Na passada quinta-feira, dia 23, a Câmara do Rio de Janeiro discutiu um projeto que pedia a afixação de cartazes de proteção à mulher em espaços públicos: "Em caso de violência sexual, não fique sozinha! Você tem direito a atendimento integral de saúde em toda a rede pública". Por coincidência, no mesmo dia, em Brasília, o ministro da Justiça e da Segurança Pública determinava a abertura de um inquérito da Polícia Federal para apurar, de uma vez por todas, quem mandou matar a autora daquele projeto, redigido há seis anos: a vereadora Marielle Franco, assassinada, com o motorista Anderson Gomes, em março de 2018.."A fim de ampliar a colaboração federal com as investigações sobre a organização criminosa que perpetrou os homicídios de Marielle Franco e Anderson Gomes, determinei a instauração de inquérito na Polícia Federal, estamos fazendo o máximo para ajudar a esclarecer tais crimes", disse Flávio Dino, ministro da Justiça e da Segurança Pública do governo liderado por Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT).."A corporação atuará para que o crime seja desvendado definitivamente, para sabermos quem matou e quem mandou matar Marielle Franco, consideramos que se trata de um crime de natureza política, com repercussão internacional, a Polícia Federal ampliará a colaboração para que seja possível concluir as investigações sobre essa organização criminosa", completou Dino, do Partido Socialista Brasileiro (PSB)..Logo que assumiu o cargo, o ministro afirmou que era "questão de honra" desvendar o caso envolvendo a morte da vereadora do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). A cada Conselho de Ministros, sublinhe-se, sentam-se em redor do presidente Lula, além de Dino, também Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial e irmã mais nova de Marielle..Já no início de fevereiro ficara definido que Ministério da Justiça e Segurança Pública, Polícia Federal e Ministério Público do Rio de Janeiro iriam trabalhar em parceria visando o aprofundamento e a conclusão das investigações, através do fortalecimento da task force da promotoria estadual existente e destinada, exclusivamente, a apurar os desdobramentos dos mandantes do crime..Segundo Robson Bonin, colunista da revista Veja, "a Polícia Federal, que nunca chegou a investigar a morte de Marielle, tem a intenção de passar um pente fino no caso". De acordo com a coluna de Ricardo Noblat, no jornal Metrópoles, "quem priva da intimidade de Flávio Dino garante que ele não daria esse passo se não estivesse convencido de que há fortes evidências sobre quem foi o mandante". "O mistério parece próximo de ser desvendado", remata..O crime ocorreu na noite de 14 de março de 2018, quando Marielle Franco, saída de uma reunião de trabalho com mulheres negras no bairro da Lapa, no Rio, seguia na viatura dirigida por Anderson Gomes para casa. De um automóvel que se aproximou saíram então 13 disparos que mataram a vereadora, com quatro tiros na cabeça, e o motorista, com três tiros nas costas. A assessora Fernanda Chaves, que também seguia no carro atingido, foi ferida apenas por estilhaços..Quase um ano depois, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, ambos ex-polícias hoje envolvidos com as milícias (máfias) do Rio de Janeiro, foram presos, acusados de serem o autor dos disparos - Lessa - e o condutor do veículo - Queiroz -, com base na quebra de sigilo dos dados telefónicos de ambos..Como Lessa vivia no mesmo condomínio carioca de Jair Bolsonaro e tinha ligações à milícia Escritório do Crime, liderada por outro ex-polícia, Adriano da Nóbrega, próximo da família Bolsonaro, chegou a ser noticiado o envolvimento do então presidente no crime, tese entretanto descartada. Nóbrega acabou morto em confronto com a polícia, em fevereiro de 2020..Circularam, por outro lado, notícias falsas sobre uma suposta relação de Marielle com o tráfico de drogas..Enquanto Lessa e Queiroz, ainda presos, desmentem envolvimento, a polícia busca há quase cinco anos o motivo e os autores morais do crime. Sendo Marielle uma colaboradora próxima de Marcelo Freixo, o hoje líder da Embratur, uma empresa pública da área do turismo, que investigou as milícias no Rio de Janeiro por longos anos, suspeita-se que ela tenha sido morta por, supostamente, ameaçar essas milícias.."A Marielle foi morta por causa do seu pensamento: foi um crime político. E as milícias estão ao serviço da extrema-direita. Basta ver quem são os políticos que as homenageiam e quem são os políticos que elas ajudam a eleger", disse ao DN, em fevereiro de 2019, Fernanda Chaves, a assessora de Marielle e única sobrevivente da execução..Mas as sucessivas trocas no comando das operações, com cinco delegados da polícia civil e três grupos diferentes de promotores do Ministério Público à frente do caso, prejudicaram as investigações sobre o motivo e os autores morais. Promotores e delegados afastados foram citando "pressões", "pistas falsas" e "tentativas de obstrução da justiça" - Domingos Brazão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, é um dos suspeitos de divulgar pistas falsas à polícia..Onde, quando e como foi o crime? A 14 de março de 2018, a viatura onde seguiam, numa rua do Rio, a vereadora Marielle Franco, a assessora Fernanda Chaves e o motorista Anderson Gomes foi atingida por 13 tiros disparados de outra viatura. Marielle e Anderson morreram, Fernanda sobreviveu com ferimentos ligeiros..Quem matou? Segundo as autoridades, com base em denúncias anónimas e em quebra de sigilo dos telemóveis, os ex-polícias Élcio Queiroz, que dirigia o carro, e Ronnie Lessa, que disparou, ambos presos desde 12 de março de 2019. Os dois negam..Qual o motivo da execução e quem mandou matar? São as dúvidas que a Polícia Federal, por determinação do governo de Lula, tenta agora esclarecer..Por que é tão difícil obter essas respostas? As investigações foram prejudicadas pelas cinco mudanças de delegados da polícia e pelas três alterações na equipa de promotores do Ministério Público à frente do caso. Entre esses delegados e esses promotores alguns denunciaram "pressões", "obstruções de justiça" e "divulgação de pistas falsas"..dnot@dn.pt