Olivier Sykes acaba de regressar de Belfast, Irlanda do Norte. De cabelo grisalho, óculos de armação retangular e casaco azul sobre uma camisa de gola aberta, confessa estar cansado. "Foram oito horas de trajeto, com um mar bravíssimo que me enjoou de tal maneira que não consegui dormir." Ouvir o professor universitário acabado de sair do ferry que liga Liverpool à Irlanda do Norte, relembra a centralidade do mar neste antigo porto mundial..Deitada sobre o mar da Irlanda, Liverpool sempre manteve uma relação estreita com o exterior. Foi daqui que milhares de ingleses partiram para a América, fascinados com as riquezas do Novo Mundo. Foi para aqui que fugiram milhares de irlandeses para escapar à fome que ceifava vidas nos prados que rodeiam Dublin. Escravos de África, escoceses à procura de fortuna, escandinavos atraídos pelo comércio abundante nestas paragens: Liverpool, cidade global antes do termo existir, sempre se orgulhou da sua excecionalidade multicultural..No dia 23 de junho de 2016, a especificidade de Liverpool tornou-se evidente: com 58% dos votos, a maioria da população optou pela manutenção na União Europeia. Agora, com a sua vontade de isolamento nacionalista, o Brexit ameaça esta cidade aberta ao mundo. Além de criar uma fronteira de facto com a Irlanda, interrompendo as viagens milenares de indivíduos como Olivier, deixa Liverpool entre uma Escócia com crescentes veleidades independentistas e uma Inglaterra com a qual diz não se identificar..Brexit, nome estranho para uma cidade internacional.Primeiro chorou. Depois arregaçou as mangas. Brenda Ashton, professora reformada de 67 anos, confessa nunca ter pensado que o Brexit fosse possível: "Eu fui complacente, tomei a União Europeia como um dado adquirido. Sempre pensei que fôssemos ganhar e, quando vi o resultado do referendo, fiquei chocada.".Sem nenhum tipo de experiência política prévia, organizou-se, protestou, tornou-se líder do grupo Liverpool for Europe. Todos os sábados durante três anos, Brenda liderou manifestações nas ruas de Liverpool, encontrou-se com deputados e eurodeputados, participou em marchas com mais de um milhão de pessoas. Agora confessa-se desiludida: "A verdade é que estamos muito magoados. Tentámos convencer as pessoas fora de Liverpool dos benefícios da União Europeia mas não é fácil, porque os argumentos do outro lado apelam mais às emoções e porque tivemos de lutar contra uma corrente enorme de fake news", confessa Brenda..No entanto, e contrariamente ao resto dos ingleses, Liverpool sempre se manteve apegada ao projeto europeu: "Hoje, se se perguntar às pessoas de Liverpool o que é que fez que esta cidade industrial e pós-colonial se transformasse na cidade moderna que é hoje, a maioria das pessoas vão responder: dinheiro europeu", diz John Belchem..O antigo professor de História na Universidade de Liverpool marca encontro no Philarmonic Dining Rooms. Construído no século XIX, é considerado a "joia de Liverpool na coroa da rainha Vitória". Balcão de madeira de mogno, candelabros de cristal, chão de mosaicos e casas de banho de mármore, relembra a opulência da cidade quando era um ponto estratégico no comércio mundial. Nas paredes presta-se homenagem a grandes heróis do imperialismo britânico, que levaram o nome da rainha Vitória a todos os recantos do mundo e tornaram o Reino Unido "um império onde o sol nunca se põe". De cabelo grisalho e sobretudo preto, John senta-se debaixo dos nomes de Lord Baden-Powell e Lord Roberts, dois militares que permitiram o triunfo das tropas britânicas sobre os bóeres, na África do Sul..É uma ironia: numa altura em que o Reino Unido procura recuperar a sua soberania nacional, Liverpool nunca esteve tão distante deste imaginário omnipresente neste café no centro da cidade. "Liverpool parecia a cidade que mais tinha a sofrer com o fim do império porque implicava perdermos o nosso lugar estratégico no mundo. E, efetivamente, depois da Segunda Guerra Mundial estávamos verdadeiramente de joelhos. Juntarmo-nos à Comunidade Económica Europeia parecia ser a machadada final porque, geograficamente, estamos do lado errado do país: estamos virados para o oceano Atlântico, para as Américas, não olhamos para a Europa... Mas a verdade é que Liverpool tornou-se uma das maiores cidades Remain. E isso deve-se a uma simples razão: a União Europeia foi muito boa para nós", confessa John Belchem..Considerada uma das regiões mais pobres da Europa, Liverpool foi uma das primeiras cidades britânicas a beneficiar do pacote de fundos europeus Objective 1, que apoia as regiões cujo PIB é inferior a 75% da média europeia. Após anos de declínio económico e manifestações violentas, Liverpool viu na União Europeia um balão de oxigénio. Em 1994, entram 804 milhões de euros nos cofres da cidade. Aos poucos, as somas vão aumentando: 928 milhões de libras em 2000, a que se acrescentam 700 milhões a dividir com o resto da região do noroeste do Reino Unido entre 2007 e 2013. O último pacote de fundos, correspondente ao período entre 2014 e 2020, atribuiu outros 517 milhões de euros à cidade.."Vivi aqui a minha vida inteira e vi, com os meus próprios olhos, a transformação da cidade através de fundos europeus. É uma diferença enorme: a cidade revitalizou-se completamente, há mais turismo, está tudo muito mais limpo", diz Gareth Spencer, engenheiro informático..A utilização dos fundos europeus, estrategicamente utilizados na restauração e na construção de infraestruturas cruciais para a cidade, como por exemplo o alargamento do aeroporto da cidade ou a construção de um terminal para cruzeiros, restaurou a imagem da cidade. Olivier Sykes, que cresceu no País de Gales nos anos 1980, lembra-se de que "cada vez que alguém era roubado, dizia-se 'Ah, de certeza que foram uns rapazes de Liverpool que decidiram vir dar uma volta'. Havia imensos estereótipos"..Outrora vista como um lugar de militância violenta e de hooliganismo feroz, o cosmopolitismo e a herança portuária de Liverpool começaram a ser motivo de orgulho para a população local, que viu na candidatura à Capital Europeia da Cultura em 2008 a oportunidade ideal para consumar a sua afirmação nacional e afastar a má fama.."Decidimos candidatar-nos mais por uma questão de posicionamento interno do que verdadeiramente por acharmos que tínhamos hipóteses. Estávamos simplesmente a tentar dizer: "É a vez do Reino Unido nomear uma capital da cultura, porque é que tem de ser um sítio como Oxford ou Cambridge? Porque é que não pode ser Liverpool?" E a verdade é que, para espanto de todos nós, acabámos por ser nomeados", relembra o professor John Belchem, que enquanto vice-reitor da Universidade de Liverpool esteve envolvido no processo de candidatura.."E foi uma grande festa... Pessoas que sempre tinham pensado que era melhor nunca vir a Liverpool devido à nossa má reputação aperceberam-se de que tínhamos uma herança cultural enorme, uns prédios vitorianos fabulosos, e foram-se embora sem perceber o que é que tinha estado na origem desta má fama.".Os resultados foram imediatos: em 2008, cerca de 9,7 milhões de turistas deslocaram-se à cidade para assistir ao evento. A transformação de Liverpool estava concluída: a cidade contestatária e desafiadora, com docas decadentes e estivadores revoltados, era agora moderna, cultural, com um cosmopolitismo afirmado e apelidada de Livercool. A economia cresceu, o desemprego baixou, a população deixou de emigrar e começaram a chegar estrangeiros, relembrando os tempos áureos da cidade quando, no seu porto, se amontoavam pessoas das mais variadas origens..Pauline Spencer, mulher de Gareth, foi uma das primeiras a chegar. Francesa, originária de Toulouse, veio viver para Liverpool em 2002 no quadro do programa Erasmus. Ficou cá desde então: casada, com filhos e casa comprada, adquiriu o sotaque cantado e devorador de sílabas que distingue os scousers, nome dado aos habitantes de Liverpool, do resto dos ingleses. A identidade europeia tornou-se tão premente nesta família que, confessa, nunca pensou sequer em pedir a nacionalidade britânica. Agora, diz estar preocupada.."Tenho receio porque, aliado ao Brexit, este governo de Boris Johnson está a multiplicar as medidas que nos afetam enquanto cidadãos europeus. Ainda agora chumbou qualquer hipótese de fazer que quem vive aqui há mais de cinco anos ganhe direito de residência automática. Vamos ter de nos candidatar para podermos ficar cá. Isto quando ainda há pouco tempo nos tinham dito que não íamos perder quaisquer direitos", exaspera-se Pauline..O thatcherismo por trás da resiliência ao Brexit.Como Pauline, a perspetiva de quatro anos de maioria conservadora, com um partido da oposição paralisado por quezílias internas e decisões estratégicas para o futuro do país a terem de ser tomadas, preocupa a maioria dos scousers. Os anos 1980 debaixo da alçada de Margaret Thatcher, que ordenou o encerramento das docas como parte do seu pacote de medidas pós-industriais e neoliberais, foram particularmente traumáticos para a cidade. Tradicionalmente trabalhista, Liverpool manteve a sua postura "irreverente" nas eleições gerais de dezembro passado, votando, com 76,7%, a favor do partido de Jeremy Corbyn. É agora um enclave vermelho rodeado por uma maré de azul.."Quando começou a falar-se do Brexit, as mentiras que começaram a surgir e o discurso incendiário e emocional vinham todos dos mesmos jornais e das mesmas pessoas que tinham denegrido Liverpool nos anos 1980", conta Olivier Sykes..Na altura, o mercado mundial para os produtos que tinham feito a fortuna de Liverpool, como o algodão, começara a escassear. Com uma economia baseada no comércio e nas indústrias derivadas, investir na cidade era visto por Margaret Thatcher como um contrassenso face ao projeto neoliberal e pós-industrial que