Jill Biden em Lisboa: "A arte pode unir-nos nas nossas diferenças"
"Arte é ligação", começou por lembrar Jill Biden. Numa curta passagem por Lisboa de regresso de uma visita a África, a primeira-dama dos EUA sublinhou como "num mundo que nos pede que corramos de momento em momento, de reunião em reunião, a arte faz-nos parar. Alimenta o nosso espírito quando ansiamos por algo mais. Mostra os contornos das nossas alegrias e tristezas, para que saibamos que não estamos sozinhos. E mesmo quando é fácil ficarmos presos nas nossas diferenças, a arte pode unir-nos." E nisso, tem um paralelo com a diplomacia: "Ligação é também do que trata a diplomacia. Ora há 60 anos o Departamento de Estado reconheceu o poder diplomático da arte, distribuindo obras por embaixadas por todo o mundo."
Foi precisamente para lançar as celebrações do programa Art in Embassies, criado pelo presidente John Kennedy em 1963, que Jill Biden esteve na Universidade Católica. O convite partiu da embaixadora Randi Charno Levine a quem agradeceu, dizendo: "a coleção que criaste é uma celebração da beleza complexa e rica da América."
Citando o presidente Joe Biden, a primeira-dama dos EUA explicou ainda que "a diplomacia não é só uma relação governo a governo, é pessoa a pessoa, como diz sempre o meu marido, é coração a coração. E quando os visitantes percebem isso há tanto que pode nascer daquilo que nos une."
Num discurso de pouco mais de cinco minutos, Jill Biden não resistiu a deixar a professora que há nela vir ao de cima, ao lançar um "onde estão os estudantes na audiência?" E arrancou palmas à plateia, que esperara duas horas pela sua chegada, ao desafiar os artistas presentes a levantarem-se.
Jill Biden foi introduzida pela embaixadora Levine, que sublinhou a importância dada à educação, "pedra de toque da democracia", pela primeira-dama. Ou não tivesse a doutora Biden, como é tratada, decidido continuar a dar aulas mesmo depois da eleição do marido, tornando-se na primeira primeira-dama a manter o emprego na Casa Branca. E contou como já várias vezes a viu encontrar tempo no meio da sua agenda para corrigir os testes dos alunos. Antes da embaixadora falou Isabel Capeloa Gil. A reitora da Católica abordou os valores da educação, da arte e da diplomacia, destacando a presença de Jill Biden em Portugal também como "um gesto de amizade transatlântica".
Esta não foi a primeira visita de Jill Biden a Portugal. Em julho de 2016, quando era "segunda dama", já passara pela capital portuguesa durante umas horas. "Foi um prazer parar em Lisboa a caminho de África", disse então, sublinhando ter tido "a oportunidade de ver a cidade e de visitar a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos". Na altura, a mulher do então vice-presidente foi recebida pelo embaixador Robert Sherman que saudou a passagem da doutora Biden, título que a professora usa até na sua conta do Twitter, por Portugal, onde teve "oportunidade de ver partes da cidade, de experimentar o excelente vinho e de experienciar a beleza da cidade e o calor e hospitalidade do povo português".
Portugal acabara de ganhar o Europeu de futebol - com Sherman a revelar-se um adepto fervoroso da seleção, ganhando o coração dos portugueses com os seus vídeos de apoio - e Jill Biden posou ao lado do embaixador segurando a camisola assinada por todos os jogadores que lhe fora oferecida. O próprio recordou o momento em 2021, um dia após a posse de Joe Biden, ao republicar a foto com a agora primeira-dama. "A doutora Biden tinha ouvido dizer muitas coisas boas sobre Portugal e estava ansiosa por visitar o país", recordou Sherman ao DN. E explicou como a mulher do então vice-presidente se mostrou "muito interessada nos portugueses" até porque "sabia pela sua experiência nos EUA como o sucesso desportivo pode elevar um país inteiro".
E já nessa visita, Jill Biden puxava dos galões de professora, garantindo que "ensinar não é o que faço. É o que sou." Mesmo se tem de equilibrar as aulas com o trabalho em prol de causas como o apoio a veteranos ou a vítimas de cancro.
Foi nos anos 1970 que Jill Biden entrou na carreira académica. E ao longo de cinco décadas, fez dois mestrados e um doutoramento em Ciências da Educação, o que a torna numa das primeiras-damas com maior formação académica.
Nascida Jill Jacobs, em Hammonton, New Jersey, em 1951, foi na universidade do Delaware, onde estudava, que conheceu Joe Biden. Anos mais tarde, numa entrevista à Vogue, Jill recordou esse primeiro encontro. "Eu era finalista, namorava rapazes de calças de ganga e T-shirt. Ele bateu à porta com o seu casaco desportivo e os seus mocassins e eu pensei: "Meu Deus, isto nunca vai funcionar." Ele tinha mais nove anos do que eu! Mas acertámos... No final, subi as escadas, liguei à minha mãe à uma da manhã e disse: "Mãe, finalmente conheci um cavalheiro.""
Mas se ficou rendida ao charme do jovem senador, foram precisos cinco pedidos de casamento e um ultimato para a jovem divorciada (casara aos 19 anos) aceitar tornar-se na segunda senhora Biden. Apesar da excelente relação com os filhos de Joe, os pequenos Beau e Hunter, sentiu o peso de passar a ser a figura materna para uns meninos que tinham perdido a mãe e a irmã bebé num acidente de carro nas vésperas do Natal de 1972.
O casamento deu-se mesmo em 1977 e em 1981 nascia Ashley, a única filha em comum que esteve ontem na audiência na Católica. Enquanto Joe seguia a ascensão política e Jill a carreira académica, a tragédia, essa, continuou por perto. Em 2008, Barack Obama escolhia o senador do Delaware para vice-presidente, mas a morte voltaria a bater à porta dos Biden em 2015. Aos 46 anos, Beau Biden não resistia a um cancro no cérebro. Deixava mulher e dois filhos.
Apesar dos apelos do filho antes de morrer, Joe decidiu não avançar como candidato às presidenciais de 2016. Fá-lo-ia quatro anos depois, contra Donald Trump e vencia. Ao seu lado, esteve sempre Jill. Como estará agora que o presidente vai disputar um segundo mandato nas presidenciais de 2024.
Ontem na Católica a política ficou de fora. Mas antes de abandonar o auditório sob uma salva de palmas e o olhar vigilante dos agentes do Secret Service, a primeira dama ainda deixou uma palavra de agradecimento aos que trabalham - cada um à sua maneira - pela democracia: "A cada diplomata que trabalha por um futuro melhor, a cada pintor, cada cantor, cada escultor, que tem a felicidade de ver as cores escondidas à volta do mundo, obrigada!"
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