Há sempre alguém de respeito a dizer que Portugal deverá fazer como a Irlanda, a Finlândia ou a Dinamarca. Eu próprio, ciente da imensidão de ensinamentos que colhi em países onde vivi, trabalhei ou deambulei, dou frequentemente comigo a tirar deles inspiração e convicção. Acho até necessário alargar os alvos de observação, ponderando lições de toda a índole que nos podem oferecer, por exemplo, a Eslovénia e a Estónia ou, sobretudo, regiões como as do Centro/Norte de Itália, ou a Catalunha, o Levante e até, em certos aspectos mais focalizados, as regiões fronteiriças. .Em princípio nada contra, mesmo tudo a favor. Mas com uma condição prévia: desde que se seja rigoroso sobre a lição a retirar dessas comparações exemplares e sobre o que se impõe fazer de imediato com os portugueses que temos. Tal qual eles são, por si e como "produto" de uma história que nos enreda numa vivência cultural e institucional completamente antagónica da que se verifica, por razões diferentes, na Irlanda ou na Escandinávia, por exemplo. O mapa dos produtos internos brutos (PIB) per capita de hoje é muito semelhante ao mapa das taxas de literacia no princípio do século XIX..O recente crescimento explosivo da Irlanda deve-se a alguns factores absolutamente irrepetíveis em Portugal. À entrada do século XX, a história do Estado num e outro caso dificilmente poderia ser mais diferente. A meio do século, idem, para o nível educacional. A língua inglesa, a existência de mão-de-obra qualificada, a possibilidade de a Irlanda ser um quase off-shore fiscal tolerado no Mercado Comum levaram a um surto de investimento estrangeiro quase dez vezes superior ao que Portugal recebeu em fundos estruturais, a que acresce o facto de a Irlanda ainda ter recebido transferências agrícolas e estruturais quase duplas de Portugal, em termos de PIB. Imitar a Irlanda? Puro devaneio. Não chega de modo algum invocar a concertação social e a consolidação orçamental..Algo de semelhante se poderia dizer sobre a Escandinávia. Exalta-nos a conjugação da solidariedade do Estado Social com os primeiros lugares mundiais na inovação e competitividade. Muito a aprender, mas pouco a copiar. Creio que é nesse espírito que o Governo lança a flexicurização. A prova estará na vontade de organizar um grande debate nacional. Para que possamos encontrar por nós próprios um modo de desenvolvimento baseado na coesão e na inovação. Com os portugueses que temos e teremos.