Inspirada em Rosa Mota, Inês Henriques marca o ritmo nos 50 km marcha

Portuguesa estabeleceu ontem o recorde mundial desta nova distância para o setor feminino, que a Federação Internacional só reconheceu em 2016. Objetivo é ser a referência nesta especialidade e dar o mote a outras marchadoras.
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Quando a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) decidiu, em 2016, reconhecer como oficial a prova de 50 km marcha para o setor feminino, Inês Henriques e Jorge Miguel, o seu treinador de longa data, descobriram uma oportunidade de ouro para prolongar a carreira e o sucesso da marchadora. Mais do que isso, a atleta portuguesa quis dar corpo à vontade de inspirar mais mulheres a correr esta distância, mostrando aos homens que também são capazes de o fazer. Ontem, Inês Henriques viu esse esforço recompensado, fixando o primeiro recorde mundial de sempre nesta disciplina.

"Acima de tudo, queria demonstrar que era possível", explica a recordista ao DN, poucas horas depois de cortar a meta com o tempo de 4:08.25 horas, numa corrida inserida no Campeonato Nacional de Estrada, em Porto de Mós (Leiria). Inês Henriques eclipsou o anterior máximo (4:10.59 horas), estabelecido em 1976 pela sueca Monica Svensson, num evento que não foi reconhecido oficialmente.

Segundo Jorge Miguel, a ideia passa por fixar-se como "a atleta de referência nesta prova a nível mundial". Aos 36 anos, Inês Henriques entende que pode ser mais competitiva em corridas que envolvam maiores distâncias. Nesse aspeto particular, inspira-se num exemplo de sucesso. "Lembro-me de que a Rosa Mota era uma corredora banal nas provas de 5000 m e 10 000 m. Só quando passou para a maratona veio a revelar-se uma atleta excecional. A Inês pode seguir as suas pisadas", admite o treinador.

A marchadora revê-se nesse exemplo e define-se como "uma lutadora" por natureza. "Os meus pais sempre me deram a cana e tinha de ir à pesca", recorda. Por estes dias, a perspetiva de pescar uma medalha numa competição internacional é a mais tentadora. "Isto poderá ajudar-me a lutar por medalhas, sim. Tenho algum talento, mas ainda tenho mais quilómetros acumulados, o que é mais importante numa corrida de 50 km", afiança.

O sétimo lugar nos Mundiais de 2007 e o 12.º posto nos Jogos Olímpicos de 2016 são os pontos altos de uma carreira que se abre agora a novas perspetivas. "Eu e o Jorge já tínhamos feito coisas bonitas, mas agora vamos ficar na história. Esta já ninguém nos tira", atira, sem conter o entusiasmo.

Novos horizontes

Inês Henriques quer utilizar a "visibilidade" sem precedentes que a espera para inspirar outras mulheres a aderir à nova distância. Até porque só dessa forma o IAAF terá condições para criar um evento de 50 km marcha exclusivo para o setor feminino nas suas competições.

A solução achada pela organização para o Mundial deste ano, que se disputa em Londres, passa por permitir às mulheres que compitam ao mesmo tempo que os homens. O problema é que o mínimo definido (4:06.00 horas) é igual para ambos os géneros. A IAAF teme que ainda não haja participantes suficientes no setor feminino para justificar a realização de uma prova exclusiva.

"Não é correto", considera Inês, que tinha o objetivo secreto de alcançar essa marca na corrida de ontem. "Até estava em bom ritmo, mas os últimos 3 km tramaram--me", lamenta. "Se tivesse tido um pouco mais de paciência, teria feito uma marca melhor", acrescenta Jorge Miguel. Inês Henriques está habituada a um ritmo mais elevado nas provas de 20 km e acabou por pagar a fatura na reta final.

"Até aos 45 km até se fez bem", brinca a atleta, depois de uma "experiência positiva" que vai exigir semanas de recuperação. As duas primeiras serão de regeneração, através de um "descanso ativo". Primeiro, há que fazer análises para saber o que precisa de repor no seu corpo. Depois, espera-a um estágio em altitude para preparar as próximas corridas da época.

Como não conseguiu os mínimos exigidos para participar no evento de 50 km em Londres, Inês Henriques terá de se debruçar novamente nas provas de 20 km, de forma a garantir a qualificação.

A ambição de brilhar nos 50 km vai ter esperar mais uns meses. No entanto, Inês Henriques já marcou o ritmo para quem quiser acompanhá-la, estabelecendo "uma marca extraordinária". Quem é garante é Jorge Miguel, utilizando como termo de comparação as provas não oficiais que estão documentadas numa classificação da IAAF.

Inês Henriques promete continuar "enquanto o corpo permitir e tiver prazer a marchar". Para poder seguir verdadeiramente os passos de Rosa Mota, resta-lhe esperar que haja mais mulheres a competir para tornar o evento apetecível ao ponto de ser incluído nos Jogos de 2020 ou 2024. "No início, quando decidi apostar nisto, muitas das minhas adversárias chamaram-me louca. Talvez agora pensem melhor", rematou, esperançada. Esta, pelo menos, já ninguém lhe tira.

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