Quinteto de Rava toca hoje, 21.30, no CCB, em Lisboa.Na noite anterior, Enrico Rava tocara em Turim com o pianista Dado Moroni, 23 anos mais novo. No noite antes dessa, a cidade era Roma e o pianista era Stephano Bollani, que leva precisamente metade da sua idade e com quem partilhou um dos dois grandes discos que editou no último ano. Nessa noite, a do dia em que falava ao DN, subiria a palco, novamente em Turim, com Andrea Pozza, outro pianista com menos 26 anos. Hoje chega a Lisboa para um concerto único - 21.30, no Centro Cultural de Belém - com o quinteto que inclui o baterista João Lobo, 27 anos, promessa segura do jazz português. Para a semana, parte para gravar novo disco em Nova Iorque..A agenda de Enrico Rava diz muito: no limite dos 70 anos, há muito entronado no olimpo do jazz, o italiano não pára quieto, cria com uma admirável vitalidade, diverte-se em diferentes formatos, é um eficiente garimpeiro de novos talentos e raramente escolhe tocar com alguém que não tenha nascido pelo menos duas décadas depois dele. .Neste regresso a Portugal, Rava vem embalado pelo notável The Words and the Days, álbum que gravou com o quinteto que toma o seu nome de empréstimo, foi editado em 2007 pela germânica ECM e acabou como uma das escolhas transversais da crítica especializada na eleição dos melhores discos do ano. "Esse será certamente o ponto de partida do espectáculo", garante. "Já o ponto de chegada, é a incógnita do costume: nunca decido um alinhamento antes de entrar em palco.".A grande novidade está mesmo na formação. Com Rava chegam os habituais Gianluca Petrella (trombone), Andrea Pozza (piano) e Rosario Bonaccorso (contrabaixo), mais João Lobo, baterista emprestado da New Generation - o nome diz tudo -, a outra formação que o italiano mantém sob sua direcção, e que é a mais recente descoberta deste especialista a topar talento. ."Não me concentro especialmente a procurar músicos mais novos. A questão é que eu sou tão velho que quando reuno uma formação são todos mais novos", explica Rava entre risos. " Mas é verdade que tendo a sentir-me mais próximo de músicos mais novos. Talvez porque os da minha idade sejam em regra muito presos a um estilo que trabalharam toda a vida. E eu continuo a sentir a mesma abrangência de 360 graus que sentia aos vinte anos. Quando tinha a idade do João.".Desde esse tempo em que se inspirou a ouvir Miles Davis, Armstrong e Chet Baker, Rava cruzou boa parte da história do jazz, entre as viagens com o saxafonista argentino Gato Barbieri nos anos 60 e os experimentalismos com o norte-americano Steve Lacy na década seguinte. Viveu intensamente o free jazz e libertou-se dele para se chegar a uma linguagem própria, que tem tanto de universal como e inconfundível. Porque tudo na sua música deste italiano é conduzido por uma constante preocupação melódica que adocica o seu jazz e o deixa ao alcance de um público mais vasto. "É verdade. Faz parte da minha genética. Sempre me foi muito fácil compor uma melodia. Acho que tem que ver com as minha raiz italiana. E com o meu gosto também: os músicos que realmente amo são muito melódicos, de Miles a João Gilberto.".Exemplo disso é este The Word and the Days, - "o meu melhor álbum de sempre", garante Rava - assim como The Third Man, álbum que editou também em 2007 pela ECM, onde além das composições de ambos se guardam pérolas de terceiros como Retrato em Branco e Preto de Tom Jobim (não digam a ninguém, mas ele prometeu tocá-la esta noite). Na semana que vem, começa a nascer novo álbum em Nova Iorque, com Bollani Paul Motian (bateria), Larry Grenadier (contrabaixo) and Mark Turner (saxofone).