O portão secular encerra histórias de cavalos e reis. A data de 1748 é suficientemente remota para nos transportar nas carruagens das donzelas e no galope desarvorado dos cavaleiros de Sua Majestade, o rei D. João V. A Coudelaria de Alter-Real, situada na vila alentejana de Alter do Chão, em Portalegre, recebeu as primeiras éguas vindas da região da Andaluzia e nunca mais fechou portas. Há 260 anos. .Cavalos e reis«São oitocentos hectares de terreno para explorar e preservar. É a nossa missão.» A frase é de Vítor Barros, presidente do Conselho de Administração da Fundação Alter-Real, que tanto tem de simpatia como de afeição pelos cavalos. Recebeu-nos, determinado a desvendar a história que envolve este lugar, onde tanto sobra de realeza como de simplicidade. Afinal, estamos em pleno Norte alentejano, onde a terra faz o seu chamamento e os cavalos, esses, integram naturalmente a paisagem, assim como centenárias páginas de história.As primeiras éguas, trazidas de Espanha, chegaram à Coudelaria já lá vão quase trezentos anos. A ordem foi dada pelo rei D. João V, um apaixonado por cavalos e movido pela vontade de conquistar o merecido cravo hípico português na Europa. Portugal precisava de galopar lado a lado com as grandes academias equestres, uma vez que, em pleno século XVIII, a Alta Escola de Viena de Áustria era uma referência à escala europeia. Aos portugueses, por seu lado, já era reconhecido o potencial equestre, facto que não escapava a D. João V.Também a rainha D. Maria Ana, filha do imperador austríaco, nutria elevada admiração pelo desporto hípico, e, sendo assim, não faltavam razões à família real para iniciar o projecto da construção de uma coudelaria em Portugal. Em 1748 a vontade soberana cumpriu-se em oitocentos hectares de terreno cedidos pela Casa Ducal de Bragança à família real portuguesa. Nasceu assim a mais antiga e notável coudelaria portuguesa, que funciona, sem interrupções, desde o primeiro dia no seu sítio original: a Coutada do Arneiro. Data de 9 de Dezembro de 1748 e celebra até hoje a preservação histórica e genética de um dos símbolos mais nobres da cultura portuguesa: o cavalo lusitano. As portas da Coudelaria estão abertas ao público para se conhecer «ao vivo» o que aconteceu por aqui. .As primeiras cavalariçasÉ na antiga capela que tem início a visita e a história deste sítio. Foi aqui, nas Casas Altas, que repousaram, comeram e foram selados os primeiros cavalos. É fácil imaginar a azáfama vivida no tempo da Corte: o estribeiro-mor, os fidalgos, os cavaleiros e as amazonas no trotear privilegiado de uma época cultivada pela diferença entre classes. A sociedade, naturalmente, evoluiu; contudo, montar a cavalo mantém-se, hoje, um acto privilegiado, inalcançável desejo de muitos, mas ainda assim cultivado e fomentado por minorias que não deixam morrer a tradição da Alta Escola Equestre Portuguesa, na maioria das vezes por identidade ou herança cultural.As Casas Altas, embora com todas as alterações sofridas no virar dos tempos, ainda conservam o seu toque de aura real, já que tudo está intocável desde o século XVIII, das abóbadas do tecto ao chão, outrora calcorreado pelos primeiros equídeos e gentes aristocratas. «A calçada é original, assim como as baias, as manjedouras», explica Vítor Barros. O ar é frio e pesado, guardião do passado histórico e de tudo o que une o ser português a esta arte tão nobre quanto milenar. Milenar é a palavra certa para classificar a colecção de Rainer Daehnhardt, um reconhecido historiador luso-alemão e um homem de paixões, que cedeu o seu espólio particular ao Museu do Cavalo. Desde as primeiras selas asiáticas até às utilizadas pelas amazonas no século XIII, passando pelos arreios americanos do tempo de Búfalo Bill, o lendário caçador de búfalos do Velho Oeste, até aos objectos equestres da Corte, passando pelos estribos dos primeiros campinos, até aos livros ilustrados com exercícios de alta escola, bem como os primeiros materiais cirúrgicos utilizados nas operações a cavalos, tudo merece destaque neste ponto imperdível da visita.Igualmente impressionante é a réplica da estátua equestre do rei D. José I, situada hoje na Praça do Comércio, em Lisboa, na qual o rei monta um cavalo Alter-Real. Executada por Machado de Castro, um dos maiores escultores portugueses, reza a história que a estátua pública mais antiga do país (data de 1775), foi erguida ligeiramente torta, algo que não