Lúcia Soares diz-se conservadora, mas confessa que não se sente particularmente bem representada pelo atual Partido Republicano. E Donald Trump? "Acho que ele diz coisas que ressoam como soluções muito simples. "Vamos construir um muro? Sim, boa! Vamos construir um muro! Vamos substituir o programa Obamacare?! Vamos, sim!" Mas nada é assim tão simples, é realmente muito complicado. Acho que as pessoas, na sociedade em que vivemos, não querem ouvir que "é complicado", querem soluções simples, rápidas. Querem tudo já. "Dá-me a minha comida, dá-me o meu Uber." Acho que as pessoas querem que a política seja assim, mas a política não funciona dessa forma, governar um país não funciona assim. Acho que temos de nos reunir enquanto povo para fazer que isto funcione.".Classifica o atual momento da política e da sociedade americana como "muito difícil e complexo e também muito emocional". Considera que o país está "numa fase de mudança, de transformação" e espera que Trump "seja bem-sucedido, porque todos precisamos de sucesso". Mas há uma decisão que a atingiu num ponto sensível - a ordem executiva que bania a entrada de pessoas de alguns países. "Não nos podemos esquecer que, num determinado ponto da nossa história, os católicos eram discriminados neste país, os católicos eram os terroristas. E nós já fomos discriminados como portugueses nos EUA. Eu não me posso esquecer de que este país foi construído por grandes pessoas que eram imigrantes e temos de ter muito cuidado quando começamos a barrar a entrada de pessoas sem perceber realmente o que estamos a fazer. É mesmo uma questão emocional. Temos de nos lembrar de que há uns anos éramos nós que estávamos na pele destes imigrantes.".Lúcia lembra que nasceu e cresceu naquele país e não tem dúvidas em dizer que "a América tem problemas. Há dias estava a ler um livro sobre os anos 1960, sobre os movimentos sociais, os protestos a favor dos direitos civis. Também estávamos muito divididos então, mas agora sinto que é uma divisão muito diferente, muito estranha. De repente, já não sabemos o que é a verdade. Quando as pessoas começam a falar de factos alternativos, ou a dizer que um facto já não é um facto. É uma divisão muito assustadora. Acho que deixámos de nos ouvir uns aos outros e de nos entender. E não sei o que está a provocar isto, se é uma questão de pobres contra ricos ou de pessoas com educação contra quem não estudou, não sei... Sei que há qualquer coisa a crescer aqui, algo que não tenho a certeza de que alguém consiga explicar muito bem, mas há muito ódio, e isso preocupa-me"..E há uma resposta simples, um diagnóstico claro? Não. Lúcia Soares admite que não tem uma resposta óbvia. "Não entendo bem o que se está a passar. Eu tento ouvir os argumentos dos dois lados. Há quem considere que, durante a administração Obama, caminhámos demasiado depressa rumo à liberalização de alguns elementos do nosso sistema e que agora há uma reação oposta, de retrocesso. Sinceramente, não entendo a questão dessa forma. Noutras alturas, no passado, o país teve movimentos abruptos na direção de políticas mais conservadoras. Não sei... Espero apenas que estejamos todos abertos a dialogar e a trabalhar em conjunto. O meu maior medo é que tenhamos chegado ao momento em que esta grande experiência democrática esteja à beira de implodir. Espero que não, a bem de toda a civilização ocidental e da democracia.".A lusodescendente divide-se entre o medo e a esperança. "São tempos assustadores, mas acho que devemos estar otimistas. Talvez isto soe a uma solução simplista e um pouco ingénua, mas acredito que precisamos de expressar amor, temos de nos ouvir mais uns aos outros e procurar soluções. No fundo, todos queremos um país onde os nossos filhos possam crescer e ser bem-sucedidos, todos queremos um emprego. Procuramos todos as mesmas coisas, só não nos entendemos quanto ao caminho.