Itália. Um perpétuo renascimento

Mala de viagem (92). Um retrato muito pessoal de Itália
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Como arquiteto, a minha visita a Itália foi mais tardia do que deveria ter sido. Preferi outras geografias, antes de aterrar numa das origens civilizacionais e num dos centros mundiais da modernidade artística. Este país era visto por mim como um destino tão rico que uma vida não bastaria para o conhecer. A opção foi Milão e Florença, na passagem de 2015 para o ano seguinte. A viagem foi feita com uma coragem suplementar em relação aos resultados de um ano que passara e que fora de extremos para mim. Reservei um hotel no centro de Milão, a dois passos da catedral - Duomo di Milano - que é um dos grandes monumentos góticos do mundo. No hotel, não houve "a impertinência dos criados" de que fala Walter Benjamim na obra "A minha viagem a Itália", realizada em 1912, e para a qual o hotel foi escolhido consultando o "Baedeker" (guia de viagem clássico). No meu caso, optei pela compra prévia, via Internet, tal como ocorreu com os bilhetes dos monumentos, isto para não ficar nas extensas filas de espera. No átrio do hotel, li diariamente o "Corriere della Sera", apelidado de "moderado" por Claude Roy ("Diário de Viagens", Prelo, 1962) face ao "L"Unità" (comunista) ou ao "Avanti!" (socialista), mas todos tinham uma excelente "terza pagina", onde colaboravam os grandes escritores e os novos se revelavam. Voltando à minha viagem, ali bem perto do hotel, a Galleria Vittorio Emanuele II não necessita de pagamento à entrada, mas de muitos euros para compras. Não vislumbrei "uma bolsa de mercado negro sob a Galleria", tal como referiu Claude Roy, mas aproveitei bons preços para trazer um sobretudo e um casaco de pele bem quente para aqueles dias de inverno e com que de novo iria deparar em Portugal. Foi assim, também, que marquei a minha presença naquela famosa artéria de compras da Europa. Se a memória não me falha, foi no dia seguinte que visitei o mosteiro de Santa Maria delle Grazie, protegido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que abriga a icónica "Última Ceia", de Leonardo da Vinci. Quase não precisava de guia, mas ele lá estava. No interior, os antipáticos guardas de sala comandavam-nos como se fôssemos uma manada. Imagine-se que há autorização para fotografar os murais pintados, excepto se for numa "selfie", mostrando-nos na foto. A "Última Ceia" é uma imagem não criada pelo homem, mas institucionalizada por Jesus Cristo e interpretada pelo pintor. A ceia propriamente dita significa um memorial, uma prescrição do próprio Cristo para os seus seguidores e pretende dar esperança para o futuro. Naquele ano em que quase tudo me correu mal, mesmo um cristão, que muitas vezes se interroga, fica estático defronte daquela obra de arte do grande Leonardo e aguarda que a esperança o invada. Fiquei assim até ao toque no ombro do inconveniente guarda de sala. E, zás, defronte daquela obra sagrada, prevariquei quase como uma repulsa à postura daqueles italianos papalvos. Fiz uma "selfie" e zarpei. Ao longe, ficou uma discussão estéril entre os guardas e o meu guia, que sempre ia dizendo que, se não fora assim, aquela gente iria perder turistas. No dia seguinte, tomei uma viatura para seguir em direção aos lagos e a Florença, para a passagem do ano, e regressei a Milão, já no ano seguinte. A forma mais prática de percorrer os mais de cem quilómetros que separam Milão daqueles lagos é fazer o percurso de carro. O trajeto é quase todo por autoestrada, no sentido de Verona. Porém e na medida em que não me despachei antes da 9 horas da manhã, tive de esperar pela hora de almoço, que é quando abre de novo e por pouco tempo o trânsito não-prioritário em Milão, que foi outrora uma cidade profundamente poluída. Segui em direção aos lagos de Iseo e de Garda, e neste último foi onde me demorei mais: é o maior dos lagos italianos e um dos principais centros turísticos do norte da Itália, rodeado de pequenos aglomerados urbanos, como Desenzano, Malcesine, Limone ou Tignale. Descobri as cores da tarde junto daquele espelho de água. E, no final do dia, continuei a viagem para me encontrar com a resplandecente Florença. Nos dias seguintes, confirmei a ideia antecipada que tinha da cidade, ou seja, algo aconchegante para me fazer sentir em casa, entre os tons de terracota e de ferrugem das torres, cúpulas e claustros, com origem no Renascimento. O último jantar do ano foi no famoso La Bussola, que existe desde 1960 e é um dos restaurantes mais antigos da cidade, servindo carnes, peixes, pizas e massas; e com um delicioso vinho da casa e o "tiramisu", que, fatalmente, escolhi. Ao chegar perto da meia-noite, naquela atmosfera agradável de gentio, segui para a Ponte Velha, onde contei as últimas badaladas do ano e bebi champanhe que comprara numa mercearia no percurso do restaurante para a ponte. Talvez ficasse escrito que eu, a partir desse momento, devesse agir, criar e viver de novo. Até há quem queira findar-se em Florença por não ter nascido lá. Florença é como uma canção de amor que toca o coração e faz o nosso espírito luzir e ter esperança. Se voltar a Itália, vou querer tocar-lhe ainda mais, nem que por lá morra e renasça, num "quarto com vista para a cidade".

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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