Itinerância na paisagem

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Qualquer país é um produto do património natural, do património construído na relação com os habitantes das várias regiões. Nas memórias de Miguel Urbano Rodrigues O Tempo e o Espaço em Que Vivi e no volume Revolução e Contra-Revolução na América Latina deixou o seu testemunho a propósito de acontecimentos que marcaram a década de 60 e os primórdios da década de 70. Um dos temas dominantes é a ditadura no Brasil, o período da «cadeia do dragão», a tortura «com eléctrodos ligados ao sexo, à boca e aos ouvidos, recebendo, simultaneamente, jactos de água».

Mas também se depara o espírito e o sortilégio dos lugares que no Brasil, na Bolívia, no Peru e no Chile. Interpreta a «tristeza esfíngica e imemorial do índio do altiplano», a génese boliviana « filha do sincretismo cristão e índio», onde, por vezes, «em cada pacense parece habitar um Nero potencial». Exalta a opulência do barroco espanhol andino e os sabores da cozinha crioula de forte tradição indígena. Transporta-nos para a praia de Peruibe, mergulhada no «sol morno do Inverno tropical», ou, então, para o «mundo fechado e misterioso» da aldeia do Pindaiba, porta de entrada da Amazónia. Comunica-nos o fascínio dos píncaros dos Andes ao descer para La Paz «envolvida numa névoa quase transparente»; «a brancura azulada», «a terra sem árvores entre o cinza e o amarelo», «a grandeza suave da mais harmoniosa das montanhas».

Tudo isto e muito mais numa escrita criativa. A palavra certa no sítio certo. A expressão contida, a exactidão lexical, sem limitar a força e intensidade do real e a essência mágica da paisagem.

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