Ler os censos com bom senso

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O mais recente recenseamento da população portuguesa serviu para chamar a atenção para a trajetória demográfica problemática que o nosso país segue. Na última década perdemos mais de 214 mil habitantes, o que representa uma queda de 2% da população. Mas, apesar dos vários ângulos refletidos pela imprensa, não julgo serem estes os dados mais preocupantes.

Desde que há registos, a população portuguesa cresceu de forma praticamente contínua até 2010. A crise que então se iniciou conduziu a uma queda da população que ainda não cessou. À queda acentuada da natalidade - de mais de 100 mil nascimentos em 2010 passámos para 82 mil em 2012 e 2013 - somaram-se saldos migratórios negativos, com muitos portugueses a emigrar e numerosos imigrantes a regressar aos seus países de origem.

Contudo, o problema não está no número global de habitantes, até porque temos atualmente mais população do que em 2000 ou em qualquer momento anterior. A questão está na estrutura etária da população. E aí temos problemas sérios, porque Portugal é um país cada vez mais envelhecido.

Aos 2% de redução global apurada nos censos, contrapõe-se uma quebra de 13% da população abaixo dos 14 anos, entre 2010 e 2020, enquanto acima dos 65 se registou um aumento de 17%. Assim, se na última década tivemos uma diminuição de 6% da população ativa, podemos antecipar a continuação desta tendência nos próximos anos.

Um efeito óbvio desta evolução será uma maior pressão sobre os sistemas de proteção social. Mas devemos também refletir sobre as consequências desta dinâmica na capacidade produtiva da nossa economia e, consequentemente, na qualidade de vida que o nosso país consegue proporcionar.

Um outro efeito que os números globais escondem é o acentuado despovoamento do interior. Metade de nós habita em apenas 31 dos mais de 300 municípios, sobretudo no litoral e nas zonas urbanas. Em algumas regiões do interior o panorama é verdadeiramente desolador, havendo vários concelhos onde o número de habitantes diminuiu mais de 20%. A continuar assim, quantos viverão lá daqui a dez ou 20 anos?

As causas deste quadro de evolução populacional são conhecidas. Primeiro, há a assinalar as boas: o aumento da esperança média de vida (e, também muito importante, da qualidade de vida na velhice) e a evolução da sociedade rumo a uma cada vez maior emancipação das mulheres. Mas é preciso agir sobre as outras: baixas condições de vida de uma parte da população, falta de emprego em algumas regiões, precariedade e instabilidade laboral dos jovens, dificuldade de acesso à habitação, acesso a creches gratuitas ou a preços comportáveis e dificuldade de conciliação entre vida familiar e profissional.

Mas, mesmo que tudo isto se altere, não tenhamos dúvidas: só manteremos os níveis de população ativa nos próximos anos se soubermos atrair e integrar um número considerável de imigrantes que assegure saldos migratórios fortemente positivos.

Nos últimos anos, os progressos em algumas destas áreas levaram a uma recuperação ligeira dos níveis de natalidade e a saldos migratórios positivos. Mas são ainda claramente insuficientes, até porque a crise covid tudo veio agravar.

Por isso, precisamos de prosseguir e reforçar as políticas públicas que têm sido desenvolvidas, que transmitem a confiança de que o nosso país é um bom local para viver, para imigrar, para ter filhos, para criar uma família. A confiança que permita embarcar em cada uma dessas grandes aventuras da vida.

15 VALORES
Emprego

Os números são animadores. Apesar da pandemia, o número de pessoas empregadas tem subido e era já, no segundo trimestre deste ano, superior ao período homólogo de 2019.

Eurodeputado

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