José Adelino Maltez: "Costa foi insultuoso para a IL ao pegar na crise britânica"

Politólogo afirma que a IL tem que defender a sua doutrina e ancorar-se na Europa. Senão "será uma moda" como foi o Ciudadanos.
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A Iniciativa Liberal bate-se pelo espaço político ao centro. É força entre o PSD e o PS?
No plano europeu há um partido europeu liberal, o ALDE, que é a junção de 49 partidos, tem 109 deputados no Parlamento Europeu e a sua posição é muito simples de explicar: está à esquerda do PPE, organização a que pertence o PPD/PSD e o CDS e está à direita dos socialistas europeus. E a IL faz parte desta família, situa-se claramente na terceira família política da Europa. No governo alemão atual onde estão os liberais? Estão na coligação com os socialistas e os verdes, não estão na direita dos democratas-cristãos. António Costa foi demagógico no Parlamento quando pegou na crise do governo conservador da Liz Truss e puxou de um jornal e disse "vocês estão a ver o que os liberais fizeram". Isto foi insultuoso para a IL porque há duas forças de oposição ao governo conservador em Londres, uma é dos Trabalhistas, dos sociais-democratas, e outra é do Partido Liberal Democrata. Isto é, os liberais em Londres estão na oposição ao governo conservador. A posição na Europa dos liberais é entre o PPE e a Aliança dos Socialistas e Democratas, o que significa que está rigorosamente entre o PSD e o PS.

As propostas que a IL tem feito enquadram-se todas neste campo político?
É inequívoco que a IL era liberal nos planos da economia, da política e do social ou dos costumes. Isto é, liberalismo político é aquilo que defende o PS, o PSD, julgo que o CDS e a IL. Liberalismo económico os socialistas também defendem a economia de mercado , os sociais-democratas a mesma coisa, tal como a IL. Liberalismo no plano social ou dos costumes a IL está numa posição que o CDS já não defende, que metade do PSD também não defende, mas que o PS defende e até certas forças da esquerda pós-revolucionária, como o Bloco de Esquerda. Por exemplo, das lei do aborto, da eutanásia , a questão da igualdade de género. A IL defende as três formas de liberalismo.

Ainda há espaço em Portugal para os liberais crescerem, sobretudo fora dos grandes centros urbanos?
A IL quando tinha um deputado tinha uma determinada projeção na opinião pública e na sociedade. Passou a ter oito deputados e não parece que os oito signifiquem oito vezes mais intervenção política e opinativa. E, naturalmente, têm um problema de crise. Das duas uma: ou pode ser uma crise de crescimento - os partidos quando nascem, no caso por exemplo do PS e PSD, tiveram as grandes dissidências e grandes crises no final do primeiro ou segundo ano de existência; ou pode ser uma crise de decadência. As dissidências no CDS anunciaram a decadência.

Quem vai decidir isto?
O eleitorado e a maneira como a IL souber resolver esta crise. Mas que tem muito que fazer, tem, em termos do espaço da opinião, sobretudo no que é essencial, que é fazer passar a identidade de pertença à família liberal europeia. Um exemplo de como tem falhado a IL. É visto como o partido dos betos, dos ricos, etc. e a IL não tem sabido dizer "nós baseamo-nos num manifesto, que é o Manifesto de Oxford de 1947, que hoje é a matriz de todos os partidos liberais europeus. Se formos ler esse documento, redigido por um espanhol, Salvador de Madariaga, as primeiras palavras são "nós nascemos contra a guerra, contra a desordem, contra a pobreza, contra a fome e contra o medo". Cinco anos antes, na Grã-Bretanha foi pela primeira vez esquematizado um modelo de organização do Estado, que chamavam em inglês Welfare State (Estado de bem estar) por oposição ao Warfare State (Estado de guerra), onde lançaram aquilo que é hoje um dos consensos europeus do chamado Estado-social. O que já não era o Estado assistencialista ou de previdência dos franceses, que aqui foi traduzido pelo salazarismo, onde direitos como a saúde, educação e a luta contra a pobreza nascem de um sistema de prestações universais . O autor deste modelo, o sr. William Beveridge, o célebre relatório Beveridge de 1942, era nada mais nada menos um conhecido liberal britânico. O modelo do Estado-social foi criado por um liberal para marcar o pós-guerra. Aqui os de esquerda dizem que o Estado-social tem origem no Lenine, no Estaline e no Trotsky. Aqui a IL não tem sabido responder a esse ambiente. E está numa encruzilhada, que se não a ultrapassar será uma coisa de moda, como foram os Ciudadanos em Espanha, ou se se quer enraizar tem de se ancorar na Europa. Dizer que se a IL tivesse a maioria absoluta ia gerir com gosto e muito melhor o Estado-social do que a Esquerda ou os socialistas. A esquerda portuguesa argumenta que são todos neoliberais. Isto é uma mentira porque de facto há neoliberais nascidos também em 1947 e adeptos do modelo daquilo que se chama o liberalismo austríaco, que é mais um modelo norte-americano do que europeu. Mas o manifesto de Oxford é um caminho diferente. A IL tem vivido muito da imagem, que foi muito boa, quer do Guimarães Pinto quer do Cotrim Figueiredo, mas agora está perante o desafio de ter de haver um partido não do líder mas de um coletivo que se traduziu num determinado programa que, ao que parece não está em causa.

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