"It takes a village" para levantar uma startup
O ecossistema de empreendedorismo em Portugal é um pouco como o ditado popular de que "o mundo é como uma ervilha". Trata-se de uma comunidade muito próxima e que, caso estejamos empenhados nisso, rapidamente temos acesso a uma boa rede de VC e stakeholders que nos podem ajudar com know-how, networking, mas, acima de tudo, inspiração. É através desta relação com o ecossistema que se desbloqueiam oportunidades únicas de desenvolvimento do negócio, com uma partilha desmedida, onde, mesmo que sejamos futuros concorrentes, o sharing information pauta as (boas) relações.
Eu não fazia parte da esfera tecnológica nem do sistema de empreendedorismo quando fundei a BHOUT, mas foi com o apoio contínuo dos programas de incubação da Startup Lisboa e Startup Leiria que ativei e trabalhei a minha rede de contactos, que fui envolvido na comunidade empreendedora do país e que experienciei, em primeira mão, os resultados palpáveis que o networking e as relações trazem a uma startup. Mas isto é algo que não existe só no "ecossistema": há cada vez mais empresas e universidades abertas à colaboração e a fazer parte do crescimento de startups, mesmo que venham a ser competidores.
Mas voltando ao ecossistema, por exemplo, toda a nossa estrutura de business angels edificou-se através de pontos de ligação que foram surgindo através de conhecimentos, pessoas que nos foram sendo apresentadas e ouvindo falar da empresa que estávamos a criar, com o entusiasmo que nos dava força ao (até então) "lirismo" de fundir o desporto e exercício à gamificação, atividade, por si só, que estava carregada de sedentarismo. E onde melhor para se criarem laços do que na maior conferência tecnológica do mundo, onde estão presentes, em poucos metros quadrados, todas as incubadoras, aceleradoras e investidores do país e potencialmente do mundo? Para nós, a união de forças com a comunidade empreendedora mostrou-se um fator-chave para a expansão da BHOUT, e sei que para outras startups também foi o caso.
As incubadoras têm um papel importante ao envolver a comunidade, e foram-nos sendo abertas portas precisamente por estarmos envolvidos com o ecossistema, uma grande aldeia global de partilha de ideias e experiências. Ora, a Web Summit é a concentração geográfica numa semana de todo o ecossistema nacional e, arrisco-me a dizer, internacional, por isso todas as startups em early stage podem e devem marcar nas agendas a sua presença na conferência.
Mas para receber, tal como nos aconteceu, também temos de estar prontos para dar - é a regra do "give back to the community": sendo players ativos no ecossistema, também queremos ajudar a escalar outros negócios ao partilharmos a nossa experiência e, sobretudo, ao criar iniciativas que promovam essa partilha. E onde podemos dar o nosso cunho para quem procura inovar no ecossistema, com tópicos que estão na berra (aliás, gritam), como gamificação e inteligência artificial, dois dos conceitos que se aplicam ao nosso saco de boxe inteligente, que ganhou, em outubro, a distinção da revista Time de uma das melhores invenções de 2023 na área de fitness, juntamente com produtos de empresas gigantes, como a Apple, Adidas ou Sony.
Nada disto teria sido possível se não nos tivéssemos entregue de corpo e alma ao ecossistema e fundido com os inúmeros talentos e empreendedores quando, em 2019, começávamos numa garagem com uma ideia. Podíamos ter sido "só mais uns" a arrancar uma empresa de uma garagem - quase que como um cliché do ecossistema -, mas chegámos a utilizadores reais porque não nos isolámos atrás do medo de sermos copiados. Tudo isto só resultou porque fomos abrindo o jogo com o ecossistema, que nos foi dando a mão e guiando pelo árduo caminho de construir uma startup, levantar investimento e continuar a expandir.
Mesmo com uma ambição internacional - que já está a acontecer e bem rápido -, certo é que apostámos no piloto e no desenvolvimento do saco de boxe da BHOUT em Portugal, um mercado que, contra todas as expectativas, fruto de um padrão ainda sedentário, nos recebeu de braços abertos, tal como o ecossistema, investidores que apostaram em nós, bem como parceiros que nos abriram portas. O mundo corporativo está a mudar, em que a cooperação e o fair play são palavras de ordem. São precisas verdadeiras redes de apoio (a village) para que uma startup seja vencedora. E o mundo, assim, é francamente melhor.
CEO e co-founder da BHOUT

