Depois de amanhã, o senhor Delfim de Sousa, motorista da Sociedade de Transportes Colectivos do Porto (STCP) despede-se da Linha 88 que, desde há 20 anos, preenche o seu horário de trabalho. Um percurso de 22 quilómetros de extensão que bordeja o miolo da cidade em uma hora e dez minutos, dita o estipulado. Começa na Alfândega do Porto, Museu dos Transportes e Comunicações, freguesia da fotogénica Miragaia porejando tipicismo pelas arcadas, varandas e janelas..Depois, o veículo, longo, ruma ao Infante, zona histórica, embrenhando-se, de seguida, no bulício do Freixo, S. Roque, Areosa, Hospital de S. João, Amial, Montes Burgos, Hospital de Magalhães Lemos e... Castelo do Queijo (Foz), fronteira entre o Porto e Matosinhos. Ou seja, a viagem teve início com o rio Douro à vista, terminando com o Atlântico a dois passos..De 15 em 15 minutos, ou de 20 em 20, consoante a afluência do público, 14 autocarros de 45 lugares sentados e 103 de pé ziguezagueiam por ruas, praças, avenidas, solavancos devido aos pisos de alcatrão e de paralelo, o mais truculento. Os passageiros consultando o relógio que o trânsito não raras vezes se apresenta congestionado - embarrilado, diz-se na Invicta.."Boa tarde, senhor Sousa."."Boa tarde, minha senhora."."Bom fim-de-semana, senhor Sousa".."Igualmente para o senhor.".Dão a salvação, intercambeiam afectos, posto ao suplício do ramerrão valer as recíprocas amabilidades. Disso mesmo fala Delfim de Sousa."Com o dia-a-dia acabamos por ganhar algumas amizades. Há quem me trate pelo nome e há também quem apenas me cumprimente desejando bons-dias, senhor motorista. Transporto gente do Porto, mas também de Valongo, Ermesinde, Maia, Matosinhos. São médicos, enfermeiros, juízes, advogados, estudantes, trolhas, donas de casa, até aqueles que tudo fazem para não pagar a senha. Conheço-os de ginjeira.".O autocarro pára e arranca, contorce-se nas curvas, passa a uma unha negra de esquinas, retrovisores de automóveis, forçando a uma perícia enxertada de pachorra. O autocarro, lento, lentamente, vence a distância, afrouxa face ao torvelinho de transeuntes apressados..O autocarro na despedida de uma carreira cheia de histórias, vivências, palrações, de meninos e meninas hoje adultos. Talvez por isso tudo, o motorista ignore o esforço, a responsabilidade da profissão e conclua que o fim da Linha 88 "tem pouca lógica"..Depois de amanhã, o senhor Delfim de Sousa, "o senhor Sousa" para os utentes, iniciará nova etapa da sua carreira ao volante de um autocarro da STCP entre o Castelo do Queijo e a estação ferroviária de Campanhã. "Linha 88 - descontinuada a partir de 1 de Fevereiro", anunciam os prospectos da empresa. Notícia que desagrada os passageiros, murmurando protestos volantes.."Não respeitam ninguém. Mudam a seu bel-prazer nos gabinetes e o povo que aguente, que se desenrasque", brada José Mário, sob a anuência dos companheiros de viagem. Sereno, alheio às polémicas, o motorista fixa as atenções no movimento exterior, no automóvel súbito parado, em outro estacionado em fila paralela. Mais um manobrar meticuloso, experimentado, rotineiro. Apesar disso, facilitado, "pois quando vim para este trabalho ainda tive de conduzir o Leyland de dois pisos". Um suplício..Chega ao fim a carreira e um passageiro cumprimenta de mão o senhor Sousa.