O ministério público da cidade de Graz, na Áustria, decidiu reabrir a investigação ao caso Natascha Kampusch, a jovem hoje com 21 anos que foi libertada em 2006 após um longo sequestro. Segundo as autoridades policiais, citadas na edição de ontem do jornal espanhol El País, existem "demasiadas pontas soltas" no processo, que continua a intrigar os austríacos, sobretudo desde há um ano, quando Natascha voltou a abandonar a luz dos holofotes, refugiando-se no seu apartamento de quatro divisões no centro de Viena, onde vive praticamente como uma eremita..Uma das convicções do ministério público é que o sequestrador de Natascha, Wolfgafd Priklopil, não agiu sozinho. De resto, segundo o testemunho de uma colega de escola de Natascha, que foi testemunha dos acontecimentos no dia 2 de Março de 1998, a então estudante de dez anos foi raptada em plena rua, perto da casa onde vivia nos subúrbios de Viena, por dois homens que a conduziram ao interior de uma furgoneta Mercedes, de cor branca. Um deles, sabe-se hoje, era Wolfgang Priklopil. O outro, ainda ninguém faz ideia quem é. Natascha sempre garantiu que não havia mais ninguém envolvido no seu sequestro..Mas a polícia e o tribunal acreditam que a jovem nunca contou tudo quanto sabe. A síndroma de Estocolmo, que faz a vítima sucumbir ao desejo de posse do seu captor, pode explicar muita coisa. Mas talvez não explique por completo as lágrimas copiosas que Natascha chorou ao saber que Wolfgand se suicidara atirando-se para uma linha de comboio oito horas após a jovem ter conseguido fugir da residência onde esteve sequestrada entre 1998 e 2006. Natascha fez questão de reconhecer o corpo na morgue e acabou por adquirir a casa de Strasshof, onde viveu reclusa durante oito anos. ."A nossa prioridade é passar em revista todas as provas acumuladas em torno deste caso e, a partir daí, interrogar todas as pessoas necessárias", declarou ao El País o magistrado Thomas Muehlbacher, que está a investigar o caso, admitindo que Natascha possa voltar a ser interrogada. .Um dos pormenores que merece investigação mais profunda é a revelação, feita pela revista alemã Stern, de que Natascha e o raptor passaram um período de férias juntos nos Alpes. Por outro lado, uma antiga vizinha da mãe de Natascha assegura que Brigitta Sirny-Kampusch, hoje com 59 anos, conhecia perfeitamente Wolfgang Priklopil, um técnico de electrónica que trabalhou na multinacional Siemens e chegou a ter negócios na área da construção. Por outro lado, um ex-sócio dele, Ernst Holzapflelt, revelou à polícia que Wolfgang - que tinha 44 anos quando se suicidou - era visita da casa de Natascha, filha de pais separados. Falta ainda saber com pormenor o que aconteceu nas horas que antecederam o rapto. Brigitta já confessou que nesse dia deu uma bofetada à filha, por alegado mau comportamento da pequena. As relações entre mãe e filha permanecem distantes, como todos os jornalistas que acompanharam o caso puderam testemunhar.."Vivo como uma eremita, tenho ataques de ansiedade", declarou a jovem, há cerca de um mês, ao diário alemão Süddeutsche Zeitung, revelando que o seu maior objectivo na vida, actualmente, é passar tão despercebida quanto lhe for possível. Evita até sair à rua: a aura de celebridade que a rodeou há três anos produziu maus resultados. Segundo Natascha, é frequente cruzar-se com pessoas que a insultam na via pública e a responsabilizam pela morte de Wolfgang. As suspeitas de que o captor estaria relacionado com redes pedófilas chegou também a ser investigada, embora sem êxito. Neste caso continuam a ser muito mais as sombras do que as luzes.