Kátia Guerreiro. "Direitos de autor: temos de recebê-los. São milhões de pessoas que usufruem da nossa criatividade"

10 perguntas à queima-roupa, 10 respostas na ponta da língua. Nesta rubrica, o DN desafia personalidades a comentar assuntos quentes do país e do verão. Hoje é a vez desta médica oftalmologista e consagrada fadista portuguesa.
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Estado da cultura?
Estamos a atravessar uma fase muito difícil e esta minha constatação vem de conversas que tenho tido com artistas de várias áreas e géneros musicais, muito descontentes com o facto de cada vez mais vivermos sob a ilusão de que alguém olha para nós, cuida de nós e isso efetivamente não acontece.

Estado do Fado?
Está a atravessar uma fase um bocadinho difícil. Houve um período em que o mercado foi muito inundado com novas vozes, novas caras, novas tendências e acabou por saturar. E, pior ainda, é percebermos que cada vez mais, nos meios de comunicação social, temos menos tempo, menos espaço, menos visibilidade. Parece que o país nega a existência de um género musical que é tão único e que apaixona o mundo inteiro.

Novos talentos.
Basta olhar para os cartazes pelo país inteiro e ligarmos as rádios para percebermos a quantidade de novos artistas que surgem a toda a hora no país, contrariando o que foi defendido sobre o volume de produção musical a propósito da manutenção das quotas de música portuguesa nas rádios.

Direitos de autor.
São algo que nos pertence, a nós autores, nós artistas. E autor não é só quem escreve ou quem compõe, é também quem interpreta, porque a interpretação, não é só de quem canta, como de quem toca, é um ato criativo e esses direitos de autor temos de recebê-los, porque são milhões de pessoas que usufruem da nossa criatividade sem que consigamos ver o real impacto que isso tem na vida das outras pessoas.

Plataformas online: amigas ou inimigas?
Desde que a música passou a existir no mundo digitalizado que comecei a ter alguns receios. Percebi rapidamente que íamos entrar numa subversão de valores quanto ao ato criativo. O nosso ato criativo está a ser oferecido em troco de promoção, de exposição, de visibilidade. Atualmente, se não forem espetáculos, os artistas pouco ganham com aquilo que fazem.

Um podcast.
Entrei num processo de autoconhecimento, que é um processo muito bonito de irmos mais dentro de nós, profundamente, sabermos controlar a nossa existência tomando consciência dela de uma forma diferente, não estarmos só focados em existir. E consegui seguir o podcast da Carolina Monteverde, que se chama Brida Sem Filtros, e é exatamente a busca pela autenticidade, que é aquilo que vou andar a procurar a vida toda.

Uma meta até ao final da década.
Conseguir romper com preconceitos relativamente ao fado e à sua autenticidade. Sei que por muito que surjam inovações, e que são todas elas legítimas, há uma coisa que para mim é indiscutível, o fado tem recursos infindáveis e não é à toa que tem, para mim, um significado diferente cada vez que canto e, exatamente por isso, cada vez que canto é um novo ato criativo: nunca canto da mesma forma. E gostava muito de ter a capacidade, junto com outros defensores do fado, de conseguirmos mostrar, acima de tudo em Portugal, que o fado é dos valores culturais mais ricos que temos.

Neste verão, não pode faltar...
Não sei bem. Nunca diria praia, porque não sou uma mulher de praia, vivi nos Açores rodeada de mar e isso sim, preciso de ter diante dos meus olhos, mas a areia incomoda-me. Mas acho que no verão não pode faltar convívio, amizade e vento fresco a passar pela pele.

Música favorita?
É muito difícil de eleger uma música favorita porque depende muito do meu estado de espírito, mas diria, porque em janeiro decidi aventurar-me em aprender a tocar piano e a minha professora perguntou-me por que música gostava de começar, e muito instintivamente pedi-lhe a partitura do Like a Bridge of Troubled Waters, de Paul Simons e Art Garfunkel - diz tanto da amizade.

E um luxo é?
A amizade.

Oiça aqui o podcast:

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