Isolado, fechado, anquilosado, miserabilista - estas acusações que se lançam à política do Estado Novo falham, porém, no que respeita à economia portuguesa anterior ao 25 de Abril de 1974.Embora com algum atraso, Portugal conseguiu apanhar o comboio dos anos de ouro das economias europeias do pós-guerra.«Quero este País pobre mas independente; não o quero colonizado por capital americano», disse Salazar em 1963. Só que, antes, tinha aceitado receber os empréstimos do Plano Marshall, destinados a levantar a Europa das ruínas da II Guerra Mundial. Embora não tenha sido um País beligerante, Portugal aproveitou este maná de dólares, que contribuiu para o arranque de novas indústrias.Por outro lado, Salazar nunca aplicou na economia a sua tese do «orgulhosamente sós».Assim, no princípio dos anos 60 Portugal aderiu a todas as organizações económicas e financeiras de âmbito internacional então existentes : Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE, depois OCDE), Acordo Geral sobre Pautas Aduaneiras e Comércio (GATT, percursor da actual Organização Mundial de Comércio) e EFTA. O último passo desta internacionaliza- ção foi dado em 1972, com um acordo preferencial com a então CEE, hoje União Europeia.Particularmente decisiva para o desenvolvimento do sector industrial português foi a adesão à EFTA, organização onde pontificava o Reino Unido e que pretendia ser uma alternativa à CEE, mas sem outras ambições que não as puramente alfandegárias. Graças a um anexo ao tratado de adesão à EFTA, Portugal conseguiu uma prorrogação no prazo de desmantelamento das barreiras aduaneiras, o que protegeu a indústria nacional e favoreceu as exportações.Pode dizer-se que a EFTA permitiu o nascimento de uma indústria têxtil extremamente forte... que hoje está quase em extinção.As confecções foram, nos anos 60 e princípios de 70, o verdadeiro motor da economia portuguesa, o maior exportador nacional, o maior gerador de receitas fiscais e o maior empregador. Todos os países entram na era industrial através dos têxteis. Foi assim na Inglaterra do século XIX, em Portugal no século XX, e nos países asiáticos no actual século. Só nos atrasámos, pois, cem anos...macroeconomia Nos tempos que correm, quando o PIB cresce 1% por ano, já ficamos satisfeitos. Quando o crescimento desse indicador de criação de riqueza de um país atinge valores na ordem dos 3%, então até exultamos de alegria. Ora, entre 1960 e 1973, o PIB português registou um crescimento médio de 6,9%! Recorda-se que, no ano passado, foi de 0,7% negativos.As indústrias transformadoras conseguiram manter um VAB (valor acrescentado bruto) anual de 9,2% entre 1960 e 1973. No mesmo período, a produtividade média das empresas portuguesas foi de 7,3%. As exportações cresceram 11,6% no período em apreço (e só 2,3% no ano passado). O desemprego em 1970 foi de 2,7%, metade do actual.Como é que a economia portuguesa conseguiu indicadores tão pujantes? Em primeiro lugar, com salários baixos internos. Depois, com uma procura externa forte. A Europa vivia então um período que nalguns países é mesmo apelidado de era de ouro. A febre consumista mundial só abrandaria em 1973, com o primeiro choque petrolífero, que deu origem a uma crise económica prolongada e agravada pelo segundo choque petrolífero, em 1979.Um terceiro factor foi o proteccionismo moderado de que as empresas portuguesas beneficiavam. Em primeira instância, as empresas tinham um mercado privilegiado: as colónias. As exportações para África representavam, em 1960, 25% do total das mercadorias vendidas ao exterior. Mas em 1973 o mercado colonial já só representava 15% das exportações portuguesas, graças à melhoria da capacidade das empresas de venderem no mercado europeu, muito mais exigente e selectivo. Em segunda linha, as empresas portuguesas estavam protegidas pela lei do condicionamento industrial, que tinha como principal objectivo proteger o capital nacional de eventuais concorrentes internacionais que quisessem instalar-se no País.Esta legislação limitava drasticamente o investimento estrangeiro que, então, não era considerado essencial para o desenvolvimento do País, pois se considerava suficiente o capital nacional. Estava-se na época do desenvolvimento dos grandes grupos económicos - Champalimaud, Mello, Espírito Santo, CUF, Pinto de Magalhães, Vinhas, etc.O proteccionismo desta legislação chegava ao ponto de ser necessária a autorização do Governo no caso de um empresário português querer vender a sua empresa a um estrangeiro. E as empresas que não tivessem pelo menos 60% de capital genuinamente português estavam impedidas de concorrer aos concursos públicos.