Vamos recuar no tempo e falar dessa grande descoberta de 1998, quando nos arredores de Leiria, no Abrigo do Lagar Velho, foi descoberto o esqueleto de uma criança. Um achado que veio mudar a tua vida... Um finalista da licenciatura de Arqueologia estava a fazer um trabalho e foi ao Lapedo procurar gravuras rupestres. Descobriu uma gravura da Idade do Cobre e avisaram-me. Regressei do Japão com a notícia de que o Côa era Património da Humanidade e fui até lá. Quando chegámos, encontrámos uma terraplanagem que tinha removido parte do enchimento sedimentar de um abrigo e o chão estava cheio de vestígios. Ferramentas em sílex, restos de fauna caçada, carvão das lareiras. Tudo revolvido e parcialmente destruído. Ao avaliar a situação, um dos colegas, o João Maurício, chama-nos a atenção para uma reentrância, onde encontrou ossos humanos..Nessa altura, o vosso interesse pelo local redobrou... Sim, porque era uma sepultura, com ossos infantis, e um deles estava tingido de vermelho. E quem trabalha nestas áreas sabe que no Paleolítico Superior, no Gravetense, que vai dos 28 aos 32 mil anos, se usam rituais em que se cobrem os corpos com mortalhas de pele tingidas de vermelho. Ainda hoje este é o único enterramento gravetense descoberto na Península Ibérica..Mas a principal descoberta não foi essa. Para além de todos esses dados novos, aquela era uma criança diferente... Como a descoberta era importante e eu era diretor do IPA, mandei vir os meios necessários para iniciarmos a escavação. Estivemos lá vários meses e encontrámos o esqueleto intacto. Só o crânio é que tinha sido apanhado pela retroescavadora. Para o reconstruirmos, tivemos de crivar as terras em redor e ir apanhando os fragmentos. Só isto era uma descoberta muito importante e rara: era um enterramento único de uma criança do Gravetense..Tudo isso muda quando começam a estudar com minúcia o esqueleto daquela criança? Quem se ocupou da escavação foi a antropóloga física Cidália Duarte. Estava muito concentrada e fez um excelente trabalho, mas ia-nos dizendo que algumas coisas não batiam certo, como o comprimento da tíbia. Entretanto, chamámos o especialista norte-americano Erik Trinkaus, que veio ver o esqueleto e fazer medições. Umas semanas depois, envia-nos um mail a dizer que certas partes do esqueleto tinham características de neandertal, enquanto outras eram assumidamente modernas..É aí que cai a bomba. Refizemos todas as medições e estavam corretas. Isso só podia significar que, se era simultaneamente neandertal e moderno, tinha existido hibridação entre as duas espécies. Uma miscigenação que estava generalizada na comunidade e que passou de geração em geração durante milénios..Algo que era um sacrilégio afirmar no meio científico. Sim. Até ao início do século XXI, a teoria dominante na paleoantropologia defendia que os neandertais eram uma espécie diferente e que uma eventual hibridação com o homem moderno podia dar descendência, mas que não seria fértil. Um pouco à semelhança do cruzamento de um burro com uma égua, que dá uma mula - mas é um animal que não se reproduz. Esse era o entendimento: a evolução humana tinha-se feito a partir da evolução de diferentes espécies. A última a surgir, com origem na África Orien- tal, expandiu-se pelo mundo e levou as espécies mais antigas à extinção..E a discussão criou clivagens no meio académico. Mas, entretanto, participaste noutras descobertas que vieram confirmar os dados obtidos com a "criança do Lapedo". Sim. Em 2003, uns espeleólogos encontram uma mandíbula humana na caverna romena Pestera cu Oase. E essa mandíbula chegou também às mãos do Erik Trinkaus, que a estudou e mandou datar. Nós fomos chamados para realizar o trabalho de campo e foram encontrados crânios de outros indivíduos - e todos eles apresentavam características mistas, que vieram confirmar a miscigenação..E, mais recentemente, a genética veio trazer a confirmação que faltava. Em 2010, os geneticistas fizeram a sequenciação do genoma e descobriram que nas populações humanas atuais há ainda uma percentagem significativa de genes herdados dos neandertais, que variam entre os 2% e os 4% em cada indivíduo. E que a Humanidade, no seu todo, ainda preserva mais de 50% das características dos nossos antepassados neanderthalensis.. Sabemos hoje, em grande parte graças ao teu trabalho, que os neandertais eram grupos evoluídos. O que, em última análise, não devia ser motivo de admiração, porque até tinham uma capacidade craniana maior do que a nossa... Sim, a cultura neandertal era bastante evoluída. Possuíam linguagem, uma estrutura social idêntica a outras comunidades de caçadores-recoletores, dominavam o fogo e uma indústria lítica rudimentar, construíam abrigos, usavam adornos e possuíam rituais fúnebres. Na verdade, nunca se extinguiram. Misturaram-se com o homem moderno, recém-chegado de África, e foram assimilados - tal como aconteceu aos índios norte-americanos e a muitas tribos indígenas. Os neandertais vivem ainda hoje através de nós..dnot@dn.pt