JMJ pode ser lição de "união pela fé" e "liberdade religiosa" para o mundo

Na próxima semana, Portugal recebe pela primeira vez um evento com a dimensão que tem uma Jornada Mundial da Juventude - espera-se um milhão de pessoas vindas de todo o mundo. Mas a pergunta subjacente, à partida, é se este encontro é só da religião Católica. Representantes de seis religiões no nosso país dizem que não. Acreditam mesmo que o impacto extravasa para a "união por Deus", para a "tolerância" e para a "Paz", podendo ser uma "porta para a liberdade religiosa".
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Os jovens que vão participar na Jornada Mundial da Juventude (JMJ 2023) vão visitar lugares de culto de outras confissões religiosas. O objetivo, segundo a organização, é promover "o diálogo entre crentes". Do roteiro, de entre outros, fazem parte a mesquita de Lisboa, a sinagoga e o templo hindu.

A poucos dias do início do evento, dia 1 de agosto, o DN quis saber qual é a visão que algumas das confissões com maior representatividade no nosso país têm deste encontro, inclusive os católicos, que impacto pode ter a nível de liberdade religiosa religiosa, que mensagem gostariam de ver sair de Lisboa e se, de facto, o discurso universal do Papa Francisco tem tido algum efeito na mudança pela união na fé.

O desafio foi lançado a Khalid Jamal, da comunidade islâmica, a João Paiva, do lado dos católicos, a Miriam Assor, pelos judeus, a Chirague Bhanji, pela comunidade Hindu, a Alexandre Bonito, ortodoxo na jurisdição da Arquidiocese de Igrejas Ortodoxas de Tradição Russa na Europa Ocidental, e a Timóteo Cavaco, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa.

Todos o aceitaram, respondendo às perguntas do DN, porque, resumidamente, um evento destes é, de facto, "de todas as religiões". Um encontro que é pela "união por Deus", pela "fé", pela "tolerância", pela "paz" e que pode ser "mais uma porta entreaberta para a liberdade religiosa". As perguntas do DN iam, em primeiro lugar, para a visão que cada um dos elementos tinha da organização deste evento, como país e crentes, que mensagem gostariam que saísse deste encontro, se, de facto, este terá impacto na liberdade religiosa e se o papel do Papa Francisco e o seu discurso universal tem feito a diferença na mudança. As respostas aqui ficam.

Khalid Sacoor Jamal, nasceu e cresceu em Portugal, mas pratica a religião muçulmana. Hoje é Sénior Adviser da comunidade islâmica, uma das maiores no nosso país - onde já existe há mais de 55 anos, desde março de 1968 - com mais de 100 mil fiéis. Defensor do diálogo inter-religioso, censurando os extremismos Khalid Jamal diz ao DN que, na sua condição de português e de crente, a JMJ 2023 "é uma excelente oportunidade para que muitos conheçam o país maravilhoso e acolhedor que temos e que possam expressar esta partilha de fé através do nosso país - à beira mar plantado e que é um dos mais seguros do mundo, como há dias nos foi dito, através de um estudo - e com uma juventude muito espiritual".

Sobre a mensagem que gostaria de ver neste evento, diz: "Honestamente, uma juventude interessada e participativa - ao contrário do que se possa dizer - que acredita e luta para perseguir os seus sonhos, alicerçada num Deus, mas também na fraternidade como forma de alcançar os seus objetivos, por maiores desafios que existem, não se deixando deprimir."

Khalid Jamal, tal como João Paiva, católico, e Miriam Assor, judia, são protagonistas do programa religioso semanal da TSF, "Meu Deus, que Mundo", e tal como os restantes também defende que o evento terá certamente impacto em termos de liberdade religiosa. Sobretudo "se conseguirmos demonstrar ao mundo que o clima de liberdade religiosa é pleno por aqui, e que há genuinamente uma afetividade entre os líderes religiosos e que essa empatia contribui para o diálogo".

