Jaime Nogueira Pinto: "A famosa não-intervenção dos fuzileiros tem a mão do PCP"

25 novembro. De repente, há uma parte importante da sociedade portuguesa que considera os acontecimentos político-militares que ditaram o fim dos setores de esquerda do MFA fundamentais para serem assinalados. Para esses, a democracia é filha direta do 25 de Novembro, e foi nessa data que se derrotaram as tentações totalitárias da revolução. Esta mudança de leitura histórica - durante quase 49 anos, o 25 de Novembro esteve em sossego -, está na ordem do dia. Sinal dos tempos e do reforço eleitoral de uma direita mais extremada. Para discutir isso, falámos com Jaime Nogueira Pinto e Fernando Rosas (<a href="https://www.dn.pt/i/17395549.html" target="_blank"><strong>LER AQUI</strong></a>), que curiosamente estiveram do mesmo lado nesse dia do ano de 1975.
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Jaime Nogueira Pinto estava fugido no 25 de Novembro, tinha um mandado de captura por causa do 28 de Setembro. Foi dos últimos voluntários para combater pelo Império. Privou de perto com os comandos que se bateram na última batalha conta a esquerda militar. Acha que foram os serviços secretos norte-americanos e soviéticos que impediram que esse dia não acabasse em guerra civil.

Tem um livro chamado Novembro, que acaba no 25 de Novembro de 1975?
A ação começa no verão de 1973 e acaba em 25 de Novembro.

Onde estava no 25 Novembro de 1975?
Estava fora de Portugal. Tive um mandado de captura depois do 28 de Setembro. Na altura que foi emitido o mandado estava no norte de Angola e fugi para a África do Sul. Devo ter sido o último voluntário para a guerra, troquei com um camarada meu, poucas semanas antes do 25 de Abril. Sendo um defensor do Ultramar Português achava que o mínimo que se me exigia é que fosse combater para lá. Mas como era bem classificado e as mobilizações faziam-se por ordem inversa de classificações, eu era para ficar por cá, mas troquei com um camarada da promoção da ação psicológica, do Exército, poucas semanas antes da revolução. O 28 de Setembro apanha-me em Carmona e fugi para África do Sul. Fiquei um ano aí, depois no Brasil e depois em Espanha. No 25 de Novembro, estava no Rio de Janeiro.

Como leu na altura o 25 de Novembro?
Em Madrid estive muito ligado à chamada resistência do ELP (Exército de Libertação de Portugal) do MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal) - o José Manuel Fernandes dizia-me sempre que eu devia escrever sobre esses movimentos de resistência, eu dizia-lhe que já estava escrito no Novembro, e que essa era a melhor maneira de falar sobre essas coisas. Têm-se escrito muitos disparates sobre esse período. Tenta-se basear as coisas em documentos oficiais. O que é sempre limitado nessas coisas, por exemplo, em relação ao Holocausto nunca se encontrou uma ordem escrita para a chamada "solução final". Essas coisas nunca se escrevem em documentos oficiais.

Mas foi dada alguma ordem de extermínio em Portugal?
Há aquela famosa armadilha da "matança da Pascoa" [suposta liquidação de chefias militares de direita que justificaria a tentativa de golpe de Estado do 11 de Março]. Não sei se as pessoas são ingénuas ou são mesmo burras. Iam ser supostamente mortas umas centenas de oficiais, como se em Portugal se matassem umas centenas de pessoas assim. Foi bastante inteligente quem lançou esse boato, porque fez sair forças que não eram para sair naquele momento.

Alguma coisa se pode dizer igual sobre o 25 de Novembro em sentido inverso?
Sobre isso, aquilo que eu acho curioso é que se fala de toda a gente, desde o doutor Soares até ao Melo Antunes, sem se falar das pessoas que andaram no terreno, aquelas cinco companhias de comandos, duas delas formadas por antigos comandos na reserva que foram convocados pela Associação de Comandos. Não se fala dos atores e participantes diretos. As companhias de convocados, a 121 e 122, comandadas por dois homens - um deles ainda está vivo, Manuel Sampaio Faria. Eu conheci muito bem esse pessoal dos comandos todos, porque tinha muitos amigos, como o Victor Ribeiro que fundou e dirigiu a Associação de Comandos. Essa gente é essencial no terreno. Há também os oficiais da Força Aérea que são importantes.

