Jerónimo de Sousa passa o testemunho: outra geração, a mesma luta

Após 18 anos na liderança dos comunistas, Jerónimo de Sousa anunciou que deixa o cargo por razões de saúde. Segue-se Paulo Raimundo, um dirigente de 46 anos que representa uma rutura geracional, mas é uma aposta na continuidade.
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Promete ser uma transição na continuidade. Ao fim de 18 anos na liderança do PCP, Jerónimo de Sousa invoca razões de saúde para deixar a liderança dos comunistas, deixando o cargo de secretário-geral entregue a Paulo Raimundo (nome aprovado no sábado pelo Comité Central do partido e que deverá ser ratificado no próximo fim de semana). Com um perfil próximo de Jerónimo, também operário na origem e um já longo percurso como funcionário do partido, o currículo do novo líder comunista traz como principal marca distintiva a idade: com 46 anos, nascido já depois do 25 de Abril, entrou no PCP em 1991, no mesmo ano em que a União Soviética desaparecia do mapa. Uma rutura geracional, mas sem alterações de caminho.

Dando nova prova de que é imune a lógicas mediáticas - que há muito apontavam ao ex-líder parlamentar João Oliveira ou ao vereador em Lisboa João Ferreira -, o PCP aposta assim num quase desconhecido do grande público. No PCP "a notoriedade não é um critério", diz ao DN Bernardino Soares, antigo líder parlamentar e membro do Comité Central do partido, sublinhando que esse é um trabalho a fazer agora. Do futuro líder destaca "um homem com muita experiência, que já desempenhou várias funções no partido, e com características humanas muito destacadas". Se a descrição parece decalcada do atual secretário-geral poderá não ser uma coincidência, mas não é uma construção: "Não é uma encenação para fazer uma correspondência com o Jerónimo de Sousa. Corresponde ao que o Paulo [Raimundo] é".

Foi o próprio Jerónimo de Sousa (que já tinha garantido que tomaria parte na escolha do seu sucessor) que na manhã deste domingo, numa conferência de imprensa com algumas revelações pouco usuais sobre as reuniões internas do partido, afirmou que o nome de Paulo Raimundo - proposto pelo Secretariado e pela Comissão Política - causou "alguma surpresa no Comité Central". E, se acabou por reunir uma "ampla convergência", não teve apoio unânime: "Quero dizer que houve uma ampla convergência, não quero dizer unanimidade porque o rigor dos números nesta matéria é importante, mas uma ampla convergência em relação à solução". Ultrapassada a surpresa, revelou Jerónimo de Sousa ontem, naquela que terá sido a derradeira conferência de imprensa como secretário-geral do partido, a sua saída e o nome do novo líder foram "aplaudidos de pé durante quatro minutos" na reunião do Comité Central.

Para Pedro Tadeu, jornalista e militante comunista, os sinais já lá estavam. Paulo Raimundo foi o nome mais recente a integrar os dois órgãos executivos de cúpula do partido (secretariado e comissão executiva), numa presença cumulativa que só é repetida por cinco dirigentes - além do próprio Raimundo e de Jerónimo de Sousa, é o caso também de Francisco Lopes, Jorge Cordeiro e José Capucho, todos já na casa dos 60 anos. E este terá sido um fator determinante, o que o próprio Jerónimo de Sousa deixou antever, ao sublinhar que o futuro secretário-geral "pertence a uma nova geração que só prestigia e garante ao partido o seu próprio futuro".

Que desafios enfrenta Paulo Raimundo como secretário-geral do PCP? O mais evidente é o desafio eleitoral, depois de uma sucessão de eleições em que o partido tem decaído progressivamente, uma quebra que teve expressão maior nas legislativas do início do ano, que deixaram os comunistas com a bancada parlamentar mais exígua de sempre, contando apenas seis deputados. Mas o novo líder terá tempo para preparar-se para os embates eleitorais, atendendo a que o escrutínio mais próximo são as europeias de 2024, seguidos pelas autárquicas em 2025 e pelas legislativas em 2026. E até lá? Paulo Raimundo estará "integrado num coletivo partidário que deve ter um papel destacado na contestação às políticas de direita" do governo de António Costa, que "estão a ser uma desgraça para os portugueses", diz Bernardino Soares. Ou seja, manter a luta de sempre do PCP.