Nas respostas enviadas ao DN, o representante da comunidade islâmica, explica ainda: "É evidente que existe uma lei da liberdade religiosa que possibilita tal, mas gostaria de realçar que, para além da genialidade de quem a desenhou, o espírito do povo português, que esta lei é uma materialização da nossa atitude, e podia nem sequer ser seguida, mas é-o, com muito afinco, e a liberdade que ela incorpora, permite o diálogo, próprio e verdadeiro, sem artifícios, que é absolutamente indispensável ao entendimento e união entre os povos".

Em relação ao discurso universal de Francisco e ao seu papel, concorda que "este Papa foi repescar um ideal e um conjunto de gestos simbólicos que a meu ver já haviam sido de alguma forma iniciados pelo Papa João Paulo II, especialmente na abertura ao diálogo com outras fés, em particular o Islão - não nos esqueçamos da Declaração sobre a Fraternidade humana, assinada em Abu Dhabi (primeira vez que um Papa pisou a península arábica, outrora dita península do golfo pérsico em 2000 anos), mas também na criação de um diálogo menos elevado e intelectual, e portanto mais inteligível a um universo genérico, inclusive os não crentes".

Mas não só. Khalid Jamal dá como exemplo a resposta que o Papa deu a uma pergunta de um jornalista sobre a comunidade LGBT, "ele disse que não é ninguém para julgar", o que não significa que subscreva este modus vivendi, mas teve a prudente, sábia e louvável postura dum crente, porque é a Deus que compete julgar os atos dos humanos e a nenhum de nós, e tal conduta é admirável e construtora de pontes e faz com que as pessoas olhem novamente para a igreja e para a religião com um outro olhar, menos julgador e despido de pré-conceitos".

João Paiva, professor universitário na área das ciências químicas, há muito que se interessa por cruzar a ciência com a literatura e a religião, assume-se como católico Romano, esclarecendo, à partida, que, por tal, poderá ter "um olhar algo "suspeito"" sobe a JMJ 2023, confessando que vê "com muito bons olhos a iniciativa"

. "Foi inaugurada em papado anterior, mas tem-lhe sido dado sequência com bastante êxito, em todas as partes do mundo", destacando que pode ser "um encontro que parte da Igreja Católica Romana, mas que ultrapassa o fenómeno religioso, congregando jovens de todo o mundo com algum potencial de unidade humanista."

Por isto mesmo, gostaria que neste encontro "o cristianismo pudesse reapresentar-se como uma possibilidade de resposta às sedes espirituais que permanecem, sobretudo junto dos mais jovens. Mas a verdade é que, e para a mensagem ser genuinamente católica, terá necessariamente que ser, por inerência, bastante ecuménica e inter-religiosa". Acredita que terá um impacto na liberdade religiosa. Tanto mais porque, "é aberta e inclui alguns eventos de cariz inter-religioso", mas sobretudo "porque o lastro mais radical (com boas raízes...) do cristianismo é uma porta para as aspirações humanas da liberdade. Na Igreja Católica nem sempre se viveu bem esta dimensão da liberdade, interior e exterior, mas é algo fulcral no cristianismo, sendo porta de liberdade, entreabre também as portas da liberdade religiosa...".

Olhando para o pontificado de Francisco, João Paiva não tem dúvidas que dos seus "encontros ecuménicos e inter-religiosos transparecem autenticidade e boa vontade e isso mesmo vai alastrando", especificando: "Alguns dos tópicos da mensagem e dos gestos do Papa, como os da paz, os da solidariedade e os da ecologia, são genuinamente universais e atrativos. Potenciam aberturas de diálogo". E é esse "diálogo livre, que, de alguma forma, praticamos no programa "Meu Deus, que mundo".

Miriam Assor, judia nascida em Lisboa, viveu a juventude num Kibutz, em Israel, licenciou-se em Psicologia e em Comunicação, mas escolheu o jornalismos como profissão, e hoje diz ao DN que "a JMJ oferece uma oportunidade significativa para o país anfitrião, pelo facto de trazer um grande número de jovens de todo o mundo, e pelo impacto positivo na economia, no turismo e na promoção do país no cenário internacional", justificando: "Além do evento em si, é importante considerar o impacto duradouro que pode ter", bem como o seu "legado espiritual, social e cultural, como o fortalecimento da fé e o envolvimento dos jovens em causas sociais".