É claro que se tais medidas garantiam aquilo a que hoje se chama de manutenção dos centros de decisão em Portugal, também impediam que surgissem no mercado novos concorrentes que fizessem tremer as indústrias já instaladas.A lei do condicionamento industrial era, porém, uma norma de excepção no seio de um regime que pouco interferia na economia.O Estado não era investidor nem empresário. José da Silva Lopes, co-autor da obra A Situação Social em Portugal 1960-1995, escreve que «o peso financeiro do Estado na economia era relativamente modesto». Este economista sustenta ainda que o «baixo nível do rendimento per capita não permitia então sustentar uma proporção muito alta de gastos públicos», ou seja, como a maioria dos portugueses eram pobres, também as receitas fiscais eram pobres. E com um Estado pobre de recursos, estava posta de parte a hipótese de o motor da economia ser um Governo despesista, consumidor, fazedor de obras públicas.trabalho As estatísticas revelam que hoje apenas 5% dos trabalhadores portugueses recebem o salário mínimo. Mas quando esta figura foi criada, poucas semanas após o 25 de Abril de 1974, abrangeu cerca de 50% da população activa. Efectivamente, parte do sucesso da economia repousava nos salários baixos. Mas a verdade é que se tratava de uma mão-de-obra sem qualificações. Muitos dos operários tinham sido agricultores na véspera. Data dos anos 60 o fenómeno do êxodo da população rural do país. Uma parte foi engrossar as filas dos trabalhadores das indústrias que nasciam e outra parte, bem maior, deu o salto nas fronteiras e foi trabalhar para a França, Alemanha, Suíça e Luxemburgo.Em 1960, cerca de 45% dos trabalhadores labutavam nos campos, minas ou na pesca. Hoje, esse número não chega a 10%. No sector dos serviços, onde trabalha hoje quase 60% da população, só havia 26% no princípio dos anos 60. A percentagem de trabalhadores no sector secundário (indústrias) desceu ligeiramente de 39% para os 32% actuais.Esta migração da população activa do sector primário para o secundário em apenas três décadas é o sinal mais revelador de como a economia soube adaptar-se às exigências de um estádio mais elevado de desenvolvimento. Quanto à emigração para o estrangeiro, ela teve o resultado de as remessas dos rendimentos de trabalho dos emigrantes passar a ser, desde finais da década de 60 e toda a década de 70, a principal fonte de receitas do País. Foram os emigrantes que sustentaram a economia que entrou em crise na década de 70..No feminino: Mulheres já lideram cursos superiores.As mulheres portuguesas conquistaram, com o 25 de Abril, uma posição melhor perante o mundo do trabalho. O que é demonstrável se verificarmos que, em 1970, havia muito mais mulheres analfabetas (31%) do que homens (19,7%). Hoje, a proporção até se agravou (11,5% contra 6,3%), mas isto deve-se à maior longevidade do sexo feminino, pois trata-se de analfabetismo de pessoas idosas. Mas no ensino superior já ocorreu o volte- -face: em 1970, entre os licenciados, 55,6% eram homens e 44,4% mulheres. Mas as últimas estatísticas, de 2001, comprovam que já há mais mulheres licenciadas (56,4%) do que homens (43,6%). O interesse pela vida pública por parte do sexo feminino está também patente na sua participação em cargos políticos. Assim, a primeira legislatura (1975) contou com 8,9% de mulheres e a última, em 2002, fez sentar 19,6% de mulheres em São Bento. A mesma evolução ocorreu na composição dos governos (de 1,9% em 1976 aos actuais 14,8%) e presidência de autarquias (de 1,3% em 1979 aos 5,2% de hoje)..Portugal em números.Nas últimas três décadas, os indicadores sociais e económicos sofreram alterações mais ou menos profundas. O País mudou com a Revolução dos Cravos, em 1974, e a adesão, em 1986, à então Comunidade Económica Europeia, hoje União Europeia. A comparação estatística é elucidativa. O DN apresenta hoje alguns exemplos de indicadores.População residente (em milhões)8,6 -197010,3 -2001Casamentos dissolvidos por divórcio777197427 9602002Estudantes matriculados no ensino superior38 3551970390 6382001Número de quilómetros de auto-estradas74197718352002Taxa de analfabetismo19,7%19706,3%2001Remuneração média mensal de base (em euros)1985 - 1502000 - 613,8Rendimento 'per capita' (em % da média europeia)1973 - 58,4%2003 - 68,8%População activa (% no sector dos serviços)1974 - 32,2%2002 - 53,6%Taxa de desemprego1970 - 2,7%2003 - 6,4%Crescimento do produto interno bruto (PIB)1973 +4,9%2003 - 1,3%