Lusodescendente vencedor de Masterchef no Canadá não serve comida portuguesa

David Jorge, o lusodescendente que ganhou há dois anos o Masterchef no Canadá, é hoje dono de três restaurantes em Vancouver, mas nenhum serve cozinha portuguesa, aquela que lhe ofereceu "o bilhete de ouro" para uma nova vida.
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David Jorge está em Lisboa, a convite da embaixada do Canadá, para participar na comemoração dos 150 anos do país onde nasceu em 29 de novembro de 1975 e cozinhar um dos pratos numa receção oficial. Quando pensou no que ia fazer, não teve muitas dúvidas: "um prato do David, cozinha internacional".

"Fui criado como uma criança portuguesa, de forma muito tradicional, mas apaixonei-me pelo multiculturalismo do bairro nos arredores de Vancouver onde vivo. Os meus vizinhos são da Índia, da China...", explica o lusodescendente em conversa com a Lusa.

Ao longo de todo o famoso programa de culinária, David Jorge apresentou-se como um humilde trabalhador nas obras - na verdade, dono da sua empresa de construção -, orgulhoso das suas raízes portuguesas, açorianas, da ilha do Pico. Escolheu mesmo como prato principal para o programa da final do concurso uma receita de barriga de porco, de inspiração portuguesa.

Essa foi, no entanto, apenas uma de três receitas de cozinha portuguesa que se lembra de cozinhar em toda a vida. Quando questionado sobre a razão desta escolha -- ou não escolha -, confessa que nem sabe muito bem.

"Quando estava ainda na fase das entrevistas de casting perguntaram-se que tipo de cozinha fazia, se fazia cozinha portuguesa, e eu respondi que não! Depois fiquei a perguntar-me porquê. Não sei se é por me sentir intimidado, porque a considero tanto e tenho tanta estima", diz.

"Mas é verdade. Mesmo quando cozinho para mim e para a minha família e amigos nunca cozinho pratos portugueses. Talvez o tenha feito duas ou três vezes na vida, uma delas foi na final do Masterchef, outra foi quando recebemos umas pessoas dos Açores e acho que a terceira foi para um evento em que preparei uma refeição de seis pratos. Acho que foi tudo", remata.

Em jeito de desculpa, o agora famoso cozinheiro de ascendência portuguesa, diz que uma das suas "cozinhas preferidas" é a chinesa e "também não é por isso" que a executa.

E a questão repete-se, com frequência quando alguém num dos seus três restaurantes lhe pergunta se tem algum prato português que possa provar.

"As pessoas que vêm ao restaurante perguntam se tenho pratos portugueses, querem experimentar, mas não tenho. E depois, claro, a vida continua, esqueço, mas em alturas como esta, a questão coloca-se e tenho que reconhecer que é verdade!", admite.

David Jorge era um desconhecido empresário da construção civil, liderava a empresa de construção fundada pelo seu pai em Vancouver, quando a sua cunhada lhe entrou um dia pela porta com uma câmara de filmar, apostada em filmá-lo para um vídeo de candidatura a um casting para segunda edição do Masterchef no Canadá.

Submeteu-se à brincadeira, convencido de que "aquilo era uma parvoíce, uma perda de tempo", mas o vídeo foi feito, enviado, e David foi selecionado para o casting. Tinha dado o primeiro passo para uma ascensão rápida ao sucesso e à mudança de vida com que sonhava há muitos anos.

"Uma das razões porque sonhava em entrar no Masterchef era para abrir um restaurante. Sabia que, de outra forma, ninguém ligaria a um miúdo português vindo das obras que abrisse um restaurante. Se entrasse no programa, talvez conseguisse abrir o restaurante, pensava. Claro que ganhar o concurso mudou tudo". E muito depressa.

"Há um ano e meio abri o meu primeiro restaurante, com amigos, nos arredores de Vancouver e há poucas semanas abrimos o terceiro. Hoje tenho três restaurantes, o meu sonho era ter um", conta David Jorge.

"Diz-se com frequência, em todos os Masterchef no mundo, que esta é experiência que nos muda a vida. É mesmo! Não estaria aqui a celebrar o 150º aniversário do Canadá a convite da embaixada em Lisboa, não me teriam sido oferecidas as oportunidades que já me deram - de viajar por muitos sítios no mundo; sou convidado para falar em eventos públicos; participo em ações de solidariedade social; enfim - se não tivesse vencido o programa", afirma.

E agora? A fama é efémera, e o lusodescendente canadiano sabe-o. Quer, por isso, fazer mais alguma coisa em televisão. Um programa para ensinar crianças a cozinhar. "As crianças precisam de ter uma educação de sobre como cozinhar para elas próprias, devem aprender a escolher uma nutrição saudável", justifica.

A motivação vem-lhe dos dois filhos, com sete e oito anos, com quem quer "passar mais tempo e acompanhar o crescimento", mas também de "memórias pesadas" do seu passado.

"Quando me casei tinha mais dez quilos do que tenho hoje. Em jovem cheguei a ter quase cem quilos, lutei contra o meu peso grande parte da minha vida, não quero que os meus filhos e as outras crianças tenham que fazer o mesmo", explica.

Quando ao resto, David quer continuar a abrir restaurantes.

"Nos próximos cinco, dez anos, penso que vou continuar a abrir restaurantes. Temos planos para abrir um restaurante italiano e um chinês, temos ainda planos para abrir um que seja mais a minha cozinha", que não é portuguesa. Ainda não.

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