Já Confúcio dizia: poupar para não tropeçar

Publicado a
Atualizado a

Da Xangai dos arranha-céus e dos bólides importados, montra do novo-riquismo chinês, chega uma surpresa: dois terços das famílias poupam 25% dos salários, há até um terço que amealha 35%. Os dados, citados pelo Financial Times, surgem dias depois de se ter confirmado que a China ultrapassou o Japão como segunda potência económica. E mostram que, mesmo mais ricos, os chineses sabem dar provas da sabedoria que há milénios é marca da sua civilização. Na hora de comprar, pensam duas vezes, para desagrado dos governantes, que apostam no consumo interno para manter um crescimento que este ano deve ser de novo perto dos 10%. Descontentes com tanta previdência ficam também as multinacionais, que imaginam em Xangai ou Pequim as clientelas que lhes farão prosperar os lucros.

Houve, porém, uma época em que os chineses pareciam deslumbrados com a prosperidade do pós-maoismo, depois de em finais dos anos 70 Deng Xiaoping ter declarado ser glorioso enriquecer. Com taxas de dois dígitos, a riqueza passou a duplicar em apenas sete anos. E com a chegada do capitalismo sob patrocínio do Partido Comunista veio o ímpeto consumista. Em 1994, mais ou menos a meio do processo, o sinólogo Lucien Bianco notava no seu La Chine que "a poupança dos lares diminuía demasiado rapidamente". Mas hoje a sabedoria chinesa volta a impor-se. E os citadinos nem sequer são os mais poupados: nas aldeias, onde ainda muitas casas não têm frigorífico ou outros confortos modernos, não há pressa em desfazer-se de parte das economias, nota o estudo feito pela Economist Intelligence Unit.

Este nível de poupança dos chineses não tem comparação com o mundo desenvolvido. Segundo a OCDE, os americanos poupam apenas 1,2% do que ganham, enquanto os franceses chegam aos 12,3%, o que faz deles os mais precavidos dos ricos. Os portugueses, por seu lado, poupam 6,5% do salário, metade do que guardavam há década e meia, e estão entre os mais endividados da Europa. Não conseguem resistir à atracção dos tais confortos modernos.

Fazem bem os chineses em serem poupados. O regime encontrou a fórmula para a prosperidade, mas está a falhar na protecção social, uma traição ao ideário comunista. Como nota Federico Rampini, correspondente do La Repubblica e autor de O Século Chinês, "a China representa o mercado que maior expansão regista no campo dos seguros, seja de saúde, seja de vida, assim como dos fundos de pensões privados". Se o respeito pela tradição é partilhado por todos os chineses, dos yuppies das metrópoles aos camponeses do Sichuan, a memória de Confúcio também. Há 2500 anos, o sábio já dizia: "Os que são prudentes e humildes raramente tropeçam."

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt