Numa altura em que a escassez generalizada de talento é reconhecida como um dos maiores desafios dos empresários para os próximos anos, e sem solução à vista, um estudo desenvolvido pela Cotec Portugal, em parceria com a Nova IMS, conclui que "o talento é a ferramenta essencial para a inovação", revela Jorge Portugal. O diretor-geral da Cotec Portugal falava durante mais uma edição dos Encontros Lusa, que decorreu ontem em Lisboa. "Atrair e reter os melhores talentos - receitas para criar valor na economia portuguesa" foi o tema escolhido para o debate que juntou, no início da manhã, o responsável da Associação Empresarial para a Inovação e Joaquim Carreira, presidente do Conselho de Administração da Lusa..Tendo como ponto de partida o estudo "Maturidade da liderança e gestão da mudança", esta primeira conversa do dia debruçou-se sobre a importância da inovação nas organizações e no papel que o talento tem no seu desenvolvimento. "A inovação é um tema crucial para a economia e para a competitividade do país", assegura Jorge Portugal reforçando, contudo, que sem o talento adequado e a sua gestão eficaz não é possível inovar. O diretor-geral da Cotec recorda que atualmente o talento é global, o que dificulta a sua atração e retenção, mas é uma questão fundamental para as empresas..Entre as principais conclusões do estudo, Jorge Portugal destaca o reconhecimento generalizado dos empresários em relação à inovação e ao seu impacto na criação de valor para as empresas e a economia, mas também para o desenvolvimento de novos produtos. A pesquisa destaca, contudo, que os mesmos empresários têm a perceção de que há muito a fazer nas organizações para que a inovação possa ser uma realidade. "Produzimos do melhor talento para a Europa e para o mundo, mas não estamos a valorizá-lo", alerta o responsável da Cotec, que salienta ainda as dificuldades organizacionais e institucionais que, por vezes, ainda dificultam a atração de talento internacional para Portugal. Apesar de o país estar muito bem cotado no que se refere às condições e qualidade de vida, à segurança, ou em relação ao clima, gastronomia ou simpatia da população, continua a pontuar mais baixo quando o tema são questões institucionais, legislativas ou fiscais..Do lado das empresas, e na visão dos empresários e gestores, as conclusões são semelhantes. Políticas fiscais adequadas ao contexto, que mudou muito durante e após a pandemia, previsibilidade e celeridade na justiça são temas críticos que é preciso alterar para atrair talento, mas também investimento internacional que crie emprego e que contribua para a competitividade da economia nacional. "Sem previsibilidade fiscal e regulatória não haverá investimentos a médio e longo prazo", defende Ana Figueiredo. A CEO da Altice Portugal participou no debate que encerrou o "Encontros Lusa", onde participaram também António Rios de Amorim, presidente do Conselho de Administração da Corticeira Amorim, e presidente da direção da Cotec Portugal, e Ana Lenz, diretora-geral da Nestlé Portugal, que partilham de opinião idêntica. A conversa foi moderada por Shrikesh Laxmidas, chefe de redação da Agência Lusa..Ainda ao nível fiscal, António Rios de Amorim vê como um passo positivo o recentemente aprovado regime das stock options que deixará de penalizar os trabalhadores que, nas empresas, recebam estes incentivos como acontecia até aqui. Contudo, reforça a importância de evitar medidas desgarradas e a falta de visão do todo. "Neste novo regime, os membros dos órgãos sociais e proprietários das empresas continuam a ser penalizados e a não poder beneficiar deste incentivo", aponta..Apesar destas dificuldades, os três gestores presentes contam com estratégias de atração e de retenção de talentos nas organizações que dirigem que passam pela capacitação e requalificação do talento interno, pelo recurso às universidades como fonte de recursos, ou pela criação de ecossistemas que reforcem as áreas nas quais não dispõem de conhecimento. "Não é possível replicar talento, pelo que procuramos estar à frente da concorrência através daquilo que nos distingue", explica Ana Figueiredo..Num setor industrial mais tradicional, António Rios de Amorim reconhece que antes de recrutar fora procura usar o talento interno. "Fazemos programas de formação para pessoas indiferenciadas que, com novas competências, conseguem manter os seus postos de trabalho e até melhorar o salário". O setor corticeiro tem conseguido evoluir através da qualificação de pessoas para o uso da tecnologia que é crescente nesta indústria, exemplifica..Já na perspetiva de Ana Lenz, o grande desafio do talento passa pela cultura organizacional. "O acesso ao talento para nós é global, mas a concorrência também o é. Ou seja, a distinção para sermos atrativos tem que passar pelo que as pessoas sentem, pelo propósito e pelos laços que criam com a organização e as equipas", defende.