Jan Ullrich paga compensação avultada para encerrar inquérito judicial por fraude

Procuradores de Bona e Jan Ullrich chegaram a um acordo que põe fim a um inquérito judicial, no qual o ex-ciclista era visado por alegada fraude, através de doping, em troca do pagamento de uma compensação avultada, de “seis cifras”, ou seja, mais de um milhão de euros. Ullrich, vencedor da Volta à França em 1997, não teve de se declarar culpado para resolver os seus problemas com a justiça criminal, mas um dos procuradores acredita que o antigo corredor usada substâncias proibidas. Ullrich poderá ainda ser visado por um processo na justiça desportiva e este acordo não impede futuros processos civis.
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O inquérito já durava há 21 meses e nasceu de uma queixa de uma professora universitária e antiga atleta de elite contra os escândalos que na altura atingiam o ciclismo, em especial as repercussões da “Operación Puerto”, investigação na qual a Guarda Civil espanhola desmantelou uma rede de doping sanguíneo que servia o desporto profissional e que terá tido 58 ciclistas como clientes, um deles Jan Ullrich. Este corredor foi um dos que foram afastados da Volta à França de 2006 (Sérgio Paulinho também foi, mas acabou por ser ilibado).

As autoridades descobriram que Rudy Pevenage, ex-director desportivo da equipa T-Mobile e ex-assessor de Ullrich, também teve um papel na ligação entre o campeão do Tour 1997 e a rede espanhola. E as investigações ao doping permitiram ainda descobrir que os antigos ciclistas da Deutsche Telekom/T-Mobile eram submetidos a programas de dopagem por médicos da clínica da Universidade de Friburgo que também trabalhavam para a equipa (há pelo menos quatro clínicos envolvidos). O inquérito a estes médicos ganhou nova importância depois de uma catadupa de confissões de ex-corredores da Deutsche Telekom/T-Mobile, em especial a de Bjarne Riis, vencedor do Tour 1996. Apesar de suspeito, Ullrich foi dos poucos que se manteve em silêncio.

Especificidade do código penal

O acordo entre procuradores e o antigo ciclista foi possível devido a uma especificidade do Direito alemão, o mesmo artigo do código penal que permitiu a Helmut Kohl, ex-chanceler germânico, encerrar em 2001 um processo contra si que fora aberto após a descoberta se “sacos azuis” nas contas do seu partido, a CDU, em troca do pagamento de uma compensação à justiça.

Os procuradores de Bona rejeitam a ideia de que estão a ser brandos com Ullrich, pois o antigo corredor já perdeu muito com este processo. “Ele terminou a sua carreira, renunciou aos seus salários e pagou os custos do processo. (...) A sua extraordinária reputação de desportista ficou manchada”, vincou o Ministério Público (MP) de Bona, num comunicado citado pela AFP, lembrando que, apesar de a alegada fraude ter sido cometida contra os seus colegas, patrocinadores e patrões, estes “renunciaram a apresentar queixa”, pois a equipa patrocinada pela T-Mobile/Deutsche Telekom não tinha interesse em ver a justiça interessar-se pelo seu próprio funcionamento interno e nem pelo seu passado ligado ao doping.

“Hesitei durante muito tempo antes de aceitar a oferta do MP, pois não tenho nada a recear de um processo na justiça, mas a razão da minha decisão prende-se com o facto de permitir libertar a minha família da pressão ligada a este processo”, afirmou Jan Ullrich através do seu site oficial, reafirmando a sua inocência: “Nunca enganei ninguém durante a minha carreira, nem prejudiquei ninguém. Fui sempre um desportista leal, as minhas vitórias são o resultado de um trabalho árduo e da minha paixão pelo meu desporto.”

Um dos procuradores do caso, Fred Apostel, tem uma opinião diferente. “A nossa investigação de 21 meses mostrou que Jan Ullrich se dopou”, afirmou Apostel à agência DPA, considerando que o ciclista “foi um talento extraordinário”, mas que terá recorrido à dopagem para manter a competitividade. Uma visão partilhada por Jörg Jaksche, ciclista que foi suspenso após admitir que usou dopantes: “É certamente correcto que as acusação de fraude seja arquivada, pois, tendo em conta que o doping era uma coisa tão usual, ele não defraudou ninguém. Mas, com base nas provas conhecidas, todos poderão tirar as suas conclusões sobre a relação entre Ullrich e o tema do doping”, disse o corredor à DPA.

O advogado de Ullrich, Johann Schwenn, reagiu ao “testemunho audacioso” de Fred Apostel. “Se há suspeitas suficientes de que ele [Ullrich] cometeu um crime, então o procurador deve apresentar uma queixa legal. Não cabe ao senhor Apostel espalhar mexericos maliciosos”, vincou o advogado, citado pelo Cyclingnews.com.

Processo na justiça desportiva

Mesmo tendo-se libertado da justiça penal, Ullrich enfrenta a desportiva. Bernhard Welten, da comissão antidoping do Comité Olímpico da Suíça, disse à Associated Press que se prepara para formular uma acusação, até Junho, na comissão disciplinar da Federação de Ciclismo da Suíça, organismo que emitiu a licença profissional do antigo corredor até 2006). “Dependendo do que encontrarmos, iremos pedir para arquivar o caso ou pedir para bani-lo para sempre”, adiantou Welten, lembrando que Ullrich já cumpriu seis meses de suspensão por uso de anfetaminas, em 2002, e que, à luz do código antidoping, uma segunda infracção significa suspensão vitalícia.

Não há ainda informações na imprensa internacional sobre se este processo na justiça desportiva contará com as provas recolhidas pelo MP de Bona, entre as quais a presença do ADN do ex-corredor em nove das 200 bolsas de sangue apreendidas aos líderes da rede de doping desmantelada na “Operación Puerto”, o médico Eufemiano Fuentes e o hematólogo Merino Batres.

O MP de Bona também encontrou registos de pagamentos a Fuentes feitos por Ullrich, entre os quais o depósito de 25 mil euros que o ex-ciclista fez numa conta do médico espanhol num HSBC de Genebra, e ainda espera que a justiça da Suíça entregue as alegadas provas encontradas na casa de Ullrich. A Guarda Civil espanhola também cedeu elementos recolhidos na “Operación Puerto”: os códigos usados por Fuentes para identificar os proprietários das bolsas de sangue e escutas de telefonemas entre o médico e Rudy Pevenage, ex-director desportivo da equipa T-Mobile e ex-assessor de Ullrich.

Além de ter conquistado a principal prova do ciclismo mundial, a Volta à França, em 1997, Ullrich foi quase sempre a maior ameaça à hegemonia de Lance Armstrong na corrida francesa, entre 1999 e 2005, e conta ainda no seu currículo com a vitória na Volta à Espanha de 1999, com um título olímpico no contra-relógio de Sydney 2000 e com dois títulos mundiais na mesma especialidade, em 1999 e 2001, este último em Lisboa.


Notícia originalmente publicada no site Podium, do Publico.pt, e reproduzida com autorização do autor, Duarte Ladeiras, após parecer positivo da Sociedade Portuguesa de Autores.

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