escapou ao olho clínico do escultor. O que aconteceu foi que, na altura, embora sendo o autor da obra, não passava de um mero escultor, e Machado de Castro pôde alertar para o erro mas não fazer que o emendassem. A estátua assim ficou até aos nossos dias. Diz-se ainda que mais de quatrocentos homens foram precisos para transportar a estátua de Sua Majestade, o rei, uma vez que os animais não podiam ser utilizados para erguer divindades soberanas. Apenas era permitido, à luz da época, o servilismo humano com o rei..Visita à Coudelaria de Alter-RealCerca de vinte mil pessoas por ano visitam Alter-Real, mas espera-se que este número aumente, já que se pretende, segundo Vítor Barros, «dar ao cavalo lusitano a visibilidade histórico-cultural merecida e potenciar a Coudelaria como um pólo turístico de excelência, promovendo o desenvolvimento regional». O Programa de Desenvolvimento Integrado (1996-2006) da Coudelaria de Alter-Real permitiu francos desenvolvimentos na manutenção do espaço e na combinação dos recursos com as infra-estruturas no acrescentar de novas vocações e novos produtos. «Mas há que continuar a trabalhar», acrescenta o presidente. É necessário dinamizar, pois trata-se de um símbolo histórico português que merece ser reconhecido e lembrado pelas novas gerações. Mais perto de Espanha do que de Lisboa, a ideia do programa é, futuramente, «alargar o espectro turístico a mais visitantes estrangeiros», que queiram conhecer não só parte da história, mas também a típica vila de Alter do Chão, onde os pouco mais de quatro mil habitantes se fundem na tradição equestre. As visitas são guiadas e começam nas Casas Altas, como primeiro edifício; durante a semana também é possível assistir à saída das éguas de ventre para o campo; a exposição da falcoaria, outra arte imperial que se fundiu, ao longo do tempo, na arte equestre; a visita ao Pátio D. João VI, na Cavalariça Alter-Real, bem como as actividades de desbaste e testagem, o depósito de garanhões reprodutores, a Casa dos Trens e o Museu do Cavalo. Dura cerca de uma hora e meia e os preços variam até aos quatro euros. As crianças até aos 11 anos não pagam. Convém marcar..Sangue puro e lusitanoSofia Abreu Ferreira é lisboeta mas veio trabalhar para Alter do Chão há 11 anos. A bióloga responsável pelo Laboratório de Genética Molecular da Coudelaria de Alter (LGM) confessa que deixar Lisboa aos 25 anos para se fixar no Alentejo foi uma decisão difícil, mas o espírito de aventura ajudou-a a tecer as suas próprias raízes em solo alentejano. «Foi, de facto, uma grande mudança. Mas a beleza do casario amarelo e branco da vila marcou-me, e ao longo do tempo a paixão pela linda paisagem e pelas vantagens de se viver tão perto do local de trabalho foram prevalecendo. Casei e tenciono ficar por cá», conta a bióloga.Sofia abre as portas do laboratório equipado com a mais alta tecnologia, certificado e reconhecido pelo ISAG (Sociedade Internacional de Genética Animal). Em breves palavras, percebemos como este pedaço de ciência guardado nos confins do Alentejo contribui, em larga escala, para o apuramento da raça lusitana, já que as linhagens dos animais são, aqui, cientificamente comprovadas. «O laboratório faz o controlo da filiação em equinos, recorrendo a técnicas de biologia molecular, cada vez mais rigorosas na detecção de falsas paternidades. O controlo de filiação vai permitir saber os pais que o criador declara. O princípio é: se os pais do cavalo são lusitanos, e se se comprovar que o poldro é filho dos mesmos, comprova-se que também é lusitano», explica Sofia, adiantando ainda que, após se testar a pureza do animal, o próximo passo é registá-lo no Livro Genealógico da Associação do Puro-Sangue Lusitano. «No último teste, o LGM registou a melhor pontuação face a outros laboratórios portugueses e uma óptima nota a nível internacional», diz.O LGM tem ainda um banco de DNA com mais de setenta mil genótipos congelados – o bilhete de identidade genético de cada cavalo. «Isto possibilita que fique criopreservado todo o património genético do puro-sangue lusitano dos últimos anos, o que contribui para trabalhos de investigação científica em parceria com universidades portuguesas e estrangeiras, traduzindo-se numa mais-valia nas descobertas sobre a raça», explica a cientista. Escola Portuguesa de Arte EquestreEm 1770, a Coudelaria de Alter passa a pertencer à Casa Real Portuguesa, e vive um período áureo