreposto comercial entre a China, o Japão e a Europa. Juntos conquistaram terreno ao Rio das Pérolas, ajudaram a arredar os invasores (sobretudo holandeses) que insistiam em conquistar a região, estenderam a sua influência da península às ilhas da Taipa e de Coloane – também pertencentes à Região Administrativa Especial de Macau e ligadas entre si, por terra, por meio do istmo de Cotai, ele próprio numa explosão de crescimento.


As ruas estão cheias de pregões, de travagens, de buzinas, de conversas soltas, pelo contrário os templos e os jardins são silenciosos, sem contudo terem momentos de paragem. Ao longo de quase cinco séculos de história, Macau deixou que o seu multiculturalismo lhe temperasse os sabores da gastronomia (soberbo encontro das texturas ocidentais com as especiarias do Oriente), soube tornar iguais perante a lei religiões tão diferentes como o budismo, o confucionismo, o taoísmo, o catolicismo, o protestantismo, o islamismo, a fé Bahá’í e as práticas ancestrais chinesas, e acumulou e tem sabido preservar um imenso património cultural que mistura fortalezas, palácios, moradias coloniais, igrejas dos séculos VXI a XVIII, templos com mais de oitocentos anos e até um centro histórico considerado Património Mundial pela UNESCO.


Mantendo muito do tecido urbano original e verdadeiros legados arquitectónicos entretecidos na malha da cidade, o conjunto actual compõe-se de praças e ruas centenárias como o Largo do Senado (de pavimento coberto por calçada portuguesa), o Largo de Camões, os largos de São Domingos e da Sé, o Largo do Lilau (primeiro distrito residencial dos colonos portugueses) ou o Largo da Barra, todos eles ligando uma série de monumentos entre os quais se contam o Templo de Á-Má (construído à entrada do Porto Interior, de tal modo que se pensa que daí terá derivado a palavra portuguesa para Macau, já que Á-Má-Gao significa «porto de Á-Má»), as Ruínas de São Paulo, o Edifício do Leal Senado, as igrejas da Sé, de Santo António, São Lourenço e São Domingos, o Quartel dos Mouros, a Casa do Mandarim, a Fortaleza do Monte (hoje utilizada para eventos culturais mas ainda com os 22 canhões com os quais os portugueses derrotaram a armada holandesa), a Casa Garden (que pertenceu ao presidente da Companhia das Índias Britânicas e é agora sede da Fundação Oriente e galeria de arte) ou a Fortaleza da Guia, incluindo o farol e a Capela de Nossa Senhora da Guia.

Também as ilhas, a poucos minutos de autocarro da cidade, estão pejadas de templos, edifícios históricos, miradouros e restaurantes de cozinha chinesa, macaense, portuguesa e tailandesa. A Taipa recebeu grandes empreendimentos turísticos nos últimos anos, tem uma vida nocturna intensa e é local privilegiado para os apreciadores de corridas de cavalos. Já Coloane, em tempos um local onde os piratas se escondiam para pilhar os navios, converteu-se em zona campestre e está totalmente equipada para desportos aquáticos, pedestres e bons momentos de lazer em família.


Existem ainda vários casinos em Macau e na Taipa – cerca de trinta, no total, com cada grande hotel a alimentar um nos seus domínios – que funcionam 24 horas por dia e aconselham as excursões de jogadores a apostar apenas quantias ao seu alcance. No Jardim de Lou Lim Ieoc (talvez o mais chinês de todos), os locais praticam tai-chi, fazem a dança dos leques e detêm-se a observar a ponte de nove curvas, os pagodes e o traçado seguindo à risca as regras do feng shui.

No Jardim e na Gruta de Camões, onde um busto do poeta honra a presença secular dos portugueses, pessoas levantam-se cedo para levarem os seus pássaros a passear em gaiolas trabalhadas, enquanto outras jogam mahjong debaixo das árvores. E há lugar para todas estas idiossincrasias em Macau, sem estranhezas nem faltas de confiança. Cada um é o que é, vive as suas tradições, respeita o outro. É quase como chegar a casa do outro lado do mundo.

TOME NOTA

Como ir? Macau está equipado com aeroporto internacional, mas as melhores ligações a partir de Portugal fazem-se para o aeroporto de Hong Kong, onde operam a Lufthansa, a Air France ou a British Airways. Uma vez em Hong Kong, dirija-se ao terminal marítimo e apanhe um jet foil da Turbojet que demora cerca de uma hora até à cidade.

Onde ficar? A cidade dispõe de alojamentos para todos os gostos e carteiras, mas se os principais requisitos forem a centralidade e o conforto, o Sofitel Macau, na Ponte 16 (Rua do Visconde Paço de Arcos, Tel.: +853 8861 0018), é uma boa opção.

Onde comer? Considerado um dos melhores a confeccionar a ecléctica cozinha macaense, o Restaurante Litoral (Rua do Almirante Sérgio, 261-A, Tel.: +853 2896 7878) serve especialidades locais como a galinha africana (frita e combinando os sabores do coco, caril, cominhos e gengibre), a casquinha (versão panada da sapateira à portuguesa), o porco bassafá com arroz e a bebinca de leite, mas também o bitoque, pipis, dobradinha e chouriço português assado. Experimentar os petiscos das barraquinhas de rua é igualmente uma experiência recomendada a todos os que gostam de comida saborosa e muito barata. Para os mais gulosos não faltam os conventuais papos-de-anjo, toucinho-do-céu e pudins de ovos.

Onde comprar? Nas lojas da Avenida Almeida Ribeiro, na Rua dos Mercadores e na Camilo Pessanha pode encontrar jóias, ervas medicinais e produtos raros como barbatana de tubarão, mas os melhores locais para comprar são mesmo as tendinhas em torno do Mercado Vermelho e do Mercado de São Domingos, onde se vende roupa, tecidos e sapatos a preços imperdíveis. Óculos, ténis de marca, electrónicos e artigos ocidentais encontram-se nas ruas do Campo e Pedro Nolasco da Silva, bem como nas avenidas Sân Má Lô, Praia Grande e Infante D. Henrique.

Principais atracções? Além da Procissão de Nossa Senhora de Fátima (13 de Maio) e do Grande Prémio de Macau (em Novembro), a época de Natal é outro dos momentos que marcam o rosto da cidade: depois do cheiro a escape e dos estampidos dos motores, as protecções recém-retiradas das estradas dão lugar às iluminações públicas e aos presépios, as igrejas celebram a Missa do Galo na noite da consoada e algumas pastelarias e hotéis vendem bolos tradicionais portugueses. Uma festa.

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