Insensibilidade e bom senso

As declarações do secretário de Estado da Saúde, recomendando aos portugueses que recorram menos ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) e previnam os fatores de risco, merecem reflexão. Se é o tipo de discurso que até pode fazer sentido numa conversa entre gestores hospitalares, é, ao mesmo tempo, incompreensível do ponto de vista da sensibilidade social.
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É óbvio que todos reconhecemos que recorremos demasiadas vezes às urgências, muitas vezes sem qualquer necessidade. É evidente que muitos cidadãos têm hábitos prejudiciais à saúde. E, nesta linha de pensamento, o que foi dito por Leal da Costa não merece reparo. Porém, ninguém fica doente porque quer. E o exemplo dado pelo governante sobre a despesa do SNS com a diabetes é inaceitável. Ninguém sofre desta doença, ou de qualquer outra, porque quer.

A verdade é que, num país com o nível de carga fiscal como tem o nosso, é inaceitável que se diga aos contribuintes que os impostos que pagamos não chegam para garantir o financiamento de serviços essenciais como é o caso do SNS. E, pior ainda, conhecendo nós as consequências da crise económica e financeira que nos aflige - aumento do desemprego, empobrecimento generalizado - e sabendo nós que estes fatores potenciam as doenças provocadas por uma alimentação deficiente, não se compreende que o secretário de Estado da Saúde não tenha a sensibilidade para perceber que há coisas que não podem ser ditas de uma forma tão fria e leviana. Sendo certo que há um problema de sustentabilidade do SNS, ele também existe ao nível da Segurança Social. E era o que faltava, por exemplo, que o responsável por esta pasta viesse a público exaltar os cidadãos a não se reformarem ou a evitarem o desemprego, como se este estivesse nas suas mãos, a menos que haja uma agenda que não se conhece. Mas então assuma-se, de forma clara, aquilo que se pretende fazer.

A Índia e as mulheres

As violações, coletivas ou não, não são novidade na Índia. Em 2011 foram 24 mil as denúncias recebidas pela polícia, mas muitas vítimas nem sequer se queixam, por desconfiança do sistema judicial.

Mas a aparente indiferença da sociedade indiana perante estes crimes parece estar a mudar. Sobretudo depois da morte da jovem violada e agredida por um grupo de homens no passado dia 16 num autocarro de Nova Deli. Desde então, muitos milhares de indianos vieram para as ruas expressar a sua indignação perante este crime. Seja a natureza especialmente violenta deste caso ou a influência das novas tecnologias que graças à Internet e às redes sociais tornou um crime como este impossível de esconder, a verdade é que as mentalidades estão a mudar na Índia.

O primeiro-ministro, Manmohan Singh, e a líder do Partido do Congresso, Sonia Gandhi, já vieram lamentar a morte da jovem identificada apenas como "Filha da Índia". E a polícia já veio dizer estar a trabalhar para garantir a segurança das mulheres na capital, mas também noutras cidades do país.

Nona economia mundial, mas com um crescimento de perto de 5% previsto para 2012, a Índia é uma potência emergente em rápido desenvolvimento. Mas alguns problemas sociais enraizados continuam difíceis de resolver. Resta esperar que a morte desta jovem estudante de Fisioterapia não tenha sido em vão e marque um momento de viragem na sociedade indiana.

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