Existem no mundo moderno poucas sociedades matriarcais, ou seja, sociedades nas quais o papel de liderança é exercido pela mulher. Com efeito, os homens têm vindo a reclamar esse protagonismo, em comunidades sociologicamente organizadas em torno de uma certa predominância masculina em papéis de decisão e poder político-económico..À mulher têm cabido predominantemente tarefas como o cuidado da casa, dos filhos e da família, igualmente meritórias, mas que têm vindo a contribuir para uma sua catalogação de submissão, passividade e dependência financeira, em que a própria, não raras vezes, não se revê. Esta "fragilização do género" sugere-nos um sem-número de outras considerações que, a meu ver, terão uma génese que vai muito para além das diferenças físicas, e nos remetem para um caminho perigoso de desigualdade de escolhas e de oportunidades..Historicamente, há quem relacione este "estado das coisas" com o peso do pecado original, carregado pela mulher, numa espécie de "castigo" por ter provado a maçã e tê-la oferecido a Adão. Ora, à parte estas (também importantes) considerações religiosas - é inegável que o papel da mulher tem sido, de alguma forma, reflexo de um posicionamento da Igreja Católica sobre o mesmo - a verdade é que, nas últimas décadas, temos vindo a assistir a uma mudança, ainda que lenta, deste paradigma, com a mulher a adquirir novas dimensões nas sociedades atuais..O final do século XIX e o início do século XX assistiram a conquistas tão importantes como a massificação da entrada no mercado de trabalho, o acesso à educação formal (que não a educação que preparava a mulher para o seu papel de cuidadora, de esposa e de mãe) e o direito ao voto e a ser eleita, entre outros eventos que vieram mudar a forma como as sociedades hoje se organizam, bem como as nossas perspetivas de futuro enquanto mulheres..Não nos deslumbremos, no entanto, com aquilo que conseguimos já atingir e que os resultados não nos abrandem o ritmo: apesar dos enormes avanços, as diferenças continuam evidentes e evidenciadas. Existem estudos que confirmam que o risco de pobreza das mulheres é superior ao dos homens. Em muitas comunidades modernas e desenvolvidas, as mulheres continuam a não ser respeitadas no local de trabalho na sua condição de mães, por exemplo, e/ou continuam a auferir salários mais baixos pelas mesmas funções laborais..Outra importante dimensão da desigualdade de género estará certamente relacionada com a liberdade sexual... ou a falta dela. É relativamente recente a "revolução sexual" a que temos tido o privilégio - e falo sobretudo enquanto mulher com liberdade de escolha - de assistir nos últimos pouco mais de 50 anos. Hoje, muitas de nós têm o direito de escolher quando/se desejam ser mães. A importância de nos ser dado acesso a essa decisão é clara e a contraceção tem sido comummente aceite como um dos principais motores da emancipação das mulheres..A par da contraceção, o desenvolvimento de uma medicina mais atenta às diferenças de género tem fomentado um olhar mais próximo sobre a saúde da mulher, promovendo cada vez mais a introdução desta abordagem diferenciadora e que garante à mulher mais e melhor acesso a cuidados de saúde..Sem surpresa, continua a existir um enorme caminho a percorrer, no que respeita à igualdade de género em todas as suas dimensões, que não apenas a socioeconómica ou a da saúde..Certamente não seremos todas uma espécie de Joana d"Arc dos novos tempos, mas enquanto mulheres sejamos, sim, agentes da mudança e estejamos à altura daquele que deverá ser um desafio não das mulheres, não uma luta de género, mas uma luta pela igualdade entre as pessoas naquilo em que são iguais, e uma luta pelo direito à sua individualidade e direito de escolha, naquilo em que são diferentes..Market access, payor accounts and policy lead, Organon Portugal