Tudo na imagem de Lula da Silva leva a crer que ele é um radical de esquerda: a barba revolucionária que cultiva desde a primeira candidatura, a voz rouca, tão cavernosa quanto carismática, com que se dirige, íntimo, ao povo, ou a ausência de dedo mindinho da mão esquerda por culpa de um acidente metalúrgico nos anos 1970..Tudo no passado de Lula leva à mesma conclusão: a migração do Nordeste para São Paulo num "pau de arara", camiões improvisados como autocarros, a favela onde cresceu, o trabalho infantil a vender laranjas no cais e a colher caranguejos no mangue, e o sindicalismo que abraçou, convocando greves de cima dos capôs dos carros..Ele tinha consciência disso, quando em 2002, após um almoço de bacalhau à Fornos de Algodres num restaurante português, redigiu ao lado de outros militantes do PT a "Carta ao Povo Brasileiro", onde descansava os chefes do mercado, os senhores do capital, os donos do PIB quanto às suas intenções..E, na verdade, governou ao centro, como um social-democrata, ora discursando apaixonado em palanques improvisados Brasil afora para o povo pobre do sertão ora se reunindo, de whisky na mão e charuto na boca, com banqueiros e líderes partidários em luxuosos gabinetes paulistanos ou brasilienses. Porque, no fundo, ele sempre foi assim..Em reportagem de 2018 do DN em São Bernardo do Campo, berço político de Lula, velhos parceiros do hoje candidato a presidente lembraram que ele era muito mais vezes acusado de "traíra" (calão brasileiro para traidor) por pares sindicalistas do que de inflexível pelos patrões, que preferiam negociar com o metalúrgico da barba desgrenhada a fazê-lo com os outros, bem escanhoados mas muito mais radicais..No Planalto de 2003 a 2010, o presidente Lula foi uma aula permanente de realpolitik: fez coincidir a inclusão dos pobres no orçamento, tirando mais de 40 milhões de compatriotas da miséria e dando aos filhos destes a primeira oportunidade de diploma, com a noção de que empresários ricos e felizes são boa notícia para todos..Acusado de se aproximar dos políticos conservadores e corruptos que parasitam todos os governos, explicou que "se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil aliava-se até com Judas". Confrontado com os dissidentes do PT que fundaram o PSOL (espécie de Bloco de Esquerda), desejou que eles governassem alguma coisa. "Aí vão entender que governar não é ficar na beira da água a nadar teoricamente, é nadar em alto mar mesmo.".O pragmatismo lulista volta a revelar-se, na sua plenitude, na atual pré-campanha. Ameaçado por eventual crescimento de algum candidato da "terceira via", isto é, da "direita não bolsonarista", tratou de convidar para seu "vice" Geraldo Alckmin, um outrora barão do rival PSDB, de centro-direita, que funcionará como "Carta ao Povo Brasileiro" em carne e osso..A ala esquerdista do PT, com preconceito contra Alckmin, esbraveja. E a tal "terceira via", que nem chega a dois dígitos nas sondagens, reclama que a aparente moderação de Lula é só para enganar e que ele é tão radical quando Bolsonaro, o que é mais ou menos o mesmo que, em Portugal, dizer-se que PS e Chega estão em polos opostos..No meio dos gritos, Lula arrisca-se a ganhar a presidência, pela primeira vez na sua carreira, logo à primeira volta, sendo aquilo que sempre foi para lá das aparências - um radical de centro..Jornalista, correspondente em São Paulo