Saúde, biotecnologia, finanças, media, retalho, transportes, telecomunicações e a promoção de cidades inteligente, estão entre as áreas beneficiárias da inteligência artificial (IA). Para analisar o estado da IA no nosso país, as suas oportunidades, mas também constrangimentos, a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) promoveu o estudo "Oportunidade para a Inteligência Artificial em Portugal" (Artificial Intelligence Pathways and Opportunities, a View from Portugal). O documento, com o apoio da Google, tem coautoria de João Castro, administrador de empresas, doutorado em Sistemas de Engenharia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e Vasco Teles, engenheiro eletrotécnico, do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC).."Concluímos o estudo entendendo que é necessário um diálogo aberto na sociedade sobre IA e também confiantes em que o futuro será necessariamente diferente, para melhor", adiantou ao DN João Castro, também docente na Nova School of Business and Economics..Portugal está a formar com qualidade, tem recursos bem qualificados, embora insuficientes para satisfazer a procura, e encontra-se equipado para explorar a IA, cuja aplicação tem aumentado nos últimos anos..Há, contudo, "o sentimento generalizado de que o que foi feito não é suficiente e o número de pessoas é também ainda escasso", sublinha o investigador...O documento que suporta o estudo abre com uma letra de Bob Dylan, The Times They Are A-Changin". Letra que nos traz a mudança dos tempos. A inteligência artificial [IA] torna esta mudança melhor? Naturalmente Bob Dylan não escreveu sobre IA mas pedimos emprestada uma parte da letra que fala sobre a inevitabilidade da mudança e o entendimento, ou não, sobre o que aí vem. É facilmente plausível uma mudança para pior, mas cabe à sociedade - e o estudo acaba por concluir isso - discutir que futuro quer construir. A sociedade tem a responsabilidade de não permitir a mudança para pior e por isso, como otimista que sou, esta é uma das tecnologias que vão ter impacto para melhor. Há inúmeras oportunidades de aplicarmos bem esta tecnologia para melhorar a vida de todos como sociedade: na saúde, no clima, nas cidades, na agricultura, entre tantas outras áreas..O documento que apresentam refere a dificuldade de definir a IA. No entanto, e para que percebamos o âmbito desta conversa, como apresentaria a IA? A dificuldade está na definição de inteligência. Se "penso, logo existo" é o suficiente, então estamos perante seres inteligentes. IA é a coleção de tecnologias de computação que hoje têm uma capacidade de registar e processar grandes quantidades de informação e que, pela complexidade do que processam e o tempo que levam a fazê-lo, nos parecem inteligentes. Aliados a esta enorme capacidade de computação, certos algoritmos tentam extrair informação dos dados e aprender a partir daí dando a perspetiva de autonomia na aprendizagem..O estudo analisa o estado da IA em Portugal, em particular na academia, mas sem descurar a indústria e as políticas públicas. A que conclusões chegaram? O estudo foi feito em paralelo com outros países, mas não tentou fazer a comparação para poder dizer se estamos melhores ou mais atrasados face a outras geografias. Analisámos a academia e a indústria e em ambos encontrámos uma comunidade e um volume de trabalho apresentado já considerável onde se incluem alguns casos de pioneirismo mundial. Contudo, o sentimento generalizado é que o que foi feito não é suficiente e o número de pessoas é ainda escasso. Ainda há fome para mais..Portugal tem uma estratégia nacional para a IA? Existe um trabalho efetuado e atualizado periodicamente intitulado "AI Portugal 2030" que pretende apontar a estratégia de desenvolvimento e aplicação da IA para a próxima década. O governo tem em funções uma Secretaria de Estado dedicada a todo o contexto de transformação digital onde a IA não tem sido descurada..Apoia a opinião de que a Europa está a perder terreno no que toca à IA? Isto também considerando a fragmentação em matéria de políticas tomadas pelos diferentes países europeus? Não necessariamente a perder terreno, mas a seguir o caminho que escolhe e faz seu. Isto foi-nos transmitido por várias das pessoas com quem falámos e por isso entendemos que há um caminho europeu, mais cauteloso e cioso dos valores que quer para a sociedade em comparação com outros caminhos alternativos, mais abertos a uma exploração comercial com menos regras ou uma utilização mais orientada para a regulação da sociedade. Por outro lado, a fragmentação não tem necessariamente de ser negativa, pois cada Estado membro da União Europeia tem os seus próprios contextos de inovação, desafios e necessidades da economia e da sociedade, naturalmente diversos de outros Estados membros. Deverá haver naturalmente linhas comuns a nível europeu - e elas existem, por exemplo para a investigação, o desenvolvimento e a inovação dentro do Programa Europa Digital - com as quais se promove uma coerência neste contexto..A IA com assinatura portuguesa está a assumir posições de destaque no mercado mundial? A IA está a ser empreendida um pouco por todo o lado com diferentes níveis de impacto. Listamos no estudo vários centros de investigação e empresas em Portugal com um papel ativo e vemos empresas a adotar a tecnologia. Para além de publicações científicas de investigadores portugueses afiliados a centros de conhecimento portugueses, há também diversas empresas de base tecnológica a atuar a nível global há já vários anos que utilizam IA como plataforma para a sua oferta de produto e serviço, conforme nomeamos não exaustivamente no estudo. Finalmente, há portugueses espalhados pelo mundo a trabalhar nalguns dos melhores centros de investigação e outras empresas de impacto mundial..A pequena dimensão do nosso país traz entraves ao desenvolvimento da IA? A dimensão não é o fator mais