Irish dream

Publicado a
Atualizado a

Estou na Irlanda. Vim cá de visita. Mas cheio de curiosidade de conhecer a poção mágica que transformou este pobre país europeu na estrela do crescimento e da riqueza.

Fui bem recebido por uma gente simpática e disponível, que sempre que os abordamos são atenciosos, mas de maneira nenhuma os poderemos comparar com as nossas gentes calorosas que antes do estrangeiro perguntar já estão prontas para o ajudar.

Não são como nós. Não falam línguas nem sorriem da maneira que nós fazemos.

Mas são educados e gentis.

E gostam do seu trabalho.

Fui passear.

Aquilo que mais se vê são as vistas, porque lá monumentos e tesouros quase não têm.

Um povo que foi dominado e uma terra que foi ocupada mais de setecentos anos não regista em monumentos os feitos que foram contra si e, como me dizia uma nossa conterrânea aqui residente, é um povo que não teve história nem império.

Foi essencialmente um povo sofredor, habituado a ter de ceder a outros que dele abusaram e, contudo, ao fim de todo este tempo agora vivem livres e podem decidir o seu futuro.

Não é uma terra rica, não teve carvão para se desenvolver industrialmente, não teve petróleo para recuperar a sua economia, não tinha grandes empresários nem ricos terratenentes, pois as terras renderam para aqueles que os ocuparam.

Não têm o sol nem a luz que tanto vale em Portugal, antes têm vento e muita chuva, que tem as suas valências, mas que claramente não estimula o estrangeiro a querer aí viver.

Não são nem foram pescadores.

Morreram de fome por uma doença que atacou a batata e que os deixou sem alimento e não foi na pesca que encontraram a sua solução.

Tiveram de emigrar e, os que o não fizeram, aqui acabaram por sofrer e morrer.

O que leva então este pobre e sofredor povo a conseguir sair da sua miséria centenária e obter os resultados exemplares que todos invejamos e que gostaríamos também de conseguir?

Como se transforma uma história de dor e desgraça numa realidade tão rica e promissora?

Algumas das razões advêm naturalmente da dureza daquela vida.

Uma enorme capacidade de trabalho, o reconhecimento de que qualquer pequena conquista tem valor, uma resiliência quase ilimitada, mas, acima de tudo, uma consciência de comunidade que resulta da certeza de cada um por si nunca teria conseguido libertar este país.

Todos os valores que em Portugal e em muitos países europeus estão a ser deixados de lado e a ser substituídos pela permissividade, o facilitismo, a irresponsabilidade e o egoísmo.

Foi com base naquele sentimento de comunhão de destino que conseguiram criar um sistema de angariação de investimento estrangeiro, na área que lhes era mais propícia - os serviços -, e que se baseou no consenso entre todos de que este seria o caminho para o sucesso.

E se é claro que a estratégia de apostar numa fiscalidade competitiva é um elemento essencial para atrair esse investimento, é a aposta na continuidade que dá a confiança aos investidores, e essa estabilidade vem da comunhão de interesses entre todos, de saber o que é mais importante para as suas vidas e para o bem comum de todos os irlandeses, mais do que a riqueza individual ou o caminho político de cada um e de cada partido.

E nós, em Portugal, com todas as vantagens de história, com uma nacionalidade com 900 anos, com um clima de reconhecida excelência, com uma terra e um mar que têm bastantes recursos, com um povo que a todos impressiona, conseguimos em tempos idos ter esta visão e trouxemos o complexo automóvel de Palmela para Portugal como um primeiro grande exemplo de investimento estrangeiro e depois...

Em vez de continuarmos estavelmente nesse caminho, mudámos de governo, mudámos de interesse, mudámos de fiscalidade, mudámos a lei...

E ficámos contentes por que somos capazes sempre de mudar para pior.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt