Kiev denuncia trégua de Putin: "hipocrisia" e "propaganda"
Foi há muito pouco tempo, mas será útil lembrar: a Ucrânia foi bombardeada no dia de Natal e na véspera e no dia de ano novo pela Rússia. Agora, horas depois do apelo para uma trégua do patriarca da Igreja Ortodoxa Cirilo, bem como do presidente turco, Erdogan, o líder russo anunciou que as armas vão calar-se na linha da frente, durante 36 horas, a partir do meio-dia de sexta-feira.
A medida é inédita, mas não aqueceu os corações dos líderes ucranianos, gelados por uma realidade em que os civis continuam a ser vítimas diárias de ataques dos ocupantes, como o ocorrido em Beryslav, na região de Kherson: um casal e um filho de 12 anos morreram num bombardeamento.
A tentativa de Vladimir Putin ganhar novo protagonismo dias depois do mais mortífero ataque às tropas russas foi de pronto contrariada pelas reações de Kiev, Washington e Berlim, e aconteceu em paralelo às já costumeiras ameaças do ex-presidente Medvedev. Como num chavão de um policial, o Kremlin mostrou boa vontade, ao anunciar "um regime de cessar-fogo em toda a linha de contacto na Ucrânia", "tendo em conta o apelo" do patriarca Cirilo.
O patriarca russo fez o apelo "para que os ortodoxos possam assistir aos cultos na véspera de Natal e no dia da Natividade de Cristo". Os cristãos ortodoxos comemoram o Natal no dia 7. No entanto, a rutura entre Moscovo e Kiev levou a que muitos ucranianos tenham começado a festejar na mesma data que a restante cristandade, 25 de dezembro.
Cirilo, de 76 anos, é um fervoroso defensor de Vladimir Putin e da guerra. Em consequência, a Igreja Ortodoxa ucraniana rompeu com Moscovo em maio, o Papa Francisco revelou um desentendimento entre ambos, pausando a aproximação histórica que estava em curso entre católicos e ortodoxos, e é alvo de sanções dos Estados Unidos, Reino Unido e Canadá.
Já Dmitri Medvedev voltou a desempenhar o papel de "polícia mau". O vice de Putin no Conselho de Segurança da Rússia disse que o seu país vai falar na "linguagem do poder" aos seus opositores , produzindo mais armas, e deixando uma ameaça aos Estados Unidos. "O principal presente para o ano novo foi a carga de mísseis Zircon que partiu para as costas dos países da NATO. O alcance da sua utilização é de mil quilómetros com o hipersónico Mach 9 (nove vezes a velocidade do som) e a capacidade de utilizar qualquer carga com garantia de superar qualquer defesa antimíssil", disse sobre a fragata Almirante Gorhskov.
"Deixem-na estar algures a 100 milhas da costa, mais perto do rio Potomac. Regozijem! Trará à razão qualquer pessoa que represente uma ameaça direta à Rússia e aos nossos aliados", disse Medvedev numa mensagem no Telegram. O rio Potomac banha a capital dos Estados Unidos, Washington.
As ameaças de Medvedev acontecem em resposta a um declaração da embaixada dos EUA em Moscovo, na qual se mostra solidária com os cidadãos russos que "se esforçam por criar um futuro mais pacífico". Para o ex-presidente russo, "isto é cinismo extremo nas melhores tradições dos nazis".
A trégua de Natal do Kremlin foi alvo de críticas. Na Ucrânia, o secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional descreveu a iniciativa de "mentiras e hipocrisia". Perguntou Oleksiy Danilov: "Como é que um bando de pequenos demónios do Kremlin se relaciona com um feriado cristão? Quem acreditará na escumalha que mata crianças, bombardeia maternidades, tortura prisioneiros?". Horas antes, o conselheiro de Volodymyr Zelensky Mikhailo Podolyak reagiu à mensagem do Kremlin, tendo dito que uma trégua só será possível depois de a Rússia sair dos territórios ocupados. "Deixem a hipocrisia para vocês", aconselhou Podolyak a Moscovo.
No mesmo dia em que Washington e Berlim anunciaram em comunicado conjunto que os Estados Unidos e a Alemanha irão seguir a França e enviar carros de combate para a Ucrânia, além de mais um sistema de defesa Patriot, o presidente norte-americano e a chefe da diplomacia alemã juntaram-se às críticas de Kiev. "Penso que ele [Putin] está a tentar encontrar algum oxigénio", comentou Joe Biden, ao que acrescentou: "Ele estava disposto a bombardear hospitais, jardins de infância e igrejas" a 25 de dezembro e no dia de ano novo.
Já a ministra dos Negócios Estrangeiros alemã disse que se o líder russo quisesse realmente a paz "levaria os seus soldados para casa". Para Annalena Baerbock, "um chamado cessar-fogo não traz nem liberdade nem segurança às pessoas que vivem no medo diário sob ocupação russa".
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