em que os cavalos originários de Alter do Chão brilham no Picadeiro Real, situado, na altura, em Belém. Com a partida da família real para o Brasil, em 1807, a Real Picaria é dissolvida e vive-se um período de estagnação. Mas a partir de 1979 o director do Serviço Nacional Coudélico e um grupo de cavaleiros inspirados pelas ideias de Ruy d’Andrade, um amante dos cavalos e um marco na história do cavalo ibérico, decidem fazer luz à sabedoria antiga e reviver na Escola Portuguesa de Arte Equestre os tempos hípicos da Corte, nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz, em Lisboa. A mesma equitação, os mesmos trajes e arreios fazem jus à «Alta Escola» oitocentista que escreveu tantas páginas de história. E lá estão os vinte garanhões Alter-Real a desfilar, majestosos, o seu puro-sangue lusitano, entre os hábeis andamentos. A Alta Escola tornou-se um sonho possível, e hoje a Coudelaria de Alter assume o papel preponderante de traçar novos e mais caminhos, principalmente no que toca ao reconhecimento internacional da tradição equestre portuguesa. As apresentações são semanais – quartas às 11h00 – e têm lugar nos Jardins do Palácio Nacional de Queluz, em Lisboa, de Maio a Outubro. O mês de Junho contempla também a segunda-feira. Nos restantes dias, os treinos são gratuitos e abertos ao público. O bilhete para ver «Lusitanos Alter-Real em Alta Escola» custa nove euros. Crianças não pagam. .O milagre da vidaFrancisco Beja, 30 anos, desde sempre esteve ligado ao mundo rural e à paixão pelos cavalos. Reservado e de poucas palavras, sente-se que vive em harmonia com a terra e com os animais. O curso de Engenharia de Produção Animal, na Escola Superior Agrária de Santarém, permitiu-lhe especializar-se na área equina, e hoje, na Coudelaria de Alter, é coordenador do departamento que envolve três grandes áreas sectoriais: a unidade de eguadas e recrias, unidade de desbaste, selecção e testagem, e a unidade de produção e exploração agrícola.Entre garanhões, éguas de ventre e poldros, pertencentes à Coudelaria de Alter-Real e Coudelaria Nacional, são cerca de quinhentos os que não lhe dão tempo para cumprir o horário oficial de serviço. O número redondo exige mangas arregaçadas todos os dias, pois há sempre algo para fazer. Quando a nm visitou a Coudelaria, Francisco mostrou o que tão bem conhece como as próprias mãos, numa viagem todo-o-terreno que tanto cumpriu de conhecimento como de emoções fortes.Entre muitas descidas e subidas, sucessivos solavancos e a dose certa de adrenalina à mistura, descobrimos o trabalho de preservação que aqui se faz com duas raças de cavalo muito distintas, mas aqui igualmente protegidas. Os primeiros, os cavalos sorraias de origem portuguesa e únicos no mundo, que estiveram à beira da extinção no início do século XX. Francisco explica que são fortes e resistentes e de temperamento bastante amigável. A população destes animais é bastante reduzida, existindo apenas nalguns locais de Portugal e na Alemanha. Ainda mais raros são os cavalos-de-przewalski, uma espécie nativa dos desertos da Mongólia, que se encontrava extinta na natureza. Francisco explica que, «graças a um projecto internacional, a espécie foi reintroduzida no seu habitat natural». A população selvagem desapareceu nos anos sessenta do século XX, tendo o último animal selvagem sido avistado em 1969. Robustos e pequenos, de cor parda, estes três exemplares vieram de Inglaterra. «São cavalos agressivos, o macho deu cabo da perna de um veterinário espanhol quando cá veio buscá-lo. São bastante perigosos, não dão mão, uma poldra foi atacada por um deles e acabou por morrer», conta Francisco.O jipe contorna uma égua sozinha que acabou de dar à luz e Francisco sai imediatamente. O tempo não o finta quando se trata de ajudar potros a sentir pela primeira vez o chão. Ele levanta-os só de um gesto, em união com a mãe natureza – para Francisco, estar por perto no nascimento e na morte já se tornou uma forma de vida. Sem lamúrias. O potro, tropegamente, ainda cambaleia, mas o jipe só arranca quando o sente seguro. Francisco está ao volante e nós ficámos a dever-lhe o grande momento do dia. Afinal, não é sempre que o tempo pára e assiste connosco ao fantástico milagre da vida protagonizado por homens e animais..Coudelaria Alter-RealA6 saída EstremozEN245 Sousel, Fronteira até Alter do Chão (seguir as indicações para a Coudelaria)Tel.: 245610060E-mail: CRI@AlterReal.pt