ITV estreou há 50 anos a televisão comercial na Europa

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1955 Winston Churchill termina o segundo mandato como primeiro-ministro, a Inglaterra tem o primeiro avião comercial a jacto do mundo, Rebelde sem Causa e A Leste do Paraíso transformam James Dean num ícone global. E a televisão privada chegava à Europa.

A 22 de Setembro desse ano, às 19.15, cem mil britânicos assistiam ao arranque da primeira emissão da Independent Television (ITV). O primeiro canal comercial do Velho Continente vinha para contestar o monopólio e o modelo elitista da BBC. A grande novidade que tinha para mostrar ao público eram... os anúncios.

A emissão inaugural começou com uma peça de teatro, com John Gielguld e Alec Guiness. Uma hora após o início da emissão inaugural, um anúncio exaltava a frescura da pasta de dentes Gibbs, mostrando o produto dentro de um bloco de gelo. Seguiu-se o chocolate Cadbury e por aí adiante.

A televisão independente fora autorizada no ano anterior, através do Television Act, aprovado pelo Parlamento após quatro anos de debates. O Governo conservador fora sensível às pressões dos sectores da economia que queriam uma televisão com anúncios, para sustentar a expansão do consumo após a crise do pós-guerra. Comum nos Estados Unidos, o conceito de uma televisão comercial era estranho na Europa, onde o conceito do monopólio do Estado resistiu até aos anos 70 (em Itália), 80 (Alemanha e França) ou mesmo 90 (como foi o caso de Portugal).

"Não ficaremos incomodados se um violinista interromper o seu solo para nos dizer qual é a sua marca de tabaco favorita", disse o responsável pelos correios, na cerimónia inaugural do novo canal, cuja instalação fora apoiada pelo Post Office.

Não foi apenas a questão comercial que levou ao lançamento do canal privado, que punha fim ao monopólio da BBC. A estação pública britânica iniciara as suas emissões em 1936. A BBC não era apenas um operador de rádio e de televisão ela era o veículo do conceito de serviço público construído entre as duas guerras pelo seu primeiro director-geral, Lord Reith. A televisão de Reith visava a elevação moral e cultural das massas. Com a ITV, os britânicos abriam o espaço televisivo ao gosto popular. Desde o início até hoje, a ITV assumiu uma retórica anti-elitista e anti-establishment, que se torna regra em qualquer televisão privada.

No entanto, a ITV nasceu dentro de um quadro institucional rigoroso. Uma entidade reguladora, a Independent Broadcasting Authority, controlava a qualidade da programação. A informação estava obrigada a regras idênticas às da BBC. A televisão comercial nascia dentro da ideia de que devia completar o serviço público e, ao mesmo tempo, competir com o serviço público. Era o dupólio, que perdurou até 1990.

PROGRAMAS. A ITV, que demorou sete anos a cobrir todo o território britânico, procurou atingir padrões de qualidade idênticos aos da BBC. Foi responsável por alguns dos mais importantes programas britânicos de televisão. Entre os mais conhecidos dos espectadores portugueses estão Os Vingadores, Reviver o Passado em Brideshead, a Jóia da Coroa e Upstairs, Downstairs.

E criou um produto genuinamente popular, Coronation Street, criando um género que desempenha um papel idêntico ao das telenovelas em alguns países latinos. Coronation Street foi a primeira série a mostrar as classes trabalhadoras na televisão. Estreou-se em Dezembro de 1960 e continua a ser emitida hoje, detendo o recorde da série que é emitida continuamente há mais tempo. A ficção, que conta a história de uma cidade imaginária, Weatherfield, obrigou a BBC a criar a sua própria soap, East Enders. Um dos efeitos mais evidentes da ITV foi o de obrigar a BBC a adoptar um perfil mais popular. Tal como aconteceu com a RTP, em Portugal, após o aparecimento das privadas, a BBC percebeu que tinha de mudar, caso não quisesse ser esmagada nas audências.

"Sem a ITV, a BBC teria continuado a ser uma televisão de estado. Nesse sentido, penso que a ITV prestou um grande serviço à BBC", disse ao site da estação pública o antigo director de programas da ITV, David Liddiment.

Meio século após o arranque da primeira emissão, a ITV enfenta uma erosão nas audiências, comum a toda a televisão generalista. Enquanto a programação generalista se deslocou progressivamente para os reality shows, a ITV desmultiplicou-se, em 2001, nos canais digitais ITV2 e ITV3, tendo o canal principal adoptado a designação de ITV1.

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