Irmãos "quadrúpedes" intrigam cientistas

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Um grupo de cinco irmãos - três mulheres e dois homens - do Curdistão turco, que se movem sobre os pés e as mãos está a intrigar os cientistas. Alguns acreditam ter descoberto pistas para um "elo perdido" na evolução dos primatas. Outros dizem estar-se apenas perante a compensação de uma anomalia física.

Estes humanos "quadrúpedes", tema de um documentário a exibir pela BBC no dia 17 deste mês, partilham uma deficiência mental causada por uma ataxia do cerebelo, a parte do encéfalo responsável pela coordenação dos movimentos corporais. Têm idades entre os 18 e os 24 anos e vivem com os pais e outros 13 irmãos e irmãs saudáveis.

Os cinco indivíduos têm graus distintos de incapacidade. Dois deles nunca conseguiram deslocar-se apenas sobre as duas pernas, mas os restantes já o fizeram por curtos períodos. As mulheres são mais sedentárias, passando a maior parte do tempo sentadas, mas o homem mais velho já chegou a empreender um passeio até à aldeia mais próxima. Porém, todos se deslocam habitualmente da mesma forma , apoiando-se nos dedos, numa postura distinta, por exemplo, dos gorilas e dos chimpanzés, que se apoiam nos punhos.

Nicholas Humphrey e Unter Tan, especialistas que contactaram directamente com a família, acreditam que este comportamento se deve à "estrutura genética especial" dos irmãos, que os terá levado a recuperar uma forma de locomoção abandonada ao longo da evolução humana.

A história documentou vários exemplos dessas regressões genéticas, descritas pela ciência como "atavismos". Entre os casos mais famosos estão certos indivíduos no México, que têm todo o corpo (incluindo a cara) coberto de pêlos, ou o famoso cavalo de Júlio César que, segundo a lenda, teria cinco dedos em cada pata. Porém, muitos especialistas não estão convencidos de que estejamos perante uma dessas situações.

"Sem ver a família é difícil ter a certeza", admitiu ao DN Jorge Rocha, investigador do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto. " Mas a minha primeira impressão é que eles andam assim porque não podem fazê-lo de outra forma, tal como uma pessoa que perde o braço direito aprende a escrever com o esquerdo."

Para este professor de Biologia Humana, a teoria proposta pela BBC "nasce da crença de que vai ser descoberto um gene mágico" que dita a postura erecta do Homem, quando esse progresso implicou "alterações evolutivas muito profundas", sobretudo ao nível da estrutura óssea, que "dificilmente" se poderiam justificar com a mutação de um único gene. "A chave do problema encontra-se mais na forma como os bebés passam de gatinhar para andar", apontou.

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