As doenças que afetam as culturas são uma das principais ameaças à produtividade agrícola e à segurança alimentar. Do conjunto de agentes patogénicos que constituem esta ameaça, os fungos representam mais de 80% e são responsáveis por reduções de produtividade que podem atingir os 30%. São também o principal motivo para a rejeição dos frutos e legumes ao longo de toda a cadeia - da produção ao consumidor - provocando grandes perdas económicas e desperdício alimentar..Apesar dos esforços para tentar controlar as doenças fúngicas, a incidência destas tem vindo a aumentar nas últimas décadas, situação que poderá ser agravada pelas alterações climáticas. Entre as estratégias implementadas pelos produtores, regista-se uma elevada utilização de fungicidas sintéticos. Porém, a eficácia destes produtos tem vindo a diminuir e a sua utilização tem um impacto negativo nos ecossistemas e na saúde humana..Na procura de soluções verdes enquadradas nos objetivos do Pacto Ecológico Europeu - que visa a redução em cerca de 50% do uso de produtos fitofarmacêuticos até 2050 no Mercado Único Europeu - uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) está a trabalhar numa alternativa aos pesticidas químicos que funcione como uma espécie de "vacina" com recurso a substâncias naturais a serem aplicadas em frutos e legumes..O Projeto BFREE, financiado ao abrigo do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR/IFAP), está a ser desenvolvido por uma equipa liderada por Susana Carvalho, professora da FCUP e investigadora do GreenUPorto - Centro de Investigação Agroalimentar Sustentável. Este projeto visa precisamente o desenvolvimento de práticas sustentáveis de controlo de doenças fúngicas no setor hortofrutícola, com enfoque na redução da aplicação de fungicidas sintéticos..Elementos-chave deste projeto são um conjunto de microrganismos endófitos - ou seja, já existentes nas próprias frutas e legumes - que podem funcionar como agentes de biocontrolo para anular a ação dos fungos patogénicos, explica Susana Carvalho. "Este projeto está enquadrado na lógica de resíduo zero e surge na sequência de um outro projeto que temos em curso, relacionado com o controlo da podridão cinzenta na cultura do morango. Em parceria com uma empresa de Biotecnologia, associada ao setor agrícola, identificámos várias espécies de leveduras com ação antagonista contra fungos patogénicos, podendo como tal vir a funcionar como agentes de biocontrolo no campo", refere a investigadora..São estes agentes que a equipa de Susana Carvalho está agora a testar, em diferentes formulações, como eventuais alternativas ao uso dos fungicidas sintéticos, cuja presença tem sido detetada com mais frequência nos frutos e legumes que chegam ao consumidor, com possíveis impactos na saúde humana - um contrassenso numa categoria de alimentos tidos como fundamentais para uma alimentação saudável e prevenção de doenças. "Aquilo a que nos propomos é encontrar uma alternativa sustentável, porque o uso alargado de produtos fitofarmacêuticos ainda se deve ao facto de não existirem essas alternativas ou serem bastante limitadas", afirma a investigadora do GreenUPorto..Por isso, a aplicação destes agentes de biocontrolo tem vindo a despertar "uma elevada atenção, quer no meio científico, quer no meio empresarial, como uma alternativa promissora e sustentável às abordagens convencionais para o combate a pragas e doenças", realça. Assim, "neste projeto iremos focar-nos no potencial efeito da aplicação de leveduras endófitas. Com esta abordagem pretende-se explorar ferramentas naturais (microbiota da planta) que já existem nas próprias plantas, e que têm uma ação antagonista sobre os fungos patogénicos, aqueles que provocam as doenças", descreve a coordenadora do projeto..O trabalho começou precisamente por aqui, pela seleção dos microrganismos com maior potencial antifúngico. O primeiro grande corte já foi feito e, nesta altura, a equipa trabalha com "cerca de 12 diferentes formulações de diferentes microrganismos", diz Susana Carvalho.."Começámos por testar o efeito das mesmas em laboratório, como se faz com um antibiótico, para ver qual a interação entre o microrganismo e o agente patogénico. Neste momento estamos já a analisar o efeito das formulações mais promissoras em campo, através da aplicação das mesmas diretamente nas plantas. Nós já vimos que têm uma ação antagonista, estamos a tentar perceber o porquê", acrescenta, explicando ainda que falta esclarecer se os microrganismos "têm de estar vivos para ter essa ação antagonista em relação ao patogénico" ou "se é algo que eles produzem e segregam para o meio em que foram cultivados que desencadeia esses mecanismos de defesa na planta"..O projeto, que irá decorrer ao longo de três anos, contempla quatro grandes fases: depois desta seleção e formulação de leveduras, segue-se a monitorização da eficácia destes tratamentos ao longo de um ciclo de cultura - "no primeiro ano só testamos na cultura de morango para desenvolver e otimizar os protocolos de aplicação; depois deste primeiro ano, iremos alargar a outras culturas, como framboesa, mirtilo e tomate"..Para o terceiro ano do projeto fica o "scale-up das soluções encontradas para condições comerciais, alcançando um universo de 135 produtores hortofrutícolas distribuídos pelo território nacional" e, por fim, a disseminação dos resultados de modo a chegar a qualquer produtor que pretenda uma solução mais sustentável para controlo de doenças..O ideal, admite Susana Carvalho, seria chegar a produtos eficazes para a prevenção e/ou controlo de várias doenças fúngicas de frutos e legumes - podridão cinzenta, oídio, míldio, antracnose e cladosporiose. Um preparado de agentes de controlo natural que funcione então como uma espécie de vacina, extraída dos próprios alimentos, permitindo uma solução ecológica e sustentável com vista à redução do desperdício alimentar e à implementação do selo de resíduo zero (destinado aos produtos livres de resíduos de pesticidas sintéticos)..rui.frias@dn.pt