E Ramalho Eanes também?
Ele é um coordenador. Mas não é a mesma coisa. No fundo, era como falar do 25 de Abril, falando do PCP, do doutor Soares e não se falasse de Otelo Saraiva de Carvalho e do Salgueiro Maia. As pessoas do terreno também contam.

E há uma diferença significativa, em termos políticos, entre as pessoas que estavam no terreno e quem os comanda: o grupo dos nove e Ramalho Eanes?
Havia, porque as pessoas no terreno não tinham a mesma capacidade de expressão política. Os movimentos de resistência são definidos na política, por coisas que explicavam Maquiavel e Carl Schmitt : o que faz o terreno da política é a escolha do inimigo. À medida que uma força se torna hegemónica gera alianças contra ela. No Verão de 1975 gera-se uma aliança desde o Partido Socialista até pessoas de extrema-direita contra o PCP.

Leu na altura o 25 de Novembro como?
Eu conhecia bem a estrutura da Associação de Comandos, em outubro de 1975 tinha estado em Madrid e passei lá quase um mês, e tive muito com essa gente toda. Conhecia bem as estruturas que tinham sido criadas pela a Associação de Comandos. Conheci muito bem o Victor Ribeiro, que fundou a associação. Era piloto da TAP de longo curso, e como tinha tempo e passou esse tempo a percorrer o país a fazer o levantamento de pessoas, com os antigos comandos. São esses 260 convocados que ajudaram a fazer a diferença. Esse pessoal tinha experiência militar, vão para o regimento e são bastante importantes no 25 de Novembro. Depois há a famosa não intervenção dos fuzileiros que tem mão do PCP e penso que deriva da posição da União Soviética. Frank Carlucci [embaixador dos EUA em Portugal na altura e que foi posteriormente nomeado para um cargo cimeiro na CIA] nas suas memórias revelou que o embaixador soviético, em Portugal, garantiu-lhe que a União Soviética não queria pôr em causa Ialta, [que dividiu em fevereiro de 1945, a Europa em duas áreas de influência]. Os fuzileiros não saíram, e o doutor Cunhal sabia, até porque era um homem inteligente que se houvesse uma guerra civil poderia ganhar momentaneamente, mas depois perdia. Eu não digo que os comunistas não quisessem ir para a rua no 25 de Novembro, mas as cúpulas não queriam. Ainda havia o problema de Espanha. Franco morreu a 20 de novembro de 1975, e qualquer guerra civil em Portugal significaria que não teria havido transição para a democracia em Espanha. Se Portugal fosse uma espécie de Cuba na Europa, Espanha continuaria uma espécie de Estado autoritário. Funcionou uma coisa que existia muito nesse tempo, hoje isso já não é assim, era um mundo bipolar, havia controlo. Há coisas que hoje são assustadoras que eram impossíveis em 1975: os serviços de espionagem soviéticos e dos EUA, em última análise estavam presentes em tudo. No pós 25 de Novembro foram certamente importantes para travar a malta da direita que queria ir mais longe.

No entanto, a maior parte dos atentados da rede bombista de direita foram depois do 25 de Novembro.
A rede bombista era uma coisa : havia uns tipos que punham as bombas que eram relativamente poucos, e na maioria marginais, e depois havia uns tipos que cobravam pelas bombas. Conheci um banqueiro que estava em Paris, que coitado estava muito velhinho. Quando havia uma bomba apareciam-lhe umas criaturas que diziam que tinham sido elas, e cobravam-lhe dinheiro. Isso foi uma fantochada. Mas aquela resistência popular que fez a descida do norte é que contou. Tem, aliás, uma coisa engraçada uma espécie de geografia reacionária e popular que corresponde ao levantamento da Maria da Fonte, em parte à reação monárquica no norte.

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