tentava levar a cabo. As fábricas fecharam, os despedimentos em massa multiplicaram-se, os índices de pobreza aumentaram e, durante a década de 1980, cerca de 12 mil pessoas por ano deixavam a cidade para tentar a sua sorte noutras paragens.."Os governos conservadores nunca nos ajudaram. Para eles, nós somos uma espinha no dorso, não nos veem como verdadeiramente ingleses. Sempre nos quiseram deitar abaixo porque consideram-nos uma cidade problemática", conta Gareth Spencer..Os traumáticos anos 1880 culminaram na tragédia de Hillsborough, a 15 de abril de 1989. Nesse dia de jogo entre o Liverpool e o Nottingham Forest, 96 adeptos do clube morrem esmagados devido à negligência do chefe da polícia local que permitiu a sobrelotação do estádio. Na altura, o jornal The Sun faz capa acusando a população local de estar por trás da tragédia. Sob a manchete "A verdade", o jornal conotado como sendo de direita escreve que os adeptos de Liverpool "vasculharam os bolsos dos cadáveres" e "impediram os bombeiros de chegar ao local". O relato insultuoso do jornal marca o espírito dos scousers: até hoje, a maioria dos habitantes boicota o Sun.."Os scousers eram verdadeiramente o que havia de mais reles nos anos 1980 e não havia qualquer problema para esses jornais em descreverem-nos mal porque éramos da classe proletária, toda a gente pensava "aqueles não têm importância". E essa filosofia, essa falta de empatia com as outras pessoas também está muito presente no Brexit: é por isso que esse discurso nunca pegou cá", analisa Olivier Sykes..John Belchem também corrobora a teoria: "Como tudo o que realmente importa em Liverpool, o futebol contribuiu muito para a nossa resiliência ao Brexit. O boicote ao Sun impediu que o discurso odioso, antieuropeu desse tipo de imprensa, conseguisse verdadeiramente penetrar em Liverpool.".Agora, os fantasmas desses anos negros em que os scousers foram deixados ao abandono e descaracterizados pela imprensa nacional voltam a assombrar os habitantes de Liverpool. A braços com cortes massivos por parte do governo central, o contexto atual da cidade traz à memória dos habitantes os anos negros de Thatcher. Em entrevista ao jornal local, Liverpool Echo , o presidente da Câmara de Liverpool, Joe Anderson, considera que, após anos de crescimento económico, o Brexit pode vir a tornar-se a "tempestade perfeita" para Liverpool: "Temo que tenhamos uma tempestade perfeita onde o Brexit e a austeridade conspirem para arruinar a nossa economia e aumentar o fardo dos mais pobres e com menos capacidade para lidar com os eventuais impactos de uma saída."."Escócia, por favor leva-nos contigo".Em 2016, em plena campanha de referendo para o Brexit, Nigel Farage posou para uma foto diante de um póster preparado pelo seu partido eurocético, UKIP. No póster, acompanhando uma imagem de uma fila de imigrantes, lia-se: "Ponto de rutura. A União Europeia falhou-nos a todos." No país e no resto da Europa a imagem criou polémica e burburinho. Em Liverpool, foi recebida com ironia e sarcasmo: a imigração faz parte do ADN da cidade.."Nós cá costumamos dizer 'Eu sou scouser, não sou inglês'. No meu caso, sou scouser, antes de tudo. Depois, considero-me britânico, porque tenho mais ligações com os escoceses ou os galeses do que com os ingleses. Não quero ter nada que ver com a Inglaterra", reivindica Gareth Spencer..É um dos paradoxos do referendo: numa altura em que nos últimos anos se foram exacerbando os discursos nacionalistas como os de Nigel Farage, que martelava a necessidade de "reclamar o nosso país de volta", Liverpool nunca reivindicou tanto a sua veia cosmopolita e globalizada.."Tenho a certeza de que, caso houvesse um referendo sobre juntarmo-nos a uma Irlanda unida ou até sobre a criação de uma República de Liverpool, a maioria de nós votaria em qualquer uma delas", diz George William Lamb - jovem atualmente a tirar o doutoramento em Direito - sobre a relação entre a UE e o Reino Unido durante o Brexit..Afastado o sonho de um segundo referendo, Brenda Ashton também antevê o futuro próximo do grupo Liverpool for Europe: o pan-europeísmo. Confessando estar "muito interessada no movimento italiano das sardinhas", diz querer começar a tecer ligações com movimentos além-fronteiras com uma forte vertente europeia: "Acho que temos muito a ensinar. É uma situação irónica, mas a verdade é que devido ao Brexit não há nenhum Estado Membro da UE que tenha um movimento pró-europeu tão forte como o do Reino Unido", diz..E assim, encurralada entre uma Escócia secessionista, uma Irlanda do Norte presa ao mercado único e uma Inglaterra fechada sobre si própria, Liverpool tenta descoser-se de um Reino cada vez menos Unido e encontrar, entre memórias de um cosmopolitismo glorioso e pesadelos de austeridades conservadoras, um caminho para percorrer depois das 12 badaladas do Brexit. Diferente e global, à velha moda scouser.