Para Pedro Tadeu, uma das primeiras e principais tarefas de Paulo Raimundo passará por "reforçar a organização interna do partido", que se confronta com "duas realidades muito diferentes daquelas que enfrentou no último congresso". Por um lado a pandemia, que "alterou muito a situação no mundo do trabalho, nomeadamente com o teletrabalho"; e a questão da guerra na Ucrânia, que "não muda só Portugal, muda o mundo todo". Será isso, aliás, que explica a conferência nacional que o PCP realiza no Seixal no próximo fim de semana, subordinada aos temas "Tomar a Iniciativa, Reforçar o Partido, Responder às Novas Exigências". Para Pedro Tadeu "há aqui uma tentativa de tocar a rebate e voltar a organizar as forças políticas que o PCP tem, para voltar a ter iniciativa". "A perda de influência na governação e a viragem do PS à direita, por força da quebra da geringonça, exige que o PCP consiga retomar - para ter relevância política independentemente dos resultados eleitorais - uma boa ação nos sindicatos, nas autarquias, naquilo em que é mais forte. Aparecer uma nova figura a liderar, penso que ajudará a que esse retomar da iniciativa seja efetivo", conclui.

Além da liderança do PCP, Jerónimo de Sousa anunciou que vai deixar também o lugar de deputado na Assembleia da República - o que significa que sai agora o único deputado da Assembleia Constituinte que ainda se mantinha no Parlamento. "Não vou continuar como deputado. Naturalmente, há aqui uma alteração qualitativa das minhas capacidades. Tendo em conta a dimensão da nossa bancada... Não se compadece com ausências ou estadias momentâneas", afirmou o ainda líder comunista, que deverá ser substituído por Duarte Alves, economista de 31 anos que já ocupou o assento de deputado na última legislatura.

Em conferência de imprensa na sede do PCP, na manhã deste domingo, Jerónimo de Sousa fez questão de dizer que sai por iniciativa própria, invocando a intervenção cirúrgica à carótida interna esquerda que fez no início deste ano e "sequelas" dessa operação, que "não se compadecem" com o calendário e a exigência das funções de secretário-geral. Na despedida, citou o poeta chileno Pablo Neruda: "Confesso que vivi". "Procurei sempre, mas sempre, fazer o melhor que sabia", afirmou o ainda líder (o nome de Paulo Raimundo será ratificado no próximo fim de semana), definindo-se como "um homem do povo que procura o melhor para o seu povo", e que deixa as responsabilidades que assumiu nos últimos 18 anos de "cabeça erguida".

"Disse "até amanhã" no Comité Central, com a convicção de que vou de consciência tranquila. Saio como entrei, no plano económico e financeiro, independentemente da atribuição desta ou daquela subvenção, que não é para mim", disse Jerónimo. Lembrando que teve "derrotas, vitórias, avanços, recuos", o líder cessante dos comunistas deixou também um agradecimento ao "coletivo partidário" - "As derrotas nunca são de um homem só, as vitórias nunca são de um homem só. Nas horas boas e nas horas más temos sempre este coletivo".

Já sobre o sucessor, garantiu que Paulo Raimundo "está preparado para a responsabilidade". Sobre o facto de o nome ser quase desconhecido do grande público, Jerónimo lembrou o dia, na altura em que tomou posse, há quase duas décadas, em que um homem se dirigiu a ele para criticar um tal de "Germano" que ia assumir a liderança dos comunistas.

Foi no final de 2004 que Jerónimo de Sousa sucedeu a Carlos Carvalhas na liderança do PCP, no início de um trajeto que o transformou num dos líderes partidários com melhor imagem junto dos portugueses (mas que, a julgar pelas sondagens, terá sido afetada nos últimos meses, face à posição do PCP sobre a guerra na Ucrânia). O líder comunista granjeou o respeito também dos opositores, como aliás demonstram as reações à sua saída, que se estenderam da esquerda à direita.

Em termos de prestação eleitoral, o PCP até ganhou novo fôlego sob a liderança de Jerónimo, mas nos últimos anos conheceu alguns dos piores resultados eleitorais da sua história, nomeadamente em legislativas. Mas o nome e o mandato de Jerónimo de Sousa ficarão indissociavelmente ligados à formação da geringonça, o acordo político firmado em 2015 que afastou Pedro Passos Coelho do governo e colocou o PCP na esfera da governação. Ainda ontem, António Costa veio lembrar o papel decisivo de Jerónimo de Sousa no abrir de portas àquela solução - que acabaria formalmente em 2019 e definitivamente, com grande estrondo, em 2021. S.F.

susete.francisco@dn.pt

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