Lígia Albuquerque. A pilota que interrompeu a sua carreira no automobilismo por amor

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Nascida e criada no Porto, é a mais nova de três irmãos, a única rapariga, habituada desde pequena a acompanhar a família para ver corridas de velocidade, fossem de automóveis ou de motas, uma paixão paterna e a única ocasião em que os filhos estavam autorizados a faltar à escola. O Rali de Portugal era um acontecimento especial. De tal forma que até o cão da família tinha direito a estar presente.

Aos dezassete anos, depois de finalizar o secundário, começou a trabalhar, na área dos seguros, tendo surgido alguns anos depois, um pouco por acaso, a oportunidade de se estrear no automobilismo. Tinha vinte e dois anos, quando depois de assistir a uma prova de velocidade, viu um cupão, no Comércio do Porto, que dizia que as mulheres podiam concorrer para o campeonato nacional de velocidade de iniciados, patrocinado, na altura, pela Real Vinícola. Os seus irmãos desafiaram-na, dizendo que não era mulher se não concorresse. Como tal, preencheu o cupão.

O campeonato nacional de velocidade albergava todos os pilotos que participavam pela primeira vez, mulheres e homens, e já gozava de alguma visibilidade. Inscreveram-se duzentas mulheres, das quais, depois de diversos processos de seleção, foram apuradas apenas duas, Lígia Albuquerque e Cristina Santos.

Após a competição, não parou mais de fazer corridas, contrariamente à previsão do pai que pensava tratar-se apenas de uma experiência sem futuro. Mal sabia ele que era o início de tudo.

A sua primeira prova de velocidade foi a de Portalegre, e graças à boa relação que conseguiu estabelecer com a imprensa e a cobertura que obteve, conseguiu patrocínios para um segundo campeonato e para continuar, depois, a participar em várias provas, enquanto a sua colega de partida, Cristina Santos, abandonava as competições. Aliás, de todas as mulheres que participaram no seu primeiro campeonato, em 1997, nenhuma continuou e mesmo entre as que já corriam antes, poucas se mantiveram nas competições.

No seu caso, quanto mais corria, mais convites recebia para participar em provas de Todo o Terreno, entrando inclusivamente no campeonato UMM, jipes da União metalo-mecânica, um carro fabricado em Portugal, muito duro de chassi, mas extremamente resistente.

Nesta altura, o Todo o Terreno tinha muitos adeptos, havia várias empresas dispostas a patrocinar os/as pilotos/as e a modalidade gozava de notoriedade, destacando-se já algumas mulheres, como era o caso da Teresa Cupertino de Miranda e a prima Maria do Céu Pires de Lima.

Em 1999, no troféu Terra n2 da Nissan, conseguiu o 5º lugar, entre trinta participantes, e graças a esta classificação foi convidada, no ano seguinte, para integrar a equipa oficial da marca, altura em que teve a oportunidade de fazer provas da taça do mundo.

Entre as diversas provas de Todo o Terreno em que participou, incluindo a difícil Bajas de Aragón, conseguiu, em 2001, numa prova no Norte, o 4º lugar à geral, num momento em que as marcas automóveis estavam todas presentes, com carros e pilotos muito bem preparados.

Lígia Albuquerque até já tinha um grupinho de adeptos que a seguiam a todas as provas, na sua opinião, porque passava a imagem de uma pilota que conseguia correr bem, e até ultrapassar alguns homens. A este propósito, há uma história engraçada que demonstra bem o interesse que a sua participação despertava. Ocorreu numa prova na Serra Algarvia, em que o carro em que corria, com a navegadora Isabel Robalo, capotou e o primeiro rapaz que chegou junto delas gritou bem alto: "São as gajas!"

Entre 2000 e 2001, os resultados obtidos quer em velocidade, ralis, troféus (de marcas específicas) e Todo o Terreno, foram tão bons que foi convidada para fazer carreira internacional. Foi, então, quando teve de decidir entre abandonar o país para se dedicar inteiramente ao automobilismo, ou seguir o seu coração e interromper a carreira. Uma decisão difícil, mas tinha casado recentemente e estava apaixonada. Decidiu ficar.

Após o nascimento de duas filhas, continuou a participar em campeonatos nacionais de Todo o Terreno, conseguindo, em alguns deles, classificações interessantes, para além de receber, também, convites para integrar vários projetos, como os da Hyundai, da Promoção dos Açores ou a prova 24h Fronteira e alguns ralis de senhoras.

Ao longo da sua carreira sentiu alguns preconceitos de género, mesmo entre mulheres. Não sabe muito bem porquê, mas indica que a possibilidade dos/as pilotos/as de Todo o Terreno poderem ficar cobertos/as de lama, sujos/as e despenteados/as pode não ser uma característica muito atrativa para as mulheres. E da parte de alguns colegas homens, ainda recorda uma vez em que um piloto lhe disse numa prova que preferia não voltar a casa se ficasse colocado num lugar atrás dela. Felizmente, também teve colegas que a elogiaram, mesmo quando os ultrapassou na classificação.

*Autoras do livro Mulheres do meu país - século XXI inspirado na obra homónima de Maria Lamas. O livro, que tem design gráfico de Andrea Pahim, está à venda nas livrarias online e no FB.

O DN publica nesta segunda quinzena de agosto uma seleção de 15 perfis de portuguesas notáveis.

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