determinante. Para desenvolver e explorar as aplicações possíveis da IA neste momento é preciso sobretudo pessoas qualificadas. Portugal está a formá-las com qualidade, mas ainda em quantidade insuficiente para satisfazer a procura, tanto cá como lá fora. Sendo bons, naturalmente são atraídos pelos projetos mais interessantes e aí também Portugal tem desenvolvido trabalho. Alguns dos projetos mais interessantes em Portugal são de pequenas startups mas vimos também grandes empresas de retalho a explorar no terreno o que é ou não possível fazer já hoje ou num futuro próximo com esta tecnologia. O lado negativo da pequena dimensão portuguesa tem essencialmente que ver com o seu mercado interno, onde não é possível testar e demonstrar em grande escala a aplicação da tecnologia nos produtos e serviços que as empresas desenvolvem para depois atingirem escalas globais. As empresas têm de nascer globais por necessidade. Por outro lado, a dimensão relativamente reduzida do território tem a vantagem de produzir redes de conhecimento mais próximas e com isso colaborações relevantes entre os vários atores de inovação [empresas, institutos, universidades, entre outros]..Há debate no nosso país em torno da IA ou estamos a deixar o futuro acontecer sem intervir? Essa é uma das conclusões do estudo e refletida por várias das pessoas que entrevistámos. O debate existe, mas para os envolvidos é ainda insuficiente e feito num circuito curto de pessoas e organizações que, dado o potencial de impacto e oportunidades, é uma limitação, já que a discussão exige a participação multidisciplinar e a todos os níveis. Há iniciativas que procuram promover esse debate mais alargado, como é o caso deste estudo, e outras mais estruturantes e públicas, como é o caso da estratégia de IA Portugal 2030..O estudo identifica áreas estratégicas para desenvolvimento e aplicação da IA no nosso país. Sucintamente, que áreas são estas? São as principais áreas para o desenvolvimento da sociedade e da economia do país: Saúde, sustentabilidade ligada ao ambiente e à transformação urbana, biodiversidade (economia verde - floresta e economia azul - mar), mobilidade, indústria..Há uma área que parece destacar-se, a da saúde. Em concreto que aplicações aqui encontramos? A IA tenta abordar grandes desafios na área da saúde como diagnóstico, cirurgia, reconstrução ou tratamento de diversos tipos de cancro, mas também outras doenças como Parkinson, diabetes ou doenças renais. Uma área transversal a estas doenças é, por exemplo, a imagiologia, em que a IA apoia na análise de imagem e diagnóstico tornando-se mais um instrumento a que as equipas médicas têm acesso para suportar a sua prática..Há uma expressão interessante no estudo relacionada com a indústria do retalho. A IA tornou-se parte da corrida armamentista do retalho. Uma corrida na conquista de mercado e de consumidores? É uma indústria que já tinha uma tradição de trabalhar os dados e a concorrência feroz. A IA é uma ferramenta para trabalhar mais dados, com maior rapidez e mais profundidade, sendo possível a obtenção de resultados mais segmentados por produto, fornecedor e consumidor. Permite otimizar processos e logística, bem como evitar ruturas nos abastecimentos ou utilização de bens perecíveis dentro dos prazos previstos. Permite ajustar a oferta ao que o consumidor procura e com isto melhorar a experiência do cliente..Também referem indústrias conservadoras, como a banca. O que concorre para o receio na implementação de práticas apoiadas na IA? O que nos transmitiram foi sobretudo que a cultura deste setor, bem como a dos seguros, leva a uma grande atenção para com a regulação e entender em que medida e em que situações vai ser ou não possível recorrer a esta tecnologia. Isto acontece na banca mais tradicional, de retalho. Há, porém, algumas aplicações ou nichos de mercado na banca que são mais abertos à implementação de inovação, como no investimento ou no risco, em que novos players se distinguem por aplicar estas tecnologias para otimizar as análises do volume de dados, conseguindo diferenciar a sua oferta..Foi anunciado que Portugal vai, no âmbito da presidência portuguesa da União Europeia, apostar na adoção da primeira lei comunitária sobre inteligência artificial. Em síntese, o que pode significar a aplicação desta lei? Ser a primeira lei é apenas cosmético, mas a extensão da filosofia do RGPD para outras áreas de aplicação reforça como a Europa olha para esta questão. Parece-me que o espírito é transpor para esta lei os valores europeus, de ética e de privacidade, por exemplo, como linhas orientadoras para uma visão e uma fronteira comuns para o desenvolvimento e a aplicação desta tecnologia..Quando iniciaram este trabalho estariam longe de imaginar o impacto da covid-19. Como reagiram as empresas ao antes e ao depois imposto pela pandemia? O estudo foi planeado há um ano, antes de ser declarada a pandemia. Vimos o primeiro impacto logo na nossa organização do estudo quando as pessoas e empresas deixaram de estar disponíveis para falarem connosco por estarem a tentar reorganizar ou salvar negócios e vidas. Nas entrevistas que conseguimos depois concretizar não foi referido explicitamente o impacto da pandemia, mas saiu reforçado em vários exemplos como a tecnologia digital amadureceu e as organizações mais ágeis conseguiram ajustar-se. A pandemia trouxe um impacto profundo à forma como as pessoas se relacionam e como conseguem organizar o seu trabalho. A pandemia provocou a experimentação de um cenário há muito proposto, mas raramente posto em prática, e se, por um lado, se desespera pelo controlo e o fim da pandemia e a partir daí o regresso à normalidade anterior, alguns desses hábitos antigos já são história. Concluímos o estudo entendendo que é necessário um diálogo aberto na sociedade sobre IA e também confiantes em que o futuro será necessariamente diferente, para melhor.