Ou seja, "a JMJ em Portugal representa uma oportunidade única para o país acolher jovens católicos de todo o mundo, compartilhar sua cultura, valores e tradições com as demais religiões, e fortalecer a conexão entre a Igreja Católica e todas as comunidades religiosas e culturais".

Autora de várias obras, como "Aristides de Sousa Mendes - Um Justo Contra a Corrente,"Judeus Ilustres de Portugal" e "Viagem aos Segredos da Maçonaria", Miriam Assor é da opinião que o evento deve transmitir uma mensagem que foque "a importância de trabalharmos juntos para construir um mundo mais justo e pacífico".

Só por si, o evento "valoriza o Judaísmo, a importância de respeitar as diferentes tradições e crenças dos outros participantes, promovendo a coexistência pacífica e o diálogo inter-religioso. Por conseguinte, a mensagem ideal reúne condições para realçar a importância de cultivar a tolerância e a compreensão em relação aos outros, não importa, naturalmente quem seja o outro, superando preconceitos e estereótipos religiosos". E neste aspeto Miriam Assor destaca que "o judaísmo tem uma longa história de luta pela justiça social e pela promoção da paz".

A representante da comunidade judaica acredita que o evento é "oportunidade para promover o diálogo e a compreensão mútua entre jovens de diferentes horizontes religiosos, incentivando a tolerância e estimulando a discussão sobre a importância de garantir esse direito fundamental em todo o mundo".

Mas tem outro impacto positivo: "A visibilidade e solidariedade. A presença de jovens de várias religiões chama a atenção para situações de perseguição religiosa ou discriminação, em certos países, e conduz a uma maior solidariedade", concluindo: "É fundamental que todos os esforços sejam feitos para garantir que a liberdade religiosa e os direitos humanos sejam respeitados e protegidos durante a realização da JMJ."

Sobre o Papa Francisco, Miriam Assor sublinha a importância que tem dado em "superar-se preconceitos e estereótipos, para se edificar um mundo mais justo e solidário", embora reconheça que "o efeito de mudança das mensagens do Papa e os seus apelos aos líderes religiosos é complexo e varia de acordo com o contexto e a recetividade em diferentes lugares do mapa".

Mas considera que "as suas posições sobre questões como paz, justiça social e meio ambiente já chamaram mais a atenção de líderes políticos e, no passado, tiveram maior influência na política. Este seu comportamento, de mostrar sinceramente uma imagem mais inclusiva e compassiva da Igreja Católica, atrai pessoas que antes se sentiam distantes da instituição religiosa, e em contrapartida, afasta os ditos ortodoxos católicos".

O Padre Alexandre Bonito, primaz da Missão Ortodoxa, na jurisdição da Arquidiocese de Igrejas Ortodoxas de Tradição Russa na Europa Ocidental, diz ao DN que a realização da JMJ "é um momento forte de evangelização do mundo juvenil católico, um grande evento espiritual, uma inspiração para todos os cristãos".

Alexandre Bonito, que começou a estudar em Paris junto da comunidade ortodoxa russa a Iconografia, (pintura e teologia), entre 1969 e 1971, espera que deste evento saia "uma mensagem de paz para a Europa, e melhor colaboração futura entre igrejas na defesa dos valores cristãos no seio da Comunidade Europeia em relação aos assuntos religiosos".

Fundador de uma das comunidades ortodoxas em Lisboa, em 1975, juntamente com Henrique Pinto Rocha, considera também que o encontro terá "seguramente um grande impacto religioso, para o mundo católico e também impacto positivo em relação a liberdade religiosa, a nossa comunidade ortodoxa segue com grande interesse este evento, estando prevista a participação de muitos jovens ortodoxos vindos de vários países de tradição ortodoxa".

