Astérix e Tintim, Lucky Luke e Blake e Mortimer, Michel Vaillant e Taka Takata, Achille Talon e Cubitus, Max, o Explorador e Dan Cooper, Bruno Brazil e Corentin, Alix e Chick Bill, Luc Orient e Valérian... para mim, e para muitos miúdos como eu, o melhor dia da semana era o dia em que saía o Tintim português, ou em que recebíamos pelo correio a edição original em francês. .Foi graças à leitura semanal do Tintim - complementada por muitos com a do Spirou e do Pilote - que fizemos boa parte da nossa educação na banda desenhada franco-belga. Sem sabermos que a devíamos a um senhor belga muito empreendedor e muito discreto chamado Raymond Leblanc, que a 26 de Setembro de 1946 editou o número um do Tintim belga original com um desenho de O Templo do Sol na capa, que fundou as Éditions du Lombard e que morreu há alguns dias, em Neufchâteau, nas Ardenas, onde havia nascido há 92 anos..É necessário precisar que sem Hergé, não teria havido revista Tintim. E recordar que, por ter sido chefe de redacção do suplemento juvenil do jornal belga Le Soir durante a ocupação alemã da Bélgica, Hergé fora taxado de "colaborador" e proscrito pelos "libertadores" após o final da II Guerra Mundial. O que significava que não podia trabalhar em parte nenhuma se não tivesse o necessário "certificado de civismo" emitido pelas autoridades..Leitor ávido das aventuras de Tintin, que descobriu no Le Petit Vingtiéme, Raymond Leblanc queria lançar uma revista de banda desenhada com o nome do seu herói. Estava certo de que iria ser um gigantesco sucesso, sobretudo numa altura em que "qualquer coisa impressa em papel vendia, porque as pessoas tinham uma enorme necessidade de se entreterem"..Leblanc foi então falar com Hergé, apresentou-lhe a sua proposta e dos seus sócios e viu-a ser aceite. Não sem antes o autor lhe dizer: "Uma revista com o nome de Tintim? Olhe que isso é perigoso..." Não era, porque Raymond Leblanc tinha sido resistente e usou esse estatuto e os seus contactos para conseguir todas as autorizações e licenças obrigatórias, e o essencial "certificado de civismo" para Hergé. Com este, veio também outro dos "proscritos", o seu grande amigo e colaborador Jacques Van Melkebeke, que criou o grafismo de Tintim. Hergé trouxe consigo E. P. Jacobs, Cuvelier e Laudy, e estes quatro autores "fizeram praticamente a revista", nas palavras de Leblanc. Muitos outros chegariam depois, reforçando o título..O sucesso de Tintim, lançado com um slogan publicitário inspirado ("A revista dos jovens dos 7 aos 77 anos"), foi instantâneo e a tiragem inicial de 60 mil exemplares esgotou-se. A edição francesa surgiria logo em 1948. Nos anos 60, Tintim chegaria a vender meio milhão de exemplares por semana. Raymond Leblanc começou também a lançar os álbuns das aventuras das personagens da revista, com a chancela da Lombard, e internacionalizou o título, permitindo a sua chegada a Portugal, entre outros países. O último número do Tintim belga saiu em 1988, mas já havia feito história da banda desenhada. E de uma forma que nem Raymond Leblanc teria alguma vez imaginado.