'Invasão Secreta': a hora Marvel de Samuel L. Jackson

Não é um caso óbvio: uma série de espionagem saída da Marvel Studios.<em> Invasão Secreta </em>chega amanhã ao Disney+, com Samuel L. Jackson no papel principal, acompanhado por um elenco recheado que inclui Ben Mendelsohn, Olivia Colman, Don Cheadle, Emilia Clarke, entre outros.
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Escrever sobre uma nova série, ou uma temporada qualquer que seja, tem-se tornado cada vez mais um quebra-cabeças para a imprensa. O que é que é permitido dizer? Até onde é que se pode ir sem pisar a linha vermelha do spoiler? Pois bem, tentaremos respeitar as regras do jogo para falar do novo lançamento da Marvel, Invasão Secreta, uma produção que traz Samuel L. Jackson de volta à personagem que já interpretou 14 vezes - sempre de forma muito abreviada - em 15 anos de Universo Cinematográfico Marvel, desta feita sendo sobre ele que recaem todas as atenções. Quem, afinal? O espião Nick Fury, aqui a ostentar os 74 anos de Jackson numa postura ligeiramente quebrantada, mas nem por isso menos apta para enfrentar a ameaça que se abate sobre os seis episódios a partir de amanhã em estreia semanal no Disney+.

Avançando um pouco, é possível dizer também que a ameaça a que nos referimos está escarrapachada no título: uma invasão clandestina da Terra por um grupo rebelde de Skrulls (extraterrestres com a capacidade de tomar a forma humana a seu bel-prazer), que juntará o agente Nick Fury e os seus cúmplices numa luta e movimentação estratégicas contra o tempo, para salvar a humanidade. What else?

"Ele está um pouco cansado, um pouco vulnerável, mas de volta à Terra porque foi convocado. Veremos o que acontece..." Assim começa Jackson por descrever, com apreensão, o momento narrativo da sua personagem numa conferência de imprensa virtual anti-spoiler em que o DN participou. "Veremos o que acontece" é basicamente a expressão que traduz o esforço de um painel de atores (Don Cheadle, Cobie Smulders, Ben Mendelsohn, e os estreantes no universo Marvel Kingsley Ben-Adir, Olivia Colman e Emilia Clarke) o tempo todo a evitar qualquer desenvolvimento sobre o seu papel nos eventos da série. Para se apanhar alguma coisa, é preciso dar a palavra ao realizador Ali Selim, que foi muito eficaz no resumo da essência humana de Secret Invasion: "É a história de Nick Fury e ele é um humano - tem a sua própria versão de superpoderes, mas estes não são os superpoderes dos super-heróis. É muito diferente de ver pessoas a voar. Gosto disso porque gosto de histórias que vêm do coração e assumem a escala humana, alcançando um apelo universal."

Selim é uma peça especial neste contexto, porque não se trata do realizador de apenas alguns episódios, como notou o produtor Kevin Feige, sublinhando o facto de ele ser mesmo o responsável pela abordagem cinematográfica de toda a série, algo raro nas produções televisivas, que geralmente passam pelas mãos de vários realizadores. Neste caso, é uma forma de garantir a solidez do tom thrillesco ao longo dos episódios. Precisamente aquilo que mais atraiu Selim, para além do referido teor humano: "Gostei da espionagem, do elemento de suspense político. Voltámos a olhar para O Terceiro Homem [Carol Reed, 1949] e O Vigilante [Francis Ford Coppola, 1974], coisas assim muito fundamentadas e realmente humanas - espero que tenhamos trazido o suficiente disso para o tom da série. Sem entrar em spoilers, temos uma altura na história em que Nick Fury percebe que esta é a sua própria batalha, e torna-se uma espécie de herói clássico do western americano... O tom muda nos episódios posteriores com Nick Fury a ser um John Wayne."

Pelos dois primeiros episódios a que tivemos acesso percebe-se a defesa desta visão mais realista e sombria, em contraste com a agitação a que nos habituou o universo Marvel. Nesse sentido, Invasão Secreta será material mais adulto na base do argumento, inclusive tocando noções do atual cenário geopolítico, mas sobretudo tirando partido da presença de um ator já com porte de lenda americana, capaz de baralhar as expectativas entre a pose séria e o circunstancial humor negro, aquele modo de falar (aqui sem palavrões) que nos faz sentir em casa. Cada cena com Samuel L. Jackson é uma prova ganha.

Não é por acaso que na conferência todos os atores mencionaram o enorme privilégio de entrar numa série protagonizada pelo ator de Pulp Fiction. A começar por Cobie Smulders, que interpreta Maria Hill, a agente amiga de Nick Fury, claramente satisfeita e orgulhosa dessa posição: "Trabalhar com o Sam é o que mais gosto", diz, enquanto Jackson solta uma gargalhada típica... "Ele ri-se, mas é verdade", conclui ela, sem ironia.

E não é difícil imaginar a razão por que todos apreciam ter o ator por perto. Alguém que diz que fazer filmes, ou séries, se assemelha a um recreio. "É do género: levanto-me de manhã, tomo o pequeno-almoço, saio e procuro os meus amigos. Ao que é que estão a brincar hoje? É esse o espírito." E alguém que tem também a generosidade de descentrar o seu papel em Invasão Secreta, puxando para a frente os debutantes: "Não acho que seja apenas a história de Nick Fury, porque temos todas estas pessoas interessantes que circulam por ela. É a história do Gravik [Kingsley Ben-Adir], é a história da G"iah [Emilia Clarke], é a história da agente Sonya [Olivia Colman]... Personagens que estão a ser apresentadas e que nos fazem querer entrar na sua casa e ver o que está a acontecer. Nick Fury é o gerador de muita coisa, mas ele leva-nos a todas estas outras pessoas que são muito, muito interessantes."

Isto numa série, como reforça Jackson, que é "sobre pessoas a fazerem coisas de pessoas, sem todos aqueles "supers" a virem para salvar-te e ajudar-te a fazer o que quer que seja". Por outras palavras, parece que a Marvel decidiu explorar outros territórios para lá da fórmula fatigada de Vingadores e afins. De pés bem assentes na terra.

dnot@dn.pt

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