Sobre o Papa Francisco diz que o seu "discurso junto de líderes religiosos, tem demonstrado coragem com uma agenda de constante envolvimento, num grande esforço para criar pontes nos assuntos inter-religiosos".

Para Chirague Bhanji, vice-presidente da comunidade Hindu em Portugal, a realização de "um evento destes é sinónimo de que o país é reconhecido positivamente e naturalmente sentimo-nos orgulhosos por isso".

"É um evento de grande magnitude, em que as diversas entidades nacionais terão de estar preparadas e dar o seu melhor. Ao aceitarmos esse desafio também demonstra que trabalhamos em conjunto com todas as nações em prol de uma mensagem de valores fundamentais para os jovens", desejando que "a mensagem primordial seja, acima de tudo, a de que o ser humano é um ser de fé, deve ser um instrumento para a paz, e a religião, independentemente de qual seja, traça o caminho para essa missão que é a de todos".

O representante da comunidade Hindu diz acreditar que "a JMJ fomentará o respeito e tolerância, bases da liberdade religiosa", porque na base da sua organização está este intuito, "reunir jovens de todo o mundo, os futuros adultos que irão tomar decisões, para lhes dar a conhecer toda a riqueza da diversidade ao seu redor, numa mensagem de união por Deus".

Sobre o Papa Francisco, destaca que "tem sido desde sempre extremamente ativo no apelo para a mudança de mentalidades e o seu trabalho é inspirador". No entanto, "há que entender que a mudança em si com certeza terá de vir de todos nós, da consciência de cada um, mas a existência de uma personalidade que representa um exemplo em vida do Bem, do Amor, da Paz, será sempre um importante contributo no cultivo disso mesmo e deverá ser sempre reconhecida com gratidão".

Na resposta ao DN, Timóteo Cavaco, presidente da Aliança Evangélica Portuguesa, assume que, "dada a natureza e a dimensão de uma iniciativa como esta, é um tremendo desafio para o país acolher a edição de 2023", fazendo notar que, apenas com exceção da última JMJ, que se realizou no Panamá, "têm sido sempre países de grande dimensão e com maiores recursos a acolher a sua organização. Esta é, pois, uma oportunidade única para Portugal mais uma vez demonstrar que sabe e gosta de acolher bem todos aqueles que nos visitam".

O presidente da Aliança Evangélica, um apaixonado pela Química, área em que se formou na Universidade de Coimbra, e pela religião, tendo estudado Teologia em Portugal e nos EUA, afirma ainda que, e sobre a mensagem que gostaria que surgisse desta JMJ: "Fruto de processos sociais designados por secularização ou laicização, ao longo dos últimos séculos, em particular no mundo ocidental, tem havido uma tentativa, felizmente nem sempre conseguida, de "atirar" o fenómeno religioso para a esfera privada, procurando torná-lo invisível, muitas vezes quase que o relegando para uma espécie de clandestinidade social. Ora um acontecimento como a JMJ, tão público e percetível, desde logo pela quantidade única de jovens que congrega, é uma demonstração clara da importância que a fé tem na vida do crente".

Timóteo Cavaco acredita que o evento terá impacto na liberdade religiosa, já que este "é um direito fundamental que assiste a todos os cidadãos de qualquer Estado livre e democrático, pelo que os crentes devem poder manifestar publicamente as suas convicções religiosas, desde que o façam em paz e numa atitude de pleno respeito pelas outras religiões e convicções, e mesmo por aqueles que não professam nenhuma religião".

Sobre o Papa Francisco o líder da Aliança Evangélica considera que "qualquer líder religioso, à escala local, nacional ou global, tem a responsabilidade de apelar e participar ativamente na construção de uma sociedade mais fraterna, em que todos possam ter oportunidade de aceder aos direitos mais fundamentais, começando desde logo pela garantia e preservação da vida humana, à educação, à habitação digna, ao emprego. Qualquer processo de transformação social é paulatino, mas tendo em conta que mais de 80% da população mundial afirma pertencer a um determinado grupo religioso, certamente que os crentes têm uma palavra muito importante a dizer na construção de um mundo melhor".

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