No final de 2015 era anunciada a mudança para Lisboa do Web Summit no seguimento de diversas iniciativas que estavam a colocar Portugal no mapa como um centro para as Tecnologias de Informação e desenvolvimento de projetos digitais. Hoje é algo normal a abertura de novos centros de desenvolvimento de empresas estrangeiras e a criação e financiamento de novas empresas que tiram partido do talento, infraestrutura e qualidade de vida que Portugal pode oferecer para o digital..O que podemos aprender com isto? A dimensão e a posição geográfica não têm de ser uma barreira inultrapassável ao desenvolvimento de uma sociedade capaz de oferecer qualidade de vida, oportunidades profissionais e desenvolvimento económico. Portugal pode ser um país de pequena dimensão, mas tem talento especializado. No domínio da biotecnologia e das ciências da vida houve uma grande aposta na formação de pessoas altamente qualificadas nas últimas décadas, no entanto, este investimento ainda se traduz em poucas oportunidades profissionais fora da academia. A inovação nestas áreas também se pode comprovar pela geração de propriedade intelectual, no top 5 dos campos em que mais patentes se registam em Portugal, 4 são relacionados com este domínio. A isto, soma-se uma academia com centros de investigação altamente produtivos e integrados em redes científicas internacionais..No entanto, a conversão de conhecimento em valor em biotecnologia é ainda reduzida. O setor das bioindústrias evoluiu nos últimos 20 anos, mas tem ainda um longo caminho a percorrer para o desenvolvimento de um setor sólido com massa crítica. No último BIOMEET - encontro de empresas de biotecnologia, António Costa Silva, Ministro da Economia e do Mar, assinalou que "Portugal tem uma oportunidade dourada para desenvolver uma fileira do conhecimento para o futuro" e que "acreditamos piamente no setor da biotecnologia"..A P-BIO, Associação Portuguesa de Bioindústria, tem advogado a execução de uma estratégia comum para a bioeconomia que passe por 1) aposta em ciência de base com funcionamento independente dos ciclos governativos, com contratos programa, criação de mecanismos para aumentar a maturidade das tecnologias antes de saírem da academia; 2) reforço das competências de transferência de tecnologia e investigação translacional, capital de risco especializado capaz de entender os ciclos de desenvolvimento deste setor e com acesso a parceiros internacionais; 3) criação de condições fiscais para empresas deeptech, com ciclos de desenvolvimento complexo e assentes em propriedade intelectual. E por último, uma promoção da industrialização destas tecnologias em Portugal, juntando novas empresas tecnológicas com empresas já estabelecidas, produzindo produtos para o mercado global, como ingredientes, dispositivos médicos, biocombustíveis, medicamentos, meios de diagnóstico, incorporando tecnologias desenvolvidas localmente e por recursos humanos qualificados..O caso da realização Web Summit em Lisboa mostra que eventos como este podem ser uma ferramenta para potenciar os nossos recursos endógenos, fomentar novos projetos, atrair grandes empresas e investidores e desenvolver massa crítica à volta de um tema comum. Podemos e devemos tirar as nossas lições a partir do que foi feito no digital, aprender com o que correu bem e também com os erros, e adaptar às especificidades da bioeconomia..Nos últimos anos percebemos que o investimento em ciência é vital para os desafios globais, que vão desde a sustentabilidade a uma população envelhecida passando pela prevenção de futuras pandemias. Portugal e as bioindústrias podem e devem ter um papel neste futuro..Nova rubrica Countdown to Web Summit 2022 é uma rubrica no Diário de Notícias que antevê algumas das tendências que vão marcar o próximo encontro mundial de startups no final de outubro, em Lisboa. Até à semana do evento, estarão em análise as oportunidades e os desafios dos investidores, os exemplos inspiradores e as novidades que vão marcar a agenda dos empreendedores nacionais e mundiais. O palco passa por aqui, com a reflexão de especialistas numa nova série de artigos de opinião. O artigo hoje publicado tem a assinatura de Simão Soares, Presidente da P-BIO e CEO da SilicoLife.