Isto só lá vai é com um novo Fernando Pessoa

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Ontem, a morte de uma atriz, protagonista de um filme de 1938, foi pretexto para eu revisitar um filme (Le Quai des Brumes) que quando foi feito ainda não sabia que ia exprimir o estado de alma dos franceses, por aqueles dias. Desde o título, cais, neblina, até ao enredo, tragédia, mortes, tudo apontava para angústia. E, no entanto, quando o filme foi pensado, os autores tinham outra prioridade. A famosa frase que citei, de Gabin para Michèle Morgan, "tens belos olhos, tu sabes", é que levou à escolha da atriz. O argumentista, o poeta Jacques Prévert, tinha a frase como obrigatória e, dela, foram à procura dos olhos mais belos do mundo. À partida, pois, a condicionante era estética. Mas realizador, argumentista e atores contaram um momento do mundo. Os artistas têm essa vantagem sobre os cientistas sociais: estes sabem mais; aqueles sabem mais fundo. Vivemos anos extraordinários (bastava esta semana...) e temos politólogos e sociólogos com teorias bem sustentadas. Uma querida e jovem amiga pensava que a aventura era só nos tempos dos pais... Depois, ela estava em King"s Cross, no momento de os bombistas se separarem por pontos cardeais para os atentados de Londres (2005) e, há um ano exato, estava na Breitscheidplatz, no mercado berlinense de Natal, onde agora houve o atentado do camião. Ela é testemunha da história e lê muito sobre ela. Mas ela só vai entender o tempo em que vive quando um artista lho disser. Por filme? Romance? Poema?...

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