Lembro-me de, há uns anos, ouvir um argumentista de telenovelas defender a pertinência "social" das suas histórias. Porquê? Por causa, dizia ele, da "ousadia" dos temas. Que temas? O aborto e a homossexualidade... A convocação de temas que envolvam alguma "perigosidade" constituiria uma prova automática de grande trabalho narrativo. Em boa verdade, qualquer filme dos Mínimos faz mais pela inteligência dos espectadores do que a acumulação de clichés telenovelescos..Vem isto a propósito da revelação de Loucamente, de Paolo Virzì. A sua importância não provém apenas da abordagem das relações entre pessoas loucas e cidadãos normais. Nele encontramos uma visão social que é bem diferente de um conjunto de temas que se tiram da cartola para espantar uma plateia tida como ignorante. Respeitando um princípio fundamental: cada personagem não se equivale a nenhuma outra. Há uma cultura chantagista segundo a qual colocar assim as questões é defender um cinema "intelectual" (a palavra "intelectual" ainda é usada como insulto). Estamos a falar, afinal, da postura estética e ética de uma produção italiana que, além do mais, tem na comédia popular uma das suas mais ricas e fascinantes tradições. Já é tempo de voltarmos a falar de cinema pelos valores do cinema, não através de estereótipos televisivos.