Longas lutas têm 100 anos

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Os 100 anos do Partido Comunista Português ocorrem num bem paradoxal momento da sua história: primeiro, porque o partido que mais se protegeu de todas as mudanças ideológicas e estratégicas que atravessaram o comunismo na Europa, que persistiu numa coerência aparentemente impermeável às mudanças no mundo, na sociedade e nas esquerdas, sempre a reiterar os mesmos princípios, é hoje o único partido comunista que sobrevive enquanto força política autónoma neste mesmo espaço europeu; segundo, porque desde que, com Jerónimo de Sousa, abriu as portas à "geringonça" pôs em evidência aquilo que a sua prudente gestão política e a sua pragmática gestão municipal vinham desde há muito a praticar - o PCP é hoje um partido que apoia os movimentos sociais progressistas e defende intransigentemente o mundo do trabalho, mas que não segue mais a máxima leninista da "atualidade da Revolução".

A minha geração confrontou-se com o PCP, primeiro durante a luta contra o regime do Estado Novo, onde os comunistas eram incontornáveis na organização e firmes no combate, mas onde ao mesmo tempo se começavam a afirmar por fora deles outras esquerdas socialistas, que hoje se afirmam bem diferenciadas no PS e no Bloco de Esquerda; depois durante o calor e o entusiasmo da Revolução de Abril, quando a ilusão da possibilidade de uma tomada de poder nos moldes das "democracias populares" da Europa de Leste veio atravessar por algum tempo a mente e a vontade de Álvaro Cunhal. Sabemos hoje que o líder comunista soube compreender a relação de forças e recuar a tempo no dia 25 de novembro de 1975.

Mas o conflito que então se abriu entre socialistas e comunistas parecia inscrito no código genético da democracia portuguesa e condenar as esquerdas em Portugal à divisão perpétua, na sua ação e nas suas estratégias políticas.

A interrupção deste estado de coisas dá-se com a aliança em torno da candidatura de Jorge Sampaio à Câmara de Lisboa em 1989: tem aí início uma coligação socialista-comunista de governo municipal, mais tarde alargada à UDP e PSR (hoje integrantes do Bloco de Esquerda), aliança que João Soares soube depois continuar e consolidar e que foi a verdadeira precursora da "geringonça".

A chamada "terceira via", de Blair e Schroeder, conduziu entretanto a social-democracia a estranhas alianças com o capital financeiro, que foram mais além do que a plena aceitação da economia de mercado, assumida em 1959 em Bad Godesberg pelo SPD, e foi assim por força da confiança posta no "extraordinário engenho dos financeiros", nas palavras entusiasmadas proferidas por Gordon Brown algures nesses anos. A partir de 2008 tivemos todos oportunidade de assistir às consequências desse extraordinário engenho...

Mário Soares, perto do fim da sua vida, compreendeu que o "capitalismo de casino", engendrado pelo capital financeiro, ia pôr em xeque tanto o capital produtivo como o trabalho e, com a sua inteligência política, soube distinguir quem era agora o inimigo principal. Coube depois a António Costa fazer cair o anacrónico "muro de Berlim" que tornava inviável qualquer entendimento entre as esquerdas portuguesas a nível político nacional.

Ainda há entre os socialistas quem continue a viver em 1976 e a ver à sua esquerda o inimigo principal. Como os soldados japoneses que, isolados numa ilha perdida, continuavam a lutar vinte anos depois do fim da guerra, contamos ainda entre nós com velhos combatentes da Guerra Fria. Mas os tempos mudaram e hoje as lutas são outras. Como as gerações.


Diplomata e escritor

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