Já nem a Praça das Flores está a salvo

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Decorre neste momento uma imensa e justificada polémica em torno do abate de um prédio característico da Praça das Flores, um prédio simples, sem pretensões nem ilusões, num local até agora um dos já raros santuários de uma Lisboa que alguns (demasiados, por vezes) teimam em varrer para debaixo do tapete, por razões que a razão desconhece ou, simplesmente, porque mantê-la de pé e com bom ar não compensa (nem aos próprios nem a terceiros) como esventrá-la de um só golpe para construir de novo, ampliando cérceas, ocupando logradouros, padronizando exteriores e interiores, regra geral por uma bitola contemporânea, que, pensam (e com razão) os promotores, para ser mais facilmente aceite pela opinião pública se sobrevaloriza com a respetiva assinatura de autor, na circunstância a de um Prémio Pritzker.

Mais uma vez, contudo, os moradores chegam tarde a algo que ignoravam, mas que ameaça ser um facto consumado. Trata-se de um processo todo ele pouco transparente, para já nem falar na ausência de consulta pública, que se justificava, não tanto pelo tamanho do projeto mas pelo seu impacte visual e no equilíbrio frágil da zona. A consulta a quem vive e ama o bairro e a cidade, não teria sido despiciendo.

As peripécias processuais que culminaram na aprovação em julho passado do projeto que motiva esta mais que merecida onda de indignação, foram relatadas oportunamente e em minúcia em artigo de investigação - uma espécie em vias de extinção - de um matutino mas não passou daí. A quem foi possível consultar o processo de obra foi de banzar a forma como foi possível ser aprovado semelhante coisa na Praça das Flores: há um verdadeiro relambório, suculento e infindável, de pareceres e contrapareceres, que culminou em aprovação por despacho de vereador, ancorado em muleta apelidada de "comissão técnica de apreciação", sem qualquer escrutínio d"aquém e além-departamento. Comme d"habitude.

Agora, resta aos contestatários impotentes, moradores na zona, aguardarem pelas respostas às suas queixas ao Ministério Público e à Provedoria de Justiça, e que elas cheguem rápido, mais céleres do que o camartelo que já espreita, uma vez o prédio entaipado, como está. De pouco valerá a petição ao presidente da Câmara Municipal e aos deputados municipais (Salvar a Praça das Flores e a identidade de Lisboa) mas quantos mais a subscreverem, melhor, fica para a posteridade. Em relação às queixas não me parece que seja possível à tartaruga ganhar à lebre, mas se La Fontaine acreditava que sim então também nós podemos acreditar que sim.

Mas há já quem queira misturar alhos com bugalhos para com isso confundir incautos: não, quem está contra o abate do edifício não o está porque o que vem aí é de um arquiteto com "A" (e não minúsculo, como se poderia pensar). Está contra porque a demolição do prédio da Praça das Flores, nº 10-14, a verificar-se, representará um total desrespeito pela cidade e pela sua malha histórica. Será igualmente um desrespeito absoluto pelo cidadão comum, pelo comum dos mortais:

Como foi possível à CML autorizar o abandono deste edifício como autorizou ao longo de anos? Um edifício que os próprios serviços consideravam possuir "características arquitetónicas com relevância, tais como a composição simétrica, a trapeira com grande presença, o beirado à portuguesa, os cunhais de pedra, os vãos de sacada com varanda, etc., que garantem uma integração equilibrada no conjunto homogéneo das edificações que definem urbanisticamente a Praça das Flores". Como foi possível que as chefias da CML contradissessem os serviços, que propunham a não aceitação do projeto, e argumentassem com uma frase tão caricata quanto vazia de idoneidade técnica "na arquitetura, como em qualquer outra arte (...) podemos ter vários olhares e todos eles válidos". E a tal comissão técnica de apreciação, é preciso mais abates na cidade histórica para que a extingam?

Voltando aos Pritzker, que saudades de 1988 e do que outro dos seus laureados fez aquando da reconstrução do Chiado, facto a que se referiu, aliás, por diversas vezes: em vez da substituição dos edifícios, o arquiteto preferiu "uma intervenção discreta, desprovida de marca autoral, procedeu à unificação estrutural de edifícios contíguos, mantendo a expressão formal exterior, o reequilíbrio funcional entre habitação, comércio e serviços, que foram repostas na métrica da arquitetura pombalina, recusando qualquer vedetismo". No caso presente, para agravo ainda maior do caso das Flores, constata-se que o prédio que se pretende construir é uma réplica de um outro no Porto.

Veremos as cenas dos próximos capítulos, mas fica a nota de rodapé: o mesmo modus operandi e os mesmos resultados estão à vista de todos um pouco mais acima entre a Praça das Flores e a Escola Politécnica, tal como no Bairro Alto, na Bica, no miolo escondido de Santa Marta e São José, e por aí fora. Pois é...

Fundador do Fórum Cidadania Lisboa

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