Era o melhor filme da Competição, um dos favoritos desde o início e ganhou merecidamente o Leão de Ouro do 62.º Festival de Veneza. Brokeback Mountain, de Ang Lee, o camaleónico realizador taiwanês que filma em Hol-lywood ou na Ásia com o mesmo à-vontade, triunfou numa mostra onde a qualidade média da secção competitiva foi indubitavelmente boa, e encabeça uma das mais justas premiações dos últimos anos..Brokeback Mountain havia sido recusado no Festival de Cannes e vinha classificado de western gay, mas está muito longe de ser um filme que se acomode no nicho do cinema homossexual. Com Heath Ledger e Jake Gyllenhall no papel de dois cowboys que se conhecem nos anos 60 e mantêm uma longa relação amorosa, apesar de se casarem e terem filhos, Brokeback Mountain tem como tema a perenidade da paixão - seja de que sinal for -, apesar das distâncias, das vicissitudes pessoais e familiares e da passagem do tempo. Pela forma como usa os espaços abertos e a natureza grandiosa, e a iconografia e a cultura simples e lacónica dos cowboys, Ang Lee ecoa os westerns clássicos. Só que os tempos são diferentes... .Good Night, and Good Luck, de George Clooney, que foi um dos acontecimentos do festival e reunia o consenso do público e da crítica, deixa Veneza com o Prémio de Argumento e com a Taça Vol- pi de Melhor Actor para David Strathairn. É um bom exemplo de cinema "liberal" de Hollywood, evocando, a preto e branco e sem fazer comício, o confronto que opôs, nos anos 50, entre Ed Murrow, pioneiro do jornalismo televisivo nos EUA, e o senador Joseph McCarthy. O passado fala para o futuro através do exemplo e da voz de Murrow, pela independência, rigor e responsabilidade dos jornalistas. Clooney, que agora vive em Itália, perto do lago Como, relembrou que Good Night, and Good Luck era dedicado ao pai, que foi pivô de televisão. David Strathairn leu o discurso de agradecimen- to em italiano titubeante e com um ar muito sério, mas no final fin- giu beber da taça Volpi. .O facto de a direcção do festival ter mexido este ano nos regulamentos, para impedir que um filme pudesse acumular mais do que um dos principais prémios, teve efeitos no palmarés. Por exemplo, permitiu a Itália ver a Taça Volpi de Melhor Actriz ser erguida por Giovanna Mezzogiorno, que é o melhor do laborioso La Bestia Nel Cuore, de Cristina Comencini, num ano em que, no resto, a presença transalpina na Competição andou entre o desastroso (Il Giorni Dell'Abbandono, de Roberto Faenza) e o simpático (La Seconda Notte Di Nozze, de Pupi Avati)..E como se estava em maré de tomar liberdades, o júri aproveitou a presença de Isabelle Hup-pert na competição em Gabrielle, de Patrice Chéreau, e presenteou-a com um Leão de Ouro Especial, honra que só havia sido concedida a Manoel de Oliveira já há alguns anos..NEGATIVOS. As duas únicas nódoas no pano do palmarés são o Prémio Especial do Júri para Mary, de Abel Ferrara (que também se mudou recentemente de Nova Iorque para Roma), com produção italiana, e o Leão de Prata da Melhor Realização para Les Amants Réguliers, de Philippe Garrel. Ferrara quer falar de religião, de fé e de teologia mas não articula uma só ideia coerente e subalterniza o único tema interessante e provocador do filme Maria Madalena como um dos apóstolos. .Philippe Garrel disse à entrada da cerimónia de premiação que o seu filme é "de vanguarda", mas não acreditem, Les Amants Réguliers é cinema museológico. Parece um zombie da Nova Vaga e está cheio dos fantasmas pessoais e políticos de Garrel e da sua geração, nomeadamente uma obsessão doentia com o Maio de 68. Pelo menos, serviu para distinguir o grande director de fotografia francês William Lubtchansky com o prémio de Contributo Técnico..Para o ano vai haver um novo festival de cinema em Itália, o de Roma, em Outubro de 2006. Fala--se já que o Festival de Veneza poderá ser prejudicado por este novo certame, embora os respon- sáveis de ambos prefiram pa- lavras como "complementari- dade" e "colaboração". Mas pela sua tradição, como pelo nível atingido pelas edições de 2004 e deste ano, a Mostra veneziana não tem que temer